Onde estão as mulheres na música? O podcast "Mural Sonoro" quer tirá-las da penumbra

A investigadora Soraia Simões estreia o podcast "Mural Sonoro", uma história sobre as mulheres na música portuguesa. De Luísa Amaro a Celeste Rodrigues e Xana dos Rádio Macau, entre outras

Mural Sonoro é "um podcast sobre mulheres na música, papéis, repertórios de luta e resistências,,," É assim que a investigadora Soraia Simões resume o programa, que esta quarta-feira, dia 12, se estreia nas plataformas habituais de distribuição de podcast (iTunes, Soundcloud...).

São horas de conversa com mulheres da música e o resultado do trabalho que vem desenvolvendo em torno da música portuguesa e, começando no rap e hip hop em Portugal, tema da sua tese de mestrado e ponto de partida do site, e associação, Mural Sonoro.

Luísa Amaro, música de guitarra de Coimbra, é a entrevistada do primeiro programa. Outras convidadas são Miriam Cardoso, a primeira mulher a entrar para a banda sinfónica da GNR, Mísia, Xana dos Rádio Macau e a fadista Celeste Rodrigues, Sandra Baptista, ex-Sitiados, agora Senhoritas, ou Amélia Muge (cuja música está no genérico), entre outras.

Soraia Simões, 41 anos, constatou que dentro do rap, "num grupo que se queixa de racialização, nem todas as questões sociais eram tratadas da mesma forma, a misoginia e o machismo não estão lá". Que é como quem diz, eram problemas invisíveis. "Começou aqui o meu interesse por esta temática. Começou até por ter descoberto que as Djamal não eram o único grupo de rap que tinha existido em Portugal nesses anos", diz. Os anos eram os anos 90 e a outra banda eram as Divine.

Quais são as realidades com que elas lidaram? Quais os papéis, normativos ou não? Tinham-se masculinizado para pertencer àquele grupo? A investigadora integrada do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa fez-se estas perguntas enquanto investigava os anos em que o rap chegou à indústria e aos media, a época em que Não Sabe Nadar se associou às figuras de Foz Coa e chegou ao parlamento.

"Reparei que o rap foi sempre sendo difundido pondo a tónica nas questões da invisibilidade racial, a discriminação económica, a xenofobia, o corpo negro na sociedade e as relações que passam a ter com as indústrias culturais no final dos anos 80, início dos 90, mas reparei que havia uma invisibilização dos temas das primeiras mulheres que começaram com eles". A violência doméstica, de que falavam as Divine, diz Soraia Simões. "Uma tentativa de pedir licença para falar de outras questões no caso das Djamal". "Isto estava nos repertórios e nos discos delas e não passou. Não passou para opinião pública", diz. Estes assuntos têm interessado a investigadora e já foram abordados num artigo científico.

Na tese de mestrado, abriu um capítulo dedicado às mulheres e diz que acabou por prestar "mais atenção a este tópico". Foi um rastilho. "Da mesma maneira que dei atenção ao rap comecei a alargar o espetro e a perceber que não é assim tão diferente das outras práticas musicais".

Muitas mulheres do fado, poucas autoras

Tomemos o fado como exemplo, como faz a investigadora. "Há papéis normativos desde sempre, porque as mulheres cantam desde sempre. É um universo em que há muitas mulheres, mas era muito difícil registar autoria nos anos 30. Registar autoria só se começa a verificar na década de 50 do século XX. Há um episódio em que a Amália pede para registar o Estranha Forma de Vida com outra autoria porque não queria registar o seu nome. Isto tem a ver com estruturas sociais, mas também repassa as estruturas culturais, que são os papéis que atribuímos e de que maneira é que isso se reflete nas práticas musicais".

Como no primeiro trabalho de investigação que deu tese e o livro RAPublicar - A micro-história que fez história numa Lisboa adiada 1986-1996 (Caleidoscópio), Soraia Simões decidiu voltar à história oral. "E o podcast surge desta necessidade de pôr estas questões a outras mulheres da indústria, das várias indústrias da música e de que forma se relacionavam com estes tópicos e se estava ou não visível, porque também percebi que não há em Portugal uma pesquisa que revele dados. Por exemplo, qual é a percentagem das mulheres no pop rock? Ou quais são os instrumentos musicais mais procurados por mulheres em bandas civis ou em bandas sinfónicas?".

