Relatos de um Coração Confuso segue-se a Girassóis e Tempestades (2023) e tem13 músicas, das quais já se conhecem os singles É o que É, Fim, e Gente Aberta, uma versão de uma música de Erasmo Carlos, cantada em dueto com Camané. Marisa Liz escreveu três músicas em parceria com outros músicos e é também produtora do álbum, com Tiago Pais Dias (que também era dos Amor Electro) e Gui Salgueiro. Marisa Liz pensa em tudo, “das ideias dos vídeos e fotos, aos looks , escolha das cores do disco, até ao saber eu queria ter uma data de coisas escritas e riscadas no booklet”, diz a a artista que inicia, no dia 13 de junho, uma nova tour pelo país. O conceito visual dos teus álbuns também é muito importante para ti?Eu penso em tudo. Eu tenho que começar por um conceito. Não me faz sentido gravar discos quando eu não sei o que é que tenho para dizer. E este disco começa exatamente com o título. Eu não tinha mais nada sem ser o título. Porque eu sabia que estava confusa, por vários motivos. Temos vivido anos difíceis, com a humanidade, ou a falta dela. A forma como o meu cérebro trabalha e as condições que eu tenho dificultaram-me saber lidar com estas coisas. E com outras, no dia-a-dia. A confusão destas máscaras todas, constantes. E de eu tentar perceber o que é que as pessoas dizem. E se estão a dizer a verdade. E se não estão. E o que é que a cara diz quando elas dizem. Fui diagnosticada com PHDA e autismo, portanto, há aqui várias coisas. Eu tentei mascarar-me durante muitos anos para deixar os outros confortáveis. O que me deixava a mim num desconforto tremendo. E isto tornou-se num grupo de pessoas confusas. Não estavam antes, mas ficaram, claramente, todos eles. Os compositores, o Gui e o Tiago como produtores comigo, e toda a equipa que se foi juntando. Foram a minha terapia, juntamente com a medicação e com a terapia a sério.Como é que surgiu esse diagnóstico?Nasci em 1982, venho de uma geração em que era descrita como uma miúda aluada. Com muita energia, com alguma incapacidade de cumprir regras, com hiperfocos. O que às vezes não era nada saudável. Felizmente os meus hiperfocos foram para a música. Eram horas e horas e horas a ouvir música, como se lê um livro. Porque eu não tenho a capacidade de ler um livro, que é das tristezas que me acompanham. Por isso é que eu gosto tanto de poemas. E de poetisas. E dos prefácios dos livros, porque os prefácios eu conseguia ler. . É por isso que há um prefácio neste novo disco, Retratos de um Coração Confuso?Disse ao Paulinho Moska que gostava de ter um prefácio no disco. E ele disse, ‘não estou a perceber, queres que eu escreva onde, no booklet?’ E eu, ‘não, não, não, é mesmo no início do disco, porque eu gostava de ter um prefácio musicado’. Porque os escritores, quando têm um prefácio, convidam pessoas que eles admiram para sucintamente darem uma opinião sobre aquilo que leram. E eu disse-lhe que gostava que ele fizesse isso, mas em música. E ele: ‘estás a confundir-me, eu nunca fiz isso, mas tu já tens a música?’ Tenho, calma. Já tinha decidido tudo, tudo isto foi desenhado ao pormenor. Ele foi das primeiras pessoas a ouvir o disco todo para fazer um prefácio. O prefácio foi feito no fim, foi a última coisa. Eu mandei-lhe o disco, ainda nem estava misturado e disse-lhe ‘para escreveres um prefácio tens de ler o livro’. Ele foi ler o livro, escreveu o prefácio e pronto, espero que mais malta consiga ler o meu disco.Retratos de um Coração Confuso é o título de uma das canções escritas pelo Paulinho Moska. Mas a frase é tua?É uma frase minha, sim. Os conceitos vêm todos da minha cabeça. Porque o livro está aqui, todo escrito. Eu simplesmente não consigo escrevê-lo. Mas escreveste três músicas... Sim, três músicas e três letras. Sempre com outros.Essas colaborações vêm compensar de alguma forma o não teres banda, como tinhas com os Amor Electro?Tem a ver com aprender. Estar com outros artistas para aprender. Eu não consigo aprender se estiver só comigo. Se fosse fazer neste disco aquilo que eu já sabia, ia fazer aquilo que eu já sabia. E aquilo que eu já sabia, eu já sei. E eu não posso ser a mesma cantora e a mesma compositora quando eu não sou a mesma pessoa. E o que é que aprendeste neste teu segundo álbum a solo?Aprendi que tenho montes de coisas para aprender até ao final da minha vida [risos]. Não, neste disco foi uma decisão consciente eu não ter tantas composições. Eu tinha várias canções que poderiam estar neste disco, de que eu gosto muito. Provavelmente podem estar no outro. Ou não, porque eu quando faço, ou pego, ou nunca mais volto atrás, porque depois já não tenho as mesmas coisas para dizer, já não faz sentido editar aquilo. Mas