O artista norte-americano, hoje com 96 anos, rompeu nos anos 1950 com o expressionismo abstrato de Jackson Pollock ou Willem de Kooning, produzindo um conjunto de obras que deslocaram a atenção das emoções do pintor para a imagem e a sua materialidade. Ao gesto livre dos expressionistas, Jasper Johns respondeu com a pincelada calculada e a representação de objetos e símbolos já conhecidos. Jasper Johns não se queria ver nas suas telas. Surgem então as obras com bandeiras, mapas, números, letras e alvos, algumas das quais podem ser vistas na exposição Jasper Johns: Night Driver, a retrospetiva que o Museu Guggenheim de Bilbau lhe dedica. Abre ao público esta sexta-feira, 29 de maio, e estará patente até 12 de outubro na cidade espanhola do País Basco, mostrando a trajetória deste artista de referência da arte do século XX, precursor da Pop Art, Arte Conceptual e Minimalismo. . “O trabalho de Johns é muito sobre a representação e a perceção, é um trabalho muito diferente do que se fazia nos Estados Unidos quando aparece o Expressionismo Abstrato, que é uma pintura gestual sobre a identidade das pessoas, sobre o seu próprio pensamento, e Johns é um artista que é muito frio, ele gostava muito de Duchamp e Magritte, ele foi amigo de Marcel Duchamp e colecionava obras de Magritte”, sublinha Enrique Juncosa, o curador desta exposição. . Tudo começou com a obra Flag (1954-1955), que não está nesta mostra, em que ele representa a bandeira dos Estados Unidos. “Ele sonha que está a pintar a bandeira, é uma obra muito conhecida, e rompe com as obras que ele tinha até então. Ele pensa que encontrou o que queria, e então pinta as bandeiras, os alvos, os números, os mapas e as letras também”.As bandeiras seriam recorrentes na sua obra e em Bilbau estão expostas Flag on Orange Field (1957), Flags (1965) e Flags de 1987. As bandeiras são abstrações e não símbolos políticos, pois o que interessava a Johns era a lógica interna da própria pintura. Por exemplo, na obra Flags de 1965 há um interessante jogo de perceção. A obra, que está na capa do catálogo que acompanha a exposição, representa uma bandeira americana mas em verde, preto e laranja, com um ponto branco no centro, e outra bandeira por baixo em cinzento com um ponto negro no meio. O espetador, ao olhar para o ponto branco durante um tempo e deslocando o olhar para o ponto negro, vê a bandeira cinzenta ganhar cor – o azul e o vermelho aparecem surpreendentemente. .Estas obras estão numa primeira sala que reúne sobretudo as obras mais antigas pelas quais Jasper Johns ficou conhecido, dos anos 1950 e 1960, e onde se podem ver também Drawer (1957), False Start (1959), Map (1961) 0 Through to 9 (1961) ou Target (1961) em que representa mapas, números e alvos e coloca objetos físicos nas pinturas, como réguas (Painting with Ruler and Gray, 1960), colheres (In Memory of my Feelings - Frank O’Hara, 1961) ou vassouras (Fool’s House, 1961-62).Na sala seguinte está exposta outra das suas obras mais conhecidas, Painting with Two Balls (1960) e também esculturas de objetos quotidianos em bronze ou metal, como uma lanterna (Flashlight III, 1958) e uma escova de dentes (The Critic Smiles, 1959).Considerado o “pai da Arte Conceptual e do Minimalismo, com o tempo as obras não mantêm o mesmo estilo, vão mudando muito”, enquadra Enrique Juncosa. . Entre 1964 e 1972 a figura humana entra nas pinturas do artista, assim como o seu estúdio. Nesta segunda sala da exposição veem-se três obras de grande formato alusivas ao atelier de Johns, com a representação de portas e janelas e objetos como trinchas ou réguas. Exibe-se também um autorretrato, Souvenir (1964), realizado após uma viagem ao Japão, uma tela pintada de cinzento em que o seu rosto aparece impresso num prato de louça, e a que juntou uma lanterna e um espelho retrovisor de uma bicicleta.Entre 1973 e 1983 Johns inicia a série Tramas Cruzadas com trabalhos mais abstratos, traços repetidos e em espelho que remetem para várias origens, desde pintura primitiva, budismo zen ou uma pintura de Eduard Munch, Self-Portrait: Between the Clock and the Bed (1940-43). . Nos anos 1980 surgem também nos seus trabalhos referências à sua história pessoal e a obras de outros artistas, como Picasso (After Picasso, 1998), Frida Kahlo (The Bath, 1988) ou Barnett Newman (Ventriloquist ,1983), e na série Estações, com quatro quadros principais, sendo que nesta exposição