Os cinco melhores livros para ler no avião

Que livro escolher para as férias que se aproximam? Entre os milhares de títulos publicados já neste ano, sugere-se um bom quinteto para fazer companhia enquanto não se chega ao destino.

Nada melhor do que partir para férias, mesmo que para muitos o regresso seja o ponto alto, e se a viagem até ao destino for feita de avião não há melhor do que levar um livro para ocupar os tempos mortos. Então, é preciso escolher com cuidado pois não há pior do que estar sentado entre dois passageiros chatos e o livro que se escolheu ser intragável. Contos ou histórias breves são a melhor aposta, ou seja, livros com capítulos curtos e interessantes. Há quem pense que o melhor é um policial ou um thriller, no entanto há títulos com qualidade para ler e que tornam a viagem mais satisfatória. Um dos critérios de seleção pode ser o destino. Segue-se cinco sugestões para os viajantes.

Vai para o Brasil

O brasileiro Nelson Rodrigues teve recentemente muitas das suas crónicas desportivas publicadas em Portugal, reunidas em Brasil em Campo (Editora Tinta da China). Para quem ainda está na onda do Mundial 2018 é, duplamente, um bom livro para uma viagem de avião em direção à América do Sul. Não precisa lê-lo de enfiada, vai ao índice e escolhe o texto pelo título mais sedutor. Como é o caso de O Videoteipe É Muito Menos Burro do Que Parece, em que o cronista se confronta com o fim da exclusividade dos relatos pela rádio e o aparecimento da imagem. A partir desse momento, o autor conta como foi surpreendido pela disparidade do que se passa em campo relatada pelo locutor e a realidade observada. O mesmo irá suceder ao leitor que pegar neste Nelson Rodrigues quando estiver prestes a sofrer o confronto com uma realidade brasileira enfiada cabeça abaixo pelas telenovelas que vêm de lá há décadas quando a verdade é bastante diferente, pois mesmo sendo estes textos filtrados pela lente do mundo do futebol a fotografia recriada explica muito do que é o povo com que o viajante vai conviver durante as férias. E o humor do autor não perdoa, diminuindo em muito as horas fechado no avião. PS: não falhar a crónica da página 35 ou a da 49.

Vai para o Oriente

Marco Polo - Viagens (Editora Clube do Autor) é a mais recente escolha da série Os livros da minha vida, desta vez por Gonçalo Cadilhe. Um fiel viajante e contador de histórias quando regressa de muito distante - às vezes, fá-lo mesmo em direto nos seus próprios livros. Neste volume que aconselha, é o relato da grande expedição do maior viajante entre todos os dos tempos medievais e renascentistas, um relato que foi lido por reis, papas e, principalmente pelos que em Portugal tentavam descobrir o planeta através das navegações. Cadilhe faz um prefácio em que não propaga os mitos que levaram a coroa portuguesa a acreditar na lenda do Preste João, por exemplo, mas enfeitiça com outros pormenores de uma odisseia raramente repetida e a quem se deve o conhecimento mais profundo da Rota da Seda e daqueles recantos à época totalmente ignorados. Em capítulos muito curtos, Marco Polo vai refazendo a sua grande aventura. Se o seu destino for a Ásia, terá tempo para o ler por inteiro e reprogramar alguns dos seus passeios antes de aterrar.

Vai para a China

Nem sempre quem vai de férias está preocupado com a meditação enquanto prática espiritual para regressar mais puro, mas se levar na bagagem Filosofia do Budismo Zen (Editora Relógio d'Água), de Byung-Chul Han ,pode ser que mude de ideias. O budismo zen caracteriza-se por ser um ensinamento de pouca conversa, pois as lições aprendem-se com o não dizer, razão pela qual este autor não ocupou muito mais de cem páginas para se fazer entender. Entre os vários tópicos está o da amizade, tema bom para o viajante solitário; o da preocupação, ótimo para o leitor stressado; o das questões materiais... Tudo isto com uma mãozinha de filósofos ocidentais como Hegel, Schopenhauer ou Heidegger, nomes que podem assustar mas a forma como a conversa de Han se faz com o leitor facilita a perceção da mensagem. Se gostar do que leu, o autor tem mais nove livros traduzidos em português e com uma clarividência que nos surpreende. É o caso de No Enxame ou Sobre o Poder.

Vai para a Grécia

Se as férias são aqui por perto e não vai apenas em busca de bons locais para tirar selfies na acrópole de Atenas ou junto de outros "montes de pedras com história" mas deseja aprender algo mais profundo sobre a Grécia e o seu povo o livro ideal é A Língua dos Deuses (Editora Gradiva), de autoria de Andrea Marcolongo. A justificação é simples: trata-se de uma declaração de amor ao grego antigo e à sua mundivisão. Pode parecer uma leitura demasiado pesada para uma semana a perambular pelas ilhas gregas, sobre as quais há inúmeros relatos mais suaves, mas ao folhear este volume irá descobrir as ligações entre a literatura (e a vida) clássica e a contemporânea, bem como muitas outras semelhanças que irão surpreender. O autor é cuidadoso no modo como aborda essa viagem entre o passado e o presente - a troika não é para aqui chamada - e fá-lo também de forma divertida. Até pode ser lido num cruzeiro com visitas programadas a várias ilhas, apesar de poder falhar uma ou outra paragem porque está mais interessado em perceber a herança helénica em forma de livro.

Vai para Faro ou Porto

Nem todos viajam para longe, portanto há que ter em conta que nem sempre é preciso um livro com capítulos para o curto e rápidos de ler. Ou seja, se vai para fora cá dentro, uma boa opção é A Inglesa e o Marialva (Editora Casa das Letras) que a portuguesa que vive em Londres Clara Macedo Cabral escreveu sobre alguém bem real: Ginnie Dennistoun. Quem é esta senhora, que adotou o nome de guerra de Virginia Montsol? Não se vai revelar tudo, mas pode adiantar-se que é uma inglesa que nos anos 1960 decidiu abandonar o país onde os Beatles faziam furor e as jovens da sua idade se pavoneavam pela Carnaby Street para se tornar toureira em Portugal. O livro tem todos os ingredientes para se lhe dar início quando o avião levanta voo de Lisboa e antes de aterrar em Faro ou no Porto já o passageiro está curioso sobre o que a jovem Ginnie/Virginia irá fazer nesse pequeno mundo marialva que era Portugal - e logo com touros!

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Ricardo Paes Mamede

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São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.