foi consciente, porque eu queria não só desafiar-me na interpretação, mas tentar que as canções e as composições não tivessem país. Porque nós somos influenciados, obviamente, por várias coisas. E então há estilos de composição, harmónicos, melódicos e líricos. No nosso país, tens alguns padrões, que são até bastante interessantes. Como no Brasil, tens um estilo de composição a nível da harmonia. As sétimas, as nonas, a nível melódico, nunca são notas com uma disparidade muito grande de intervalo. A forma e a cadência como as canções são feitas, não estou a dizer que são iguais todas no Brasil e que são iguais todas em Portugal, mas há uma base. E que vem daquilo que nós somos. E aquilo a que me queria desafiar era ter canções em que não se percebesse de onde é que elas eram. Quase como se cada um de nós fosse um país. É o mesmo que eu dizer, eu canto com o Camané e estamos a cantar na mesma língua. Não, não estamos. O Camané fala português, mas a linguagem dele é só dele. Que nada tem a ver com português, inglês ou francês. Não tem país, não tem sexo, não tem cor. Aquele homem canta e tu quase nem precisas perceber o que é que ele está a dizer. Porque tu percebes, vem de dentro, vem de uma coisa a que nós não podemos dar nomes nem formatar, que são emoções.Neste álbum tens duetos com o Camané, Rui Veloso, além de canções com o Paulinho Moska...E os Monobloco, também tenho um dueto com os Monobloco.Porquê estas escolhas?Por causa das canções que eu tinha. Há muitas pessoas com quem eu quero cantar. Mas eu nunca fiz nenhuma música porque quero cantar com alguém. Primeiro vem a canção. Portanto, há pessoas com quem eu quero cantar e que eu ando à espera há anos que venha a canção. Que eu a faça ou que alguém me dê, entre aspas. E quando há esta canção do Gente Aberta, a primeira voz que me veio à cabeça foi a do Camané. E ele aceitou, por sorte minha. Com o Rui Veloso foi mais difícil, porque o Rui Veloso nunca estava cá. E eu comecei a ficar nervosa. Quando fizemos essa música, do Maninho, É Por te Amar, dissemos ‘isto é para o Rui Veloso’. Há uma das frases do refrão que me fazia lembrar um intervalo de notas que ele tem numa das músicas dele antigas.Mas foi difícil de convencer?O Rui Veloso não estava cá, não sei o que é que ele andava a fazer. A trabalhar, as pessoas têm a sua vida. E eu mensagens, mensagens, mensagens, e ele: 'Tu não desistes'. E ele gravou primeiro, estava maravilhoso, mas eu liguei e disse-lhe: 'Eu sempre quis ter e fazer a música contigo. Este disco, como todos, são muito emocionais para mim. Eu não quero cantar esta música que tu gravaste e eu gravei. Temos que gravar isto tudo outra vez juntos'. E foi das noites mais inesquecíveis que eu vou ter na minha vida. E eu esqueço-me de tudo, de tudo, porque geralmente a minha memória está ligada quase sempre às emoções - muito aos meus filhos - , e as emoções através da música. Eu não me lembro da maior parte das conversas que a gente teve, mas eu lembro-me de todos os solos que aquele homem fez naquela noite. E de tudo aquilo que a gente curtiu. Eu senti que estávamos numa década onde a malta vivia a música como se fosse oxigénio. E tenho a sorte de ter o Rui Veloso.E como é que surgiu esta parceria com o Paulinho Moska, que escreveu cinco canções?Tem quatro e o prefácio, mas o prefácio não é uma canção. É prefácio por causa dos livros. Eu conheci o Moska quando tinha vinte anos, um bocadinho menos, quando o Ricardo Santos dos Dona Maria me mostrou um disco que se chama Móbile. E diz-me ‘acho que devias ouvir isto’. E esse disco é a minha bíblia - tenho vários discos, não foi só esse que consumi daquela forma, mas não vamos por aí. Mas esse disco foi um disco que eu consumi dessa forma nada saudável, onde eu descobri um compositor que dizia tudo aquilo que eu não conseguia. E que escrevia tudo aquilo que eu ainda não tinha confiança para escrever. E que não tinha medo. O disco do Moska mudou a minha vida. Passado uns tempos, convidaram-nos, ao Amor Electro, para ir cantar ao Rock in Rio no palco secundário, e disseram-nos que cada artista português podia convidar um músico brasileiro. Fizemos o concerto no Rock in Rio e a nossa amizade foi crescendo. E nisto eu ligo-lhe a dizer que precisava da ajuda dele, e a nossa amizade transformou-se mesmo numa amizade de admiração mútua. O Moska estava com um bloqueio, desde a pandemia, e não conseguia compor. Então ele diz que nós nos salvámos um ao outro. Ele disse-me ‘o teu coração confuso, está a iluminar o meu’. E a partir daí ele faz um disco, tanto que das quatro canções que ele fez para mim, três ele vai pôr no disco dele. Começou a compor que nem um