podem ver-se as telas Summer (1985) e Fall (1986). Desta série resultaram ainda 32 desenhos e 50 gravuras. . Jasper Johns também tem uma extensa obra impressa, que pode igualmente ser vista nesta mostra. Estes trabalhos eram feitos a partir de quadros e esculturas já realizados, numa espécie de reinterpretação dos mesmos. “Pondo as ideias de lado para concentrar no ato de fazer”, terá dito o artista certa vez. Mas ainda antes de chegar a estas últimas salas do percurso que reúnem as suas obras sobre papel, mostram-se os trabalhos dos anos 1990 para a frente, incluindo o último quadro que pintou, Slice, de 2020, em que representa um mapa de galáxias e o desenho anatómico de um joelho. Surgem aqui também duas obras da série Catenary de 1998 e 1999, telas mais austeras, com motivos nas laterais remetendo para memórias de infância, em que aparecem também fios pendurados em curva. Está também exposta nesta sala a tela Montez Singing (1989-1990) em que o artista evoca a infância. . A retrospetiva também não passa ao lado das colaborações de Jasper Johns com outros artistas, como o coreógrafo Merce Cunningham e o dramaturgo irlandês Samuel Beckett. É mostrado o vídeo Walkaround Time com uma coreografia de Cunningham de 1968 em que a música e os movimentos são independentes e para a qual Johns criou o guarda-roupa e o cenário, inspirado na obra O Grande Vidro. A Noiva Despida por Seus Celibatários, Mesmo (1915-1923) de Duchamp, na qual se representam sete máquinas sobrepostas. Com a autorização do artista francês, de quem Johns era amigo, ele criou sete peças cúbicas em vinil transparente na qual estão reproduzidos de forma autónoma os sete desenhos originais. As peças expostas em Bilbau são reproduções efetuadas para uma apresentação da coreografia na Ópera de Paris em 2017. .Também se mostram nesta exposição as 30 gravuras que Johns fez para o livro de Beckett Foirades /Fizzles, com cinco textos, editado em 1976. . Em Jasper Johns: Night Driver exibem-se 140 obras do artista, mas aquela que dá nome à exposição, Night Driver (1960), não está entre elas. Trata-se de uma obra em carvão, pastel e colagem sobre papel que pertence a um colecionador já centenário (104 anos), que não quis que a obra viajasse, revela o curador.Juncosa escolheu este título para esta retrospetiva, conta, porque Johns disse que era “um desenho feito com uma emoção, um desenho baseado naquilo que sentiu quando conduziu um carro pela primeira vez à noite por uma autoestrada. É um desenho puramente negro em que debaixo tem dois retângulos, que está relacionado com outro desenho maior, em que os retângulos são em vermelho e amarelo parecendo um pouco as luzes de um carro”, descreve. “Gostava da ideia do mundo negro, noturno, da viagem, a ideia de transformação, de mudança, de concentração. Inclusive pode ter um significado erótico, conduzir pela noite. E é um título muito bonito, parece o título de uma canção”.Para Enrique Juncosa, mais do que a repetição de determinadas imagens (que existe), o que permanece ao longo das décadas no trabalho de Johns “são as ideias que manipulam as imagens, como ler imagens, como entender, como olhar, como ver as coisas”.O curador considera que a obra de Jasper Johns continua pertinente. Escreve o curador no catálogo desta retrospetiva que “no contexto atual, onde temas como a identidade são prevalecentes na arte contemporânea, a par de preocupações políticas e ecológicas, a obra de Johns assume uma posição central, confirmando o poder que as linguagens artísticas têm per si, sem necessidade de retórica afetada fazendo alarde de conteúdos de última hora”..Em 2022 Jasper Johns anunciou que não produziria mais arte, mas, revela Roberta Bernstein, uma das maiores especialistas na obra do artista norte-americano, no catálogo da exposição, ele produziu mais alguns trabalhos até 2025 em mix media sobre impressões.O curador esteve em contacto com Jasper Johns para a realização desta retrospetiva, e diz que teve liberdade total. “Ele disse-me que já não participa, podia fazer o que eu quisesse, os textos igual”. Esta exposição não deverá viajar para outros museus, por ser demasiado cara, adianta Enrique Juncosa. Só uma das obras expostas foi avaliada em 200 milhões de euros para efeitos de seguro (False Start , 1959)..Rosa Barba: Quando o celuloide se torna matéria escultórica .João Penalva distinguido pelo Grande Prémio Fundação EDP Arte 2026