Com 11 canções escritas apenas por mulheres, Tempestade foi “pintado” pelo produtor Diogo Clemente e tem “várias sonoridades” porque, diz Sara Correia em entrevista ao DN, "o fado tem esta capacidade de entrar noutras músicas. É mágico, e a magia cabe em qualquer lugar". O álbum é lançado a 27 de fevereiro em CD e nas plataformas digitais e em vinil a 6 de março. No dia seguinte, 7 de março, a artista atuará ao vivo no MEO Arena, em Lisboa, e a 20 de abril terá um concerto na prestigiada sala Barbican, em Londres. O álbum chama-se Tempestade. Vem da letra de Avisem que eu Cheguei, escrita por Carolina Deslandes, canção que foi lançada em single em novembro do ano passado?Também ajuda, mas tem a ver com esta transformação pessoal, todas as coisas que eu fui passando ao longo da minha vida, e de ir buscar esta força interior que só nós mulheres sabemos que temos, e sentir que nós realmente somos uma grande tempestade, temos uma grande força. E é um disco que fala exatamente disto, da força da mulher.As letras das 11 canções são todas de mulheres. Como é que elas vieram parar às tuas mãos?Primeiro de tudo, foi um processo. Este disco começou no ano passado, no meio dos concertos, no meio da loucura, da grande confusão, com muitas coisas a acontecer, mas já com algumas ideias do que é que nós queríamos preparar para este álbum. Eu já tinha três músicas na minha mão, o Avisem que eu Cheguei e o Canto, que vai ser o meu próximo single, os dois escritos pela Carolina Deslandes, que me conhece bem e que, de alguma forma, deu-me um input para o que eu estava à procura. E a Beatriz Pessoa tinha feito uma música e uma letra que quando escreveu pensou em mim. E também puxa muito este meu lado. A partir desse momento foi muito mais fácil encontrar do que eu queria falar. O início do ano passado foi transformador para mim, acima de tudo pela operação que eu fiz às minhas cordas vocais. Consegui reerguer-me de uma coisa muito difícil, eu não sabia se voltaria a ser a mesma a cantar. Eu consegui voltar ao meu eu e até acho que fiquei um bocadinho melhor - com mais consciência de que a voz não é minha, que me foi emprestada.Qual era o problema nas tuas cordas vocais e como é que se refletiu na voz?Tinha três quistos. E tinha mesmo que ser operada o mais rápido possível, porque é uma coisa que se desenvolve, que cresce. De um momento para o outro eu podia deixar mesmo até de falar, quanto mais de cantar. Eu sentia um cansaço que não era aquele cansaço de fazer muitos concertos. Era um cansaço vocal que já mostrava uma certa rouquidão e às vezes falha da voz. E foi num concerto que eu fiz em Madrid. Voltámos no mesmo dia, porque eu fiquei sem voz. E no dia a seguir eu estava com a doutora Clara Capucho a ver as minhas cordas vocais e foi logo nesse momento que a médica me disse que tinha que ser operada com a máxima urgência. Eu sabia que o processo ia ser complicado e superei-o com todas as minhas armas e com todas as minhas forças. Já tinha passado por tanta coisa, não ia ser aquilo que me ia mandar abaixo. E como é que sentes a tua voz agora? Muito melhor. Muito mais rica, com mais força, muito mais limpa. Treinei muito, treinei muito o meu músculo depois disso, porque perdi muito dele, todo aquele calo que eu fui ganhando ao longo da vida. Mas sinto que tenho muito mais capacidade hoje do que tinha. E isso é a maior bênção que a vida me deu. .O início do ano passado foi transformador para mim, acima de tudo pela operação que eu fiz às cordas vocais. Consegui reerguer-me de uma coisa muito difícil, eu não sabia se voltaria a ser a mesma a cantar. Eu consegui voltar ao meu eu e até acho que fiquei um