Iolanda lança ‘Quebranto’: menos eletrónica e mais tradição
Começamos pela palavra "quebranto". "O mau-olhado é aquilo que nos é lançado. O quebranto é aquilo que nós sentimos depois de o mau-olhado ser lançado. Reza assim a lenda», explica Iolanda sobre o título do seu primeiro LP. É a partir desta ideia que se define o tom que atravessa as 13 canções do álbum que será lançado no próximo dia 8 de outubro, e que inclui três músicas já editadas em single, Olha P’ra Ela, Responso e Noite Inteira .
A tradição e o mundo rural interessam a Iolanda e este novo projeto envolveu alguma pesquisa. “A minha mãe sempre me falou destas mesinhas e destas rezas. Não que ela as fizesse, mas ela adorava este universo. E eu pensei: isto é realmente uma coisa que vivi toda a minha vida e que nunca percebi muito bem porquê. Comecei a apaixonar-me pelo conceito e, quando dei por mim, já estava dentro de um mundo de mesinhas meio mágico. Portugal, sendo ainda um país bastante rural, permitiu-me viver isto bastante de perto. Mas, durante esta pesquisa, percebi que também nas cidades há muita gente que mantém estas tradições.”
A tradição, diz a compositora e cantora que venceu o Festival da Canção em 2024 com Grito, canção que lhe valeu o décimo lugar na final da Eurovisão, está em Quebranto de variadas formas. Iolanda lembra que cresceu em Biqueiras, uma aldeia do concelho de Pombal. E, assim como numa aldeia o espírito comunitário está mais presente, as canções do LP nasceram de um processo colaborativo. “Este disco é feito com muita gente e principalmente amigos. Ou seja, tive muito poucas pessoas que eu contratei para vir trabalhar para o disco. Foi uma coisa muito natural que eu acho que também se vive muito nos ambientes mais pequenos. Esta partilha, esta coisa de comunidade, eu quis transmitir isso no disco na forma como o produzimos. Fui ter com muita gente da zona de Ourém, que é perto de onde eu sou. Estamos todos aqui em Lisboa a trabalhar, mas não somos daqui. Como os Napa diziam, sentimo-nos todos um bocado deslocados. Acabámos por ir trabalhar para fora de Lisboa em sítios como Ourém, Caixarias, houve um writing camp que fizemos aqui em Lisboa, mas trabalhei muito naquela zona centro do país que vive muito estas pequenas tradições”, revela Iolanda.
Há neste álbum “uma certa necessidade de voltar a casa”, sublinha a artista, e uma das canções –Tão Bonita – até conta com o contributo da família. “Participa o meu pai, a minha mãe, a minha irmã e a minha avó. É a única canção que não escrevi. Foi o meu baixista que ma ofereceu”.
Produzido por Luar, colaboraram com Iolanda na escrita deste álbum artistas como Xtinto, Extrazen, Carolina Deslandes, Milhanas, Latte, ou Matheus Paraizo.
A tradição manifesta-se igualmente na sonoridade do álbum, como se ouve, por exemplo, em Olha P’ra Ela, que cruza funk e chula portuguesa, género musical tradicional do Norte do país, de ritmo marcado e dançável.
“Na sonoridade do disco, utilizámos um instrumento chamado braguesa, um dos cordofones tradicionais portugueses, que tem a particularidade de ser muito semelhante à guitarra portuguesa e ao cavaquinho. Há uma mistura de dois universos no álbum, porque o fado é muito da cidade – e nós damos lá uma perninha –, mas também temos esta sensação mais bucólica destas guitarras”, diz Iolanda.
A viola braguesa é um instrumento difícil de afinar, diz a artista, mas para ela tem a sonoridade ideal. “Se estamos a trabalhar nesse Portugal mais bucólico, porque não trazer esses instrumentos que vêm de sítios mais recônditos, como as serras, o interior do país. Sempre senti essa necessidade de transmitir essas sonoridades, e estes instrumentos foram perfeitos”.
Iolanda recorda que, em miúda, tocava num grupo de cavaquinhos e que a curiosidade pelos instrumentos tradicionais se mantém. E, apesar de tocar cavaquinho nessa altura, o que ela queria era bater no bombo, revela. Agora, mandou fazer um bombo tradicional em Lavacolhos. “Queria mesmo ir ao lugar onde são feitos e falar com as pessoas. Quero fazer essa pesquisa, porque acho que faz parte do processo.”
