Uma "Antígona" e outras propostas de "Entrada Livre" no Teatro Nacional

A encenadora Mónica Garnel encena a peça com que a sua avó, Mariana Rey Monteiro, se estreou no teatro. O espetáculo estreia este sábado no arranque da temporada do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Este fim-de-semana há entradas gratuitas.

Nunca tinha feito o texto de Sófocles, nem mesmo como atriz, mas a Antígona era como uma velha amiga para Mónica Garnel. "Antígona é uma palavra com a qual eu cresci. Foi esta a peça que a minha bisavó, Maria Amélia Rey Colaço, escolheu para a estreia da minha avó, Mariana Rey Monteiro", conta a encenadora. "Aliás, há duas peças que existem na minha vida desde que eu nasci: uma é a Antígona, outra é a Maria Nela, que foi a estreia da minha bisavó. Sempre houve imensas conversas e fotografias da Antígona. Naquela altura, era costume dar presentes aos atores quando se estreavam, então havia imensas coisas com gravações da Antígona, caixinhas e cinzeiros e outras coisas espalhadas pela casa."

Tiago Rodrigues, o diretor do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, não sabia destas ligações familiares quando a convidou para encenar a Antígona para a abertura da temporada da Sala Garrett. Mas acaba por fazer tudo sentido: a proposta era para que juntasse no mesmo palco os atores do elenco do Nacional (Manuel Coelho, Paula Mora e João Grosso) e os alunos do Conservatório que ao longo do último estagiaram no Rossio (duas delas, Carolina Passos-Sousa e Diana Lara irão alternando no papel principal), o que Mónica Garnel fez trazendo consigo a memória das histórias da família e a sua visão pessoal sobre a peça.

Esta é não só a primeira vez que trabalha sobre "um clássico" como é também a primeira vez que trabalha com um texto que já existia - até aqui as suas encenações tinham como base textos originais, feitos de propósito. Mónica Garnel pegou no texto escrito na Grécia Antiga e tentou atualizá-lo sem lhe fazer grandes modificações. Tratou-se apenas de fazer pequenos cortes ou tornar algumas passagens mais claras e compreensíveis aos ouvidos de hoje. "O desafio era usar esta linguagem, não a mudar. A atualização passou mais por torná-lo mais terreno, mais acessível, só isso."

A ação passa-se em Tebas logo após a guerra que opôs os dois irmãos, Polinices e Eteócles, na luta pelo treino. Ambos morrem. Ao subir ao trono, o seu tio, Creonte, ordena que Eteócles seja sepultado como honras de herói, enquanto Polinices não seja enterrado nem sequer chorado. Quem desobedecer a estas ordens será condenado à morte. Antígona, a irmã deles, desafia a lei, mesmo contra os conselhos da irmã, Ismena ("nascemos mulheres, não nos cabe lutar contra os homens"), e é presa. Para ela, a dignidade humana está acima de qualquer rivalidade e despotismo. A história de Antígona é, portanto, não só a história de alguém que desafia uma lei que considera injusta mas também de uma mulher que desafia os homens e dos jovens que desafiam os mais velhos - e também foi por isso que Garnel escolheu começar o espetáculo ao som do hino Smells Like Teen Spirit, dos Nirvana, aqui cantado por Vitória, que assina a música original do espetáculo.

"O que mais me seduz nesta peça é o erro", explica a encenadora. "A imperfeição do carácter destas pessoas. Os conflitos, as dicotomias. Aqui não há tanto a intervenção dos deuses, são escolhas. As personagens escolhem, mesmo correndo risco de vida. A imperfeição humana atrai-me muito. Claro que depois há o lado político, o que é isto de ser líder, de ser homem, ser mulher, conviver em sociedade, o que é justo, o que é injusto. Mas o que eu gosto é das pessoas. É uma peça de surdos: ninguém se ouve. É acima de tudo a tragédia de todos nós. Só o Tirésias, o adivinho, é que se faz ouvir e nessa altura já é demasiado tarde."

No final, o coro começa a evocar uma série de personagens que tiveram um fim parecido ao de Antígona. "Na altura, aquelas figuras e mitos eram muito conhecidos na Grécia, mas a nós não nos dizem nada. Então, eu substituí esse texto por uma lista interminável de nomes de mulheres que transgrediram ou marcaram a história ou foram revolucionárias em diferentes contextos, nomes que reconhecemos, e juntei-lhes mulheres desconhecidas, que também foram revolucionárias na sua casa, à sua maneira."

Esta Antígona, um grito de juventude e de autodeterminação, vai estar em cena a partir deste sábado e até 6 de outubro. A estreia é integrada no "Entrada Livre", minifestival que ao longo do fim de semana marca o arranque em tom de festa da temporada do Teatro Nacional D. Maria II.

A entrada é gratuita mas atenção: Levantamento de bilhetes a partir das 12.00 em cada dia. Limite de 2 bilhetes por pessoa para um espetáculo à escolha (e mais 2 para uma das leituras encenadas ou visita guiada)

Sábado, 14 de setembro

11.00 - Espetáculo: A Caminhada dos Elefantes, de Miguel Fragata e Inês Barahona (esgotado)
14.30 - Leitura encenada de O elefante ou o inevitável caminho do esquecimento, de Henrique Bispo, com encenação Lígia Soares
16.00 - Leitura encenada de Que le spectacle commence (Detalhes de uma ilusão), de Lara Pires, com encenação Álvaro Correia/ Sala do Rei (na Sala do Rei, Estação Ferroviária do Rossio)
16.00 - Visita guiada à exposição "José Marques: Fotógrafo em cena"
16.30 - Lançamento de livro Abílio de Mattos e Silva, de Eunice Tudela de Azevedo, com apresentação a cargo de José Costa Reis
17.30 - Leitura encenada de A Mancha, de de Lúcia Pires, com encenação Lígia Soares
18.00 - Espetáculo Pur Présent, de Olivier Py (no Teatro Capitólio, Parque Mayer)
18.30 - Apresentação do Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II
20.00- Espetáculo Antígona, de Sófocles, com encenação Mónica Garnel
20.00 - Espetáculo Coleção de Artistas, de Raquel André
21.30 - Concerto na varanda, de Selma Uamusse, no Largo de São Domingos

Domingo, 15 de setembro

11.00 - Espetáculo: A Caminhada dos Elefantes, de Miguel Fragata e Inês Barahona (esgotado)
14.30 - Leitura encenada de Oito ou o caos, de Bruno Fraga Braz, com encenação Álvaro Correia (na Sala do Rei, Estação Ferroviária do Rossio)
15.00 - Visita guiada à exposição "José Marques: Fotógrafo em cena"
16.00 - Leituras encenada de Pin My Places, de Mariana Ferreira, com encenação Rui Horta
17.30 - Lançamento do livro Laboratório Escrita para Teatro. Textos 2018/19, com coordenação Rui Pina Coelho
18.00 - Espetáculo Pur Présent, de Olivier Py (no Teatro Capitólio, Parque Mayer)
18.30 - Lançamento de livro Preparação do Ator no seu processo criador de encarnação (vol. II), de Konstantin Stanislávski
20.00 - Espetáculo História da loucura na época clássica de Michel Foucault, com encenação Angélica Liddell
20.00 - Espetáculo Coleção de Artistas, de Raquel André

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