bocadinho melhor.Sara Correia. Voltando às canções e às mulheres que participam nelas, tens também duas com poemas de Sophia de Mello Breyner Andersen e de Florbela Espanca. Foste tu que os escolheste?Nós tínhamos mulheres mais ou menos da minha geração. E eu queria trazer também o passado, cantar o presente, e ter um bocadinho do passado. E não há ninguém como a Sofia de Mello Breyner e a Florbela Espanca que falem tão bem desta bandeira que é a força da mulher, que falem tão bem sobre o amor e sobre as coisas pelas quais nós mulheres passamos. E em conversa com o meu produtor, que é o pintor deste disco – isto não é só uma voz, há um grande trabalho envolvido –, o Diogo Clemente, achámos que precisávamos de alguma coisa que fosse impactante e que fizesse sentido para mim. Eu sempre cantei poetas antigos. E, no meio do estúdio, de livros que nós tínhamos de poemas, dois deles - Nevoeiro e Ódio -, destacaram-se mais e faziam sentido tendo em conta a linha do disco. Estes poemas são belíssimos, e foi uma decisão tomada a dois.Numa entrevista ao DN há uns anos, dizias que aquilo que cantas tem de ser uma história tua. Que não consegues ter no teu repertório canções sobre temas distantes de ti, da tua realidade. Continua a ser assim?Claro, acho que não faz sentido se não for dessa maneira. Mesmo que não seja a minha história, tem que ser de alguém que me é muito próximo. O Canto, por exemplo, que fala sobre a violência doméstica, a mim diz-me muito. A violência não é só física, há várias formas da violência. E há outras histórias que já vi de perto, de amigos, que são como minhas, porque eu senti também aquelas dores. E, portanto, acho que as posso cantar. O que o fado traz de mais mágico é isto, é dar-me a possibilidade de ter vivências, de ter histórias e poder gravar discos até o resto da minha vida, porque nós temos sempre coisas para contar. E este disco para mim é um farol de luz, é um refúgio. Se as pessoas estiverem a passar uma dificuldade qualquer, acho que este álbum pode ajudar. O Canto, é o grito do silêncio destas mulheres. Não há dúvida nenhuma. E, se eu puder levantar essa bandeira por elas, vou levantar.E musicalmente, como é que descreverias este disco? É muito diferente do Liberdade? Não tanto, porque o Liberdade já trazia também outras nuances. Este disco tem de tudo um pouco. Mas esta Sara é realmente a Sara de mil mulheres. Se eu estou a falar por tantas de nós, o disco também tinha de ser com várias sonoridades e não fazia sentido ser somente uma coisa. A minha matriz é ser fadista, mas todos os instrumentos que eu tenho dentro do meu álbum e tudo aquilo que eu fui à procura - e que o Diogo foi à procura, porque continuo a dizer que ele é o grande pintor deste disco, tem uma capacidade enorme de me compreender e saber aquilo que eu quero -, tudo o que está neste disco faz-nos sentido. E o fado tem esta capacidade de entrar noutras músicas. É mágico, e a magia cabe em qualquer lugar. . Já disseste muitas vezes que não te sentes presa a nada...Desde que me faça sentido e que eu me sinta confortável e que sinta que me faça bem, eu vou fazê-lo. O artista tem de ser livre na sua arte e eu sinto-me livre a fazer o que faço. Eu posso cantar qualquer coisa, já fiz muitas coisas, já cantei pimbas em forma de fado, é verdade, acho que tem a ver com a personalidade de cada artista. O fado cabe em tanta coisa e é tão grandioso nesse sentido que se eu me sentir confortável com isso, porque não?Quando cantas, seja o que for, sai fado?Sim, até posso estar a cantar Céline Dion, há sempre aquele trejeito de fado, é uma coisa que me é intrínseca. Isso é o que me faz ser a mulher que