Porque é que pela primeira vez não há portugueses na Bienal de São Paulo?

O novo modelo de curadoria pode ser a explicação para a ausência inédita de portugueses na exposição. Serralves, que tem exposto núcleos da bienal no seu museu, não fechou ainda qualquer acordo para que tal aconteça desta vez

Pela primeira vez na história da Bienal de Arte de São Paulo, neste ano não haverá qualquer artista português presente. Nesta que é a 33.ª edição do certame, com o título Afinidades Afectivas, a exposição que abre nesta sexta-feira ao público no Parque do Ibirapuera, onde ficará patente até 9 de dezembro, inaugura um novo modelo de curadoria na bienal, que poderá explicar a, segundo o jornal Público , inédita ausência de representantes portugueses ao fim de 67 anos de existência.

Não é por acaso que o título pede emprestadas expressões ao romance Afinidades eletivas de Goethe e à tese do crítico de arte brasileiro Mário Pedrosa Da natureza afetiva da forma na obra de arte. Afinal, além de selecionar ele próprio 12 projetos de artistas para expor, o curador-geral desta edição, o galego Gabriel Pérez-Barreiro, selecionou sete artistas-curadores para assinarem a curadoria de sete mostras coletivas. Estes tiveram liberdade na escolha dos artistas que haveriam de selecionar e apenas um requisito: tinham de incluir trabalho próprio na mostra.

Alejandro Cesarco, uruguaio e americano, o espanhol Antonio Ballester Moreno, a argentina Claudia Fontes, Mamma Andersson, da Suécia, os brasileiros Sofia Borges e Waltercio Caldas, além de Wura-Natasha Ogunji, nascida nos Estados Unidos e a viver atualmente na Nigéria, foram os artistas-curadores escolhidos por Gabriel Pérez-Barreiro.

Nos doze projetos individuais escolhidos pelo curador-geral, que se focou na América Latina, contam-se três homenagens póstumas: a Aníbal López, Feliciano Centaurión e Lucia Nogueira. As escolhas do curador galego recaíram ainda sobre os brasileiros Siron Franco, Maria Laet, Vânia Mignone, Nelson Felix, Bruno Moreschi, Luiza Crosman, Tamar Guimarães, Denise Milan, e o argentino Alejandro Corujeira.

Questionado pelo DN acerca da ausência de artistas portugueses nesta edição da bienal, o gabinete do ministro da Cultura respondeu apenas: "A Direção-Geral das Artes não recebeu candidaturas de artistas portugueses para apoio à participação na Bienal de S. Paulo.". Na última bienal, recorde-se, a Direção-Geral das Artes investiu 16.500 para apoiar os artistas portugueses selecionados para a bienal.

A Fundação de Serralves, que em 2015 e 2017 levou até ao seu Museu de Arte Contemporânea as obras da bienal, depois de ela acontecer, não tem ainda acordo firmado para que o mesmo aconteça nesta edição, confirmou o DN junto do gabinete de comunicação de Serralves.

Lourdes Castro, Carla Filipe, Gabriel Abrantes, Priscila Fernandes e Grada Kilomba foram os artistas portugueses que marcaram presença na Bienal de São Paulode 2016. O ministério da Cultura, já chefiado por Luís Filipe Castro Mendes, dizia então tratar-se do "maior contingente estrangeiro presente nesta edição da bienal", intitulada Incerteza Viva, com curadoria geral de Jochen Volz e Lars Bang Larsen.

Ouvido pelo Público , João Fernandes, subdiretor do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, atribui ao novo modelo curatorial a ausência de artistas portugueses. "É um modelo com os seus condicionalismos, porque os artistas olham para o mundo através das suas obras e vivem no seu próprio universo", afirmou.

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