A tradição de construir jardins em Suzhou é muito antiga, remontando ao século VI a.C. Durante as dinastias Tang e Song (séculos VII a XIII), muitos letrados e funcionários instalaram-se na cidade, atraídos pela beleza da paisagem e pelo seu ambiente cultural. Foi assim que os jardins privados começaram a florescer. O período de maior prosperidade, porém, teve lugar durante as dinastias Ming e Qing, entre os séculos XIV e XX. Ao longo da história, Suzhou chegou a ter mais de 200 jardins. Ainda hoje se conservam várias dezenas, entre os quais nove jardins representativos, inscritos na Lista do Património Mundial em 1997 e 2000.Suzhou situa-se na região do Lago Tai, gozando de um clima ameno, abundância de água e, desde cedo, grande riqueza agrícola e comercial. A região é também conhecida pelas chamadas pedras do Lago Tai, muito apreciadas na criação de elevações rochosas artificiais. Com a abertura do troço do Grande Canal a sul do rio Yangtzé, iniciada em 610, Suzhou ganhou uma posição estratégica nas rotas comerciais do império, sendo, durante as dinastias Ming e Qing, uma das cidades mais ricas da China, prosperidade que forneceu os recursos necessários para a construção dos jardins. Além disso, muitos letrados que serviam a corte, desiludidos com a carreira oficial ou pouco dispostos a participar nas disputas políticas, escolheram Suzhou como lugar de residência. Lá encontraram um lugar ideal para viver e transformaram o desejo de natureza em arte paisagística, criando, no meio da cidade, um refúgio de tranquilidade. Foi a conjugação de natureza, prosperidade económica e cultura letrada que permitiu à arte dos jardins de Suzhou manter-se viva durante mais de dois mil anos.. A ideia central dos jardins de Suzhou é recriar a natureza num espaço reduzido em que se procura sugerir montanhas e rios, e fazer com que a paisagem se transforme a cada passo. Poderá não haver no pátio uma montanha verdadeira, mas as pedras do Lago Tai são empilhadas para formar picos, grutas e ravinas, criando “montanhas artificiais”. Também nem sempre há rios verdadeiros, fazendo-se uso de lagos, pequenas pontes curvas e canais sinuosos para criar a atmosfera das zonas ribeirinhas do sul da China. Quando se percorre um jardim de Suzhou, cada curva revela uma nova cena, como se diante dos olhos se desenrolasse uma pintura paisagística em três dimensões. As janelas ornamentais funcionam como molduras, enquadrando sombras de bambu, pedras e beirais. As plantas, como a ameixeira, a orquídea, o bambu e o crisântemo, exprimem também valores apreciados pelos letrados chineses, como perseverança, elegância, retidão e desprendimento.Entre os muitos jardins de Suzhou, os mais famosos são o Pavilhão Canglang, o Bosque dos Leões, o Jardim do Administrador Humilde e o Jardim Liu. O Bosque dos Leões é particularmente notável. Construído na dinastia Yuan (séculos XIII e XIV), esteve inicialmente ligado a um templo budista. Recebeu este nome porque muitas das suas pedras têm formas que lembram leões, animal que, no budismo, simboliza nobreza, sabedoria e solenidade. No interior do jardim, as montanhas artificiais formam uma rede complexa de grutas, passagens e caminhos, como um labirinto de pedra. No início do século XX, o jardim foi adquirido por uma família de Suzhou de apelido Bei (também grafado Pei no Ocidente). Foi dessa família que nasceu o arquiteto Ieoh Ming Pei, que concebeu a pirâmide de vidro do Museu do Louvre, em Paris. Em criança, Pei visitava frequentemente este jardim com a família, tendo mais tarde reconhecido que as suas aventuras entre grutas, rochedos e jogos de luz influenciaram profundamente a sua compreensão do espaço e da relação entre arquitetura e iluminação.Os jardins de Suzhou entraram cedo no horizonte europeu. Em 1638, o jesuíta português Álvaro Semedo apresentou as casas e jardins chineses aos leitores europeus na obra Relação da Grande Monarquia da China, observando que as famílias ricas plantavam flores e árvores nos pátios, erguiam montanhas artificiais, mandavam transportar grandes pedras de lugares distantes, criavam aves e veados, e escavavam lagos ornamentais onde tinham peixes. A partir dos séculos XVII e XVIII, com a circulação das cartas e relatos de viagem dos jesuítas, difundiram-se na Europa novas imagens dos jardins chineses, alimentando o fascínio pela China. A sua paisagem sinuosa e a transformação contínua do cenário ao caminhar exerceram influência sobre as tendências da jardinagem europeia. Mais tarde, os jardins de estilo Suzhou viajaram também fisicamente pelo mundo. O Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, construiu o Astor Court, inspirado no pequeno pátio Dianchunyi do Jardim do Mestre das Redes, em Suzhou.Entrar num jardim de Suzhou não é apenas desfrutar de uma experiência estética. É também perceber como os chineses concebem a relação entre natureza e vida quotidiana. Ao trazer montanhas e água para dentro do pátio, estes jardins mostram que é possível criar, mesmo num espaço reduzido, um ambiente residencial agradável e próximo da natureza..Uma iniciativa "MACAO DAILY NEWS"