sou e a pessoa que sou, porque o fado é muito a Sara Correia dos palcos e a Sara Correia fora deles.Qual é a tua relação hoje em dia com as casas de fado? Continua a ser a minha igreja, é o meu santuário, o fado é a minha fé e as casas de fado são a igreja. E isso para mim é o mais importante. Preciso às vezes de recarregar as minhas energias e perceber, eu venho daqui. Às vezes é importante.Mas continuas a cantar em casas de fado?Não, não consigo. E até me dá gozo isso, porque eu tinha que cantar e hoje eu posso ouvir e beber daquilo. É muito melhor e preenche-me muito mais do que se estivesse a cantar. Claro que quando vou a uma casa de fado acabo sempre a cantar, porque as pessoas dizem logo que eu tenho que cantar. Mas às vezes prefiro ouvir, também me faz falta. Não ouvir só na rádio, ou no Spotify, ou no vinil. Ouvir, presenciar aquele momento mais intimista.Como é que geres esse lado do fado tradicional, que foi uma parte importante do teu percurso, com a música mais contemporânea?Eu nunca me escondi atrás de pedra nenhuma, nem de nenhuma parede. Eu simplesmente tentei ser sempre a Sara. E acho que isso também foi uma coisa que fez o público aproximar-se de mim, a partir do momento em que conhece a Sara da rua, a Sara de Chelas. Quando houve essa ligação à minha música, aos meus fados e às minhas canções, tornou-se muito mais fácil de entender quem eu era. E fui muito bem recebida. O problema seria se eu fosse uma personagem. Quando é uma coisa natural, não há nada que impeça de sermos genuínos. E eu sinto-me bem com essa escolha, até porque ninguém me vai dizer que a minha matriz não é ser fadista, porque eu sei que o sou. Nasci dele, o fado escolheu-me, deu-me este dom, e eu sou somente uma mensageira. E passo as mensagens que as pessoas querem e precisam de receber. .Às vezes acontece as pessoas dizerem-me ‘adoro o teu fado Chelas’. Não é um fado, isto não é um fado, e eu tento explicar. É uma canção com uma fadista a cantar, descreveria assim. Eu é que torno aquilo um fado.Sara Correia. A tradição está salvaguardada, ou é preciso protegê-la de alguma forma?Acho que é preciso proteger. Às vezes acontece-me as pessoas dizerem-me 'adoro o teu fado Chelas'. Não é um fado, isto não é um fado, e eu tento explicar. É uma canção com uma fadista a cantar, descreveria assim. Eu é que torno aquilo um fado. Falo de mim e falo de outras fadistas também, as pessoas às vezes enganam-se, ou não sabem, e eu entendo isso. Porque há o fado tradicional, há muitos, muitos fados tradicionais. E esses, sim, são fados tradicionais que nós podemos alterar com letras. Dentro dessas músicas que existem do fado tradicional. E depois há as canções que nós fazemos ou que cantamos que têm este trejeito fadista. Não acho que seja um fado moderno. O fado, para mim, há de ser sempre este fado tradicional, mas eu gosto de cantar outras coisas. Só não sei é cantar de outra maneira. E esse é o meu eterno fado. Cantas há muito tempo. Como é que passaste de fadista das casas de fado para uma artista de palco, com discos gravados?Olhando para trás foi mesmo muito rápido. O Sara Correia [primeiro álbum, de 2018] é a fadista da casa de fados. Eu também não sabia ser mais nada, senão aquilo. E às vezes olho para esse disco e penso muito nisso. Eu estou feliz agora, mas eu também era tão feliz lá e não sabia. Foi um processo, de repente estava também a cantar em palcos. Mas antes de ter uma editora já fazia concertos lá fora, já arriscava. O fado é muito bem aceite no mundo inteiro.Há quem considere que é a única música que Portugal consegue exportar.