Percorrer Florença com David Leavitt

São muitos os escritores que escreveram sobre Florença. O norte-americano David Leavitt percorreu a cidade e relata ao pormenor os recantos mais inesperados.

Florenca, Um Caso Delicado de David Leavitt é um boa opção literária para se conhecer a cidade italiana de Florença em vez de se consultar um guia de viagem, mesmo que a primeira frase do livro seja inesperada: "Florença sempre foi um destino popular para suicidas." Cita alguns exemplos de turistas deprimidos que cometeram esse ato desesperado em alguma parte da cidade e de como as autoridades pouco se surpreendem com esta situação. Avança de seguida com uns parágrafos que ilustram esta morbidez, como é o caso do autor Walter Pater, passando por E.M. Foster e o seu Quarto com Vista, que começa com um assassinato...

Páginas à frente, Leavitt já ultrapassou essa característica inicial do livro e a morte desaparece desta viagem literária, passando à descrição da cidade, de como se chega lá e o que é necessário para se encontrar um bom pouso. Não deixa de continuar a dar pormenores diferentes do habitual: "Florença é a única cidade europeia cujos cidadãos mais ilustres dos últimos cento e cinquenta anos tem sido todos estrangeiros." Uma boa informação para quem quer conhecer uma cidade através de escritores e antes de lá chegar folheia meia dúzia de romances que usam Florença como cenário.

Depois surgem informações bastante úteis sobre o que interessa em Florença e como se a deve conhecer: "A melhor hora para ver a Piazza é de manhã cedo"; ou "à noite, tochas assinalando o friso recortado do Palazzo Vechio conferem às pedras um esplendor brilhante", para terminar o capítulo a dizer que "poucos lugares no mundo são tão saturados de eventos históricos".

São 170 páginas que dão ao leitor um dicionário diferente sobre a cidade, mas principalmente reflete o outro lado da cidade menos conhecida e que quatro anos de vida em Florença o tornaram perito em guiar o leitor por uma das mais interessantes lugares de Itália.

David Leavitt sobre a escolha do destino:

"Porquê Florença? Porque não Paris, Nova Iorque, Berlim, Nápoles, Viena? A resposta auto-engrandecedora é uma vez mais, que vieram em busca da arte. Uma atitude de rigoroso ascetismo erudito parece ter sido crucial na auto-imagem que quiseram promulgar."

David Leavitt sobre cães:

"A sua atitude em relação a cães é nova fonte de conflito com os italianos que tendem a tratar os seus cães menos como animais de estimação e mais como animais de trabalho. Pelos padrões italianos, Florença permanece uma cidade hospitaleira relativamente a cães."

David Leavitt sobre a estátua de David:

"Os mais astutos ousam enfrentar as longas filas no exterior da Accademia para ver o David na sua autêntica e inimitável glória. Vivendo agora como vive numa tribuna, poder-se-ia esperar que tivesse entretanto assumido uma expressão arrogante, mas o facto é que o seu ar de vulnerabilidade parece ter-se intensificado com o passar dos anos."

David Leavitt sobre o rio Arno:

"Uma cidade com um rio é, por natureza, uma cidade dupla e, nesse aspeto, Florença é aparentada com Paris, Roma e Budapeste; quer isto dizer que, em Florença, não há propriamente dois lados iguais, mas antes um lado peincipal e o 'outro lado'."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.