Mas voltando ao fado, há um em Quebranto . “Decidi gravar um fado, Maldição, é o Fado Cravo de Alfredo Duarte. Sempre quis cantar fado. Não sou fadista, mas acho que há uma alma fadista em cada português. Desde menina que me emociono muito a ouvir fado e queria dar, de alguma forma, o meu contributo. Foi assim que gravámos o Fado Cravo, com a letra de Maldição, que encaixava perfeitamente na narrativa do disco.”
Iolanda descreve o seu primeiro LP como de género “tradicional pop”. O disco também tem eletrónica, “mas muito menos do que eu achava que íamos ter”, sublinha a artista. “Nos primeiros trabalhos tivemos muito mais eletrónica do que temos neste. Este foi um disco muito orgânico, gravámos muitas percussões, há uma música que tem cadeira, alguém ‘tocou’ cadeira, que é uma coisa que eu não julgava possível…
Quebranto surge após dois EPs, Cura (2023) e Olha P’ra Baixo (2024) e Iolanda considera que este primeiro LP, que sempre foi um objetivo dela, vem no momento certo. “O segundo EP que eu lanço é logo a seguir à Eurovisão, ou seja, foi muito rápido. Não houve tempo para parar, para absorver aquilo que se viveu, não houve tempo para escrever uma coisa de raiz, que era o que eu queria. Eu precisava de tempo e queria fazer um álbum ‘à séria’, quase como uma tese. Sempre fui muito obcecada”.
Considera que Quebranto é o trabalho mais “coeso” que produziu até agora. “Estou muito feliz, as pessoas já me têm dito que sentem essa coesão, eu acho que isso é o melhor elogio que eu podia pedir”.
O álbum foi gravado em vários locais, sendo que as vozes saíram todas do Estúdio Zeco, de João Só. Trata-se de uma edição independente de Iolanda, tal como os seus EPs . “Eu trabalho com uma equipa inacreditável com a qual tenho construído uma família e, na verdade, acho que foi uma opção do momento. Cada vez mais vivemos numa era em que é importante protegermos aquilo que é nosso, sobretudo com o crescimento da inteligência artificial. Gosto de saber que, neste caso, os meus masters são meus. E, como este primeiro disco era muito especial para mim, uma coisa muito minha, muito pessoal, não me fazia sentido pôr terceiros ao barulho. Mas depois os masters acabam por não ser só meus, não é? São de toda a gente que escreve.”
A sua música, diz, é ouvida em países, como Alemanha, França e Espanha e a participação na Eurovisão terá contribuído para ganhar ouvintes internacionais. “E nos Estados Unidos, estranhamente. Eu gostava de perceber onde, porque acredito que seja muito nas comunidades portuguesas. Gostava de saber quem são as pessoas”.
Para a cantora e compositora que nasceu na Figueira da Foz, cresceu em Pombal e vive em Lisboa há cerca de 15 anos, seria "um sonho ir lá para fora tocar, não só para as comunidades portuguesas, mas levar a música portuguesa também mais longe e, principalmente, levar estas sonoridades que são mais do interior do país, que nem sempre têm tanto lugar à mesa".
Iolanda ambiciona, pois, fazer concertos noutros países, apesar de não gostar de andar de avião. “Nós, em Portugal, tendemos a pensar pequenino, por alguma razão. Não sei se é porque somos efetivamente pequeninos, aqui à beira-mar plantados. Mas penso nisto porque a forma como nós cantamos as palavras não há igual em lado nenhum. A Deslandes diz isso: temos a língua mais bonita para cantar o amor.”
Iolanda assume-se como “artista-performer”, até porque antes de começar a escrever canções andou dez anos a atuar em bares a cantar músicas de outros autores. “Quando tenho concertos, quando estou mais ao vivo, sinto-me sem dúvida uma artista-performer. Saio da minha condição de escritora de canções. Acho que entro nesse mundo de escritora de canções quando estou no estúdio, a trabalhar com os meus colegas, com os meus amigos. Mas, se tiver alguém a escrever para mim, entro facilmente nesse modo performer, porque preciso de perceber se faz sentido”. Admite que hoje gosta mais de cantar do que de escrever. “Gosto de escrever com outras pessoas. Não sei como será o próximo disco, mas neste foi uma grande ajuda a ter mais pessoas”.
Nesta altura, todas as atenções da artista estão centradas no lançamento do disco e na preparação do concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, marcado para 7 de dezembro — “sinto-me uma verdadeira CEO”. No espetáculo, que terá um palco em formato 360º, com o público à sua volta, serão interpretados maioritariamente temas do novo álbum, “mas também quero tocar as canções que me trouxeram até aqui, que me permitiram estar neste sítio”, diz Iolanda.