É verdade, por ser única, por só existir aqui. Mas eu sinto que é real. Eu já cantei na Coreia do Sul, já fui à Índia. O fado tem esta magia de ser uma coisa ouvida no mundo inteiro.E tens mais ambições a esse nível, de internacionalização da tua carreira?Eu nunca pensei em fazer os Coliseus e fiz. Eu nunca pensei em fazer o MEO Arena e vou fazer. Eu penso exatamente a mesma coisa que pensava no meu primeiro disco. A vida tem-se encarregado de me dar as coisas onde eu me tenho empenhado e me tenho entregue. Este ano vou ter mais oportunidade de fazer o internacional, de estar mais vezes lá fora. No ano passado toquei muito em Portugal e há dois anos também. Não sei o que é que a vida me guarda. Sei que vou continuar a entregar-me da mesma maneira como até aqui. Ambições temos todos, mas eu não tenho ambição desmedida. Vou vivendo um dia de cada vez e isso a vida ensinou-me. E os planos são esses, fazer o que mais gosto, cantar, e ir aos sítios que me querem. E é isso que eu vou fazer. Vou cantar em todos os sítios do mundo que me permitirem. Eu já fiz tanta coisa, que venham mais. Há alguma sala em que onde gostasses especialmente de cantar?Vou fazer uma agora que me é muito especial. Que é o Barbican em Londres, que é uma sala maravilhosa. Também não sabia que um dia poderia cantar lá, ouvia que outras artistas, como a Marisa, já lá tinham ido, e entretanto também vou. Será no dia 20 de abril e está quase completo. Estou muito feliz e grata.No dia 7 de março estarás no MEO Arena. Já disseste que vai ser uma noite especial e que haverá surpresas. Este concerto será muito diferente dos anteriores?Eu não queria abrir muito o véu. Vai ser tudo novo, vai ser uma roupagem diferente de tudo o que eu tenho trazido até aqui. Eu vou apresentar um novo álbum. Vou estar no MEO Arena com uma sala esgotada e aquilo em que me quero focar é em fazer o melhor que eu sei e dar o que eu tenho às pessoas, entregar-lhes a minha alma e receber o calor dessas pessoas. Sei que vai ser um concerto muito intenso. É a única coisa que eu posso dizer. Das pessoas que te têm acompanhado ao longo da tua carreira, o Diogo Clemente tem tido um papel central?Um artista não se faz sozinho. O Diogo Clemente foi a pessoa que acreditou mais em mim quando eu não acreditava. Eu já conheço o Diogo há muitos anos, desde pequenina. E eu dizia: 'um dia quando eu gravar, o meu primeiro disco tem que ser contigo'. E foi assim exatamente. Estávamos em casas de fado, o Diogo no Clube de Fado e eu no Bacalhau de Molho. Cruzámo-nos nas escadas e ele disse-me: 'estive a ouvir-te a cantar, estás preparada para gravar? Temos que gravar'. Ele nunca se esqueceu, foi a pessoa que mais acreditou em mim. A menina do bairro de repente vai gravar um disco quando toda a gente dizia 'mas tens tanto para limar'... É o meu grande pilar. E, claro, a minha mãe e a minha avó. São as grandes mulheres da minha vida que me deram valores e que me ensinaram o que é não baixar os braços. Elas são muito importantes para mim.Que impacto tem tido na tua vida e carreira a participação no programa The Voice Portugal? Foi muito bom para mim. Eu senti que, por exemplo, quando lancei o Quero É Viver, as pessoas conheciam a voz mas não associavam a cara à voz. E o The Voice foi muito importante nesse sentido. Porque, de repente, eu saio à rua e há aquela abordagem de reconhecimento. O The Voice foi das melhores coisas que eu podia ter feito na vida. Deu muita informação às pessoas e ganhei muito à vontade para estar com elas. .Pedro Abrunhosa: "Este disco é um contrapeso à voracidade, à velocidade e à ausência de ponderação" .MARO: “A música para mim tem que continuar a ser o escape criativo onde posso experimentar e divertir-me”