louco. . Musicalmente, sabias exatamente aquilo que querias, és produtora também do disco...Não, não sabia, estava extremamente confusa, começo com as canções. Aliás, qualquer dia vou fazer um antes e depois, as músicas como eu as recebi e como elas ficaram. São canções diferentes. E eu fui recebendo as canções, e quando fomos para Sintra, o Gui estava em pânico, o Tiago estava em pânico - não me diziam. Eu sabia que queria ter um disco mais orgânico, sabia que queria ter congas, eu queria ter congas, desse por onde desse, porque eu andava a sonhar com congas, tanto que É o que é tem muitas congas e há mais uns temas que têm congas, e flautas.E orquestra...Isso foi depois, que eu queria, mas eu tinha que ir devagar. Eu não podia estar a dizer logo tudo assim, que é para a malta não entrar em pânico [risos]. E eu tinha uma data de linhas na cabeça de cordas, por exemplo, da canção Planeta 22. Eu andava com ela há dois meses. E eu acordava a pensar, sai da minha cabeça. E quando chegamos à parte do Planeta 22, é daquelas coisas, o Rick Ruben costuma dizer isto, as ideias que os artistas têm, não são eles que as têm, elas vêm ter contigo. E quando tu não as agarras, elas vão ter a outra pessoa. Já os Beatles diziam isto. Quando nós estamos conectados com aquilo que estamos a fazer, as coisas começam a fazer sentido, mesmo que tu não saibas para onde é que tu vais. Porquê escolha de Gente Aberta de Erasmo Carlos?Pela letra, pela mensagem que eu precisava nesse disco. Pelo compositor que é, por ouvir esta música há muito tempo. E eu conheço esta música. Quando eu decidi que esta era a versão do disco, eu nunca mais a ouvi. Nunca mais. Então o que é que eu tinha? Eu tinha o poema e eu sabia a melodia. E aquilo que eu tento quando eu vou fazer uma versão é: se eu nunca tivesse ouvido esta música na minha vida, como é que estas palavras, se tivessem saído de mim, como é que eu as ia dizer? Será que era por cima deste acorde? Eu acho que eu não ia escolher este acorde. Eu acho que para esta palavra eu ia escolher este. E depois é esse trabalho. Sou eu com o Gui ou com o Tiago.Depois deste processo todo, o que é que dizes deste teu segundo trabalho a solo? Estás contente?Eu nunca estou contente. Não é estar contente, estou orgulhosa, estou extremamente orgulhosa e entusiasmada com este disco. Eu tenho medo de tsunamis, mas fui contra um. Eu não cedi, em parte alguma, em nenhuma nota, nenhum tempo - temos músicas de seis minutos -, nenhuma palavra. Isto é o que eu gosto. Basicamente, eu diria assim: Se eu fosse músico e fizesse música, isto era o que eu fazia. Isto é o que está na minha cabeça e é o que está no meu coração. Agora, se vai fazer sentido a mais alguém, não sei, mas eu precisava disto. É uma necessidade. Se eu estou contente, não, porque agora já tenho necessidade de dizer outras cenas. Então é uma inquietação...Como descreverias este álbum, de forma sintética? No primeiro eram girassóis e tempestades...O primeiro era o início do iceberg. Aqui fomos para debaixo de água. Mas não fomos até ao fundo. Fomos para aí dez, 20 metros, estou a preparar-me para mais. O processo na vida é esse, é tu conseguires ter coragem e ir aprendendo, ires-te desafiando a ir mais longe. E o mais longe é conhecer-te. Eu não consigo compor ou cantar sem me conhecer, porque é uma expressão daquilo que eu sou. Uma frase a deixar é mesmo o nome do disco, acho que o nome do disco diz tudo. Relatos de um Coração Confuso, o Paulinho até fala do meu diagnóstico em algumas letras.Sentes falta de ter uma banda?Não, eu sinto falta de Amor Electro. Os Amor Electro podem voltar? Vão. Voltar a compor, não sei, porque compor sem o Rex [Rui Rechena, falecido em 2019], não, e ele não compunha quase nada, mas a questão não é essa. Nós estamos num processo, e tanto que eu produzi este disco com o Tiago.Já há uma aproximação?Sim, houve. A questão é que o Tiago conhece-me muito bem e eu estava tão confusa para este disco que precisava de família. Eu tenho saudades dos Amor Electro que dói. Eu pensava que os Amor Electro iam ser para sempre. Mas as pessoas morrem e as coisas acontecem na vida e acredito que os Amor Electro, acredito não, sei que vão voltar, porque é uma vontade nossa, ainda não decidimos é quando. Acho que ainda há aqui um processo de cura que está a acontecer. Mas voltar a tocarmos juntos nós vamos, nem que seja para celebrar o Rex. Perderes um amigo, na fase mais bonita que todos nós estávamos a viver, é doloroso. E por isso é que deixámos de tocar. .Sara Correia, Veigh, Vizinhos e Quim Barreiros no Sol da Caparica.MARO: “A música para mim tem que continuar a ser o escape criativo onde posso experimentar e divertir-me”