Poucas mulheres de 70 na música pop rock

O podcast é mais do que isso. Há de trazer luz sobre estes assuntos que Soraia Simões vem estudando e, sobretudo, documentando: "Conversar com elas, conhecer as suas realidades, tanto estão mulheres que são diretoras de museus como estão, por exemplo, a primeira mulher a entrar na banda sinfónica da GNR", diz. Nascida em 1838, por D. Maria II, até aos anos 90 não havia uma única mulher.

As conclusões estão longe, mas há pistas. "Onde estão as mulheres da minha geração no pop rock a tocar?", pergunta ela, da safra de 76. O que procura saber é como é que a música foi entendida, como foi disseminada, como é que podemos explicar com estes vários lugares de fala, de universos distintos, como podemos explicar?

As exóticas mulheres da música

É quando começa a estudar a história do rap que a temática aparece, "alargando um bocadinho a lente". A metáfora dos óculos, que usa várias vezes, explica por que razão o lugar das mulheres na música é ainda um mistério. "No rap, os tópicos estão lá, é muito evidente, nos outros géneros é mais estrutural, não está tão visível. O que é mais curioso é ver como num determinado momento esteve tão visível e não passou". Outra vez os exemplos: a Djamal apareciam muito, mas em anúncios à Reebok ou em revistas femininas. Era giro ter ali umas mulheres negras a fazer rap, mas não eram tanto os assuntos que elas discutiam". A banda gravou um disco pela BMG em 1997.

Ao longo da pesquisa, deu-se conta de outro aspeto: "Sempre que aparece uma mulher, ela é exotizada, porque é a mulher que aparece na banda da GNR ou a Marta Pereira da Costa a tocar guitarra. Porque é que os discursos são assim? Porque não é habitual, mas também tem a ver com dinâmicas de poder, à semelhança de outras comunidades".

Para este trabalho, Soraia voltou a ouvir as entrevistas recolhidas no Mural Sonoro e, com outras lentes, tornou-se claro também que antes de 1975, o homem era a figura da canção de protesto - José Mário Branco, José Jorge Letria, Sérgio Godinho, havia um duo, Carlos Alberto Moniz e a mulher, Amparo. "As canções eram feitas por homens, e o primeiro homem a denunciar esse machismo entre os homens de esquerda foi o José Mário Branco em Aqui Dentro de Casa. "Ele fez esta canção antes do 25 de abril, exilado em França", contextualiza.

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr'aquilo que serei

Pegas-me na mão e falas do patrão
Que te paga um salário de fome
O teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho para desabafar

Meus olhos parados, mudos e cansados
Não podem ouvir o que dizes
E fico à espera que me socializes
Meus olhos verdes
Boneca privada do teu bem estar

Conversas que ficam

O que este trabalho pode trazer é repensar, "através destas histórias individuais, métodos e processos e depois perceber se evoluiu e em que evoluiu, há mais mulheres agora no fado, mas há mais mulheres a cantar, não há muitas na guitarra. Temos a Luísa Amaro e a Marta Pereira da Costa, temos algumas em Coimbra."

Interessa-lhe para este estudo, cujo desenrolar ainda desconhece, o teor das letras, a composição, a performance e os instrumentos e, além das entrevistas exploratórias, pesquisou a forma como as mulheres eram retratadas nos media.

"Falando de cada idiossincrasia perceber como se relacionam com tópicos que são comuns daquelas práticas. O pop rock é muito interessante, percebendo a faixa etária que lhe está associada, como no rap. O imaginário é o de uma música jovem, em que a mulher é jovem. O fado nem tanto, é preciso ter uma certa maturidade. A Celeste Rodrigues sintetiza bem essa longevidade". A fadista tem 95 anos. E todas as semanas, fala uma pessoa diferente.

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