Francisco José Viegas: "O maior romancista português é Cristiano Ronaldo"

Um dos maiores desafios nas sessões da Feira do Livro de Guadalajara era falar sobre a relação Portugal - México através do futebol e da literatura. Foi o que fez Francisco José Viegas.

Foram 45 minutos a jogar ao ataque no salão 1 do imenso recinto da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), tendo como rival temas anunciados como complexos mas que se desfazem ao fim de várias faltas assinaladas no portunhol que quase todos os autores portugueses aqui praticam, só o diabo sabe porquê.

Que se saiba, apenas Dulce Maria Cardoso e José Eduardo Agualusa se negaram a este jogo e ignoraram a regra seguida por uma tão grande embaixada de escritores ao México em vez de divulgarem a língua portuguesa. Talvez por essa razão, ou por falta de intérpretes especializados, a moderadora do debate assim justificou a saída de algumas pessoas da sala... Não fizeram falta, apenas perderam as histórias finais de Dulce e de Agualusa.

E eis que o vazio passa da sala para a mesa onde apenas se senta Francisco José Viegas para falar de um tema profano: "Deus é redondo e Herrera o seu pastor - Portugal e México através do futebol". Quem estava na sala sabia ao que ia e não tirou os olhos do campo, mesmo que o pontapé de partida do escritor/editor fosse uma confissão inesperada: "O meu sonho era ser cantor e não escritor." Tudo bem, uma boa frase de efeito para agarrar a audiência. Mas eis que segue a negação de tudo o que se esperava: "Não há vínculo algum entre literatura e o futebol."

A pergunta era o que se foi ali ouvir então? Decerto nada do que se esperava de um autor, mesmo que confesso admirador de futebol: "Estava há pouco a falar com um amigo, o Paulo Ferreira, e ele disse-me o maior romancista português era Cristiano Ronaldo." O salão 1 ficou surpreendido com esta declaração, mas pouco depois as coisas começaram a compor-se. Ouvia-se algo literário: "Os poetas do futebol" e os nomes de Carlos Drumond de Andrade e Julian Barnes com autores no temo da bola.
O discurso saíra do campo e incluía agora escritores de nomeada... Nada que se mantivesse, pois Viegas evocou a sabedoria e a beleza da escrita de um ex-jogador de futebol, Jorge Valdano, e afirmou: "Valdano escreve melhor do que a maior parte dos autores portugueses. Se eles escrevessem como ele eu só lia literatura portuguesa." Como se não bastasse, volta a referir Cristiano: "Um golo de Ronaldo é um fenómeno literário."

Mais, Viegas desfia uma lista imensa de jogadores para justificar a seguinte afirmação: "Encontra-se uma biblioteca completa nestes jogadores. Nenhum deles publicou um soneto ou um conto mas a sua arte é como a do escritor Oscar Hijuelos quando escreve o livro Os Reis do Mambo tocam Canções de Amor; é isso que as equipas de futebol fazem: jogadas de amor."
Aqui vai a lista: Hugo Sanchez, José Agostinho Baptista, Rafa Márquez, Chicharito, Javier Hernandez, Cuathémoc Blanco, Andres Guardado, Cláudio Suarez, Luis Garcia, Luís Hernández, Jorge Campos, Corona Ruíz, Herrera López, Raúl Alonso, Jiménez Rodríguez e Miguel Layún Prado.

É então que Francisco José Viegas sente necessidade de explicar-se à audiência: "Devem estar a perguntar-se porque um escritor/editor gosta assim tanto de futebol?" Resposta: "O grande futebolista é o que sonha a sua jogada e isto é o que há de mais literário." Justifica-se mais: "Escrevo policiais e poesia. Que vínculo existe entre estas dois géneros?" Resposta: "Há vinte anos ninguém lhes ligava e as livrarias punham-nos ao fundo, agora tudo mudou."

Se a conversa parecia estar a entrar no caminho literário habitual da Feira, não foi o que se passou: "Faço ficção porque gosto de escrever sobre os sonhos dos outros. Em literatura é importante roubar as histórias dos outros como se faz a bola no futebol." Separa as águas: "Não gosto da auto-ficção tão em voga porque quero que os meus leitores saiam bem servidos." E lá vem mais uma comparação entre futebol e literatura: "Se aos 22 minutos do jogo ainda não houver um golo é como um livro em que nada acontece nas primeiras páginas. Comigo não é assim, logo de início mato alguém nos meus livros policiais. Aliás, para que o leitor não saia desiludido, há sempre três ou quatro mortos em cada policial. Se lhes oferecer três ou quatro mortos, o livro sai barato, a três euros por morto."

Neste momento, a plateia já tinha percebido que a estratégia de Francisco José Viegas vinha bem preparada: unir de forma metafísica duas artes tão diferentes. Levava o leitor como se estivesse a encaminhar a bola para a baliza, com ideias que já não surpreendiam ninguém como acontecera no início. Foi o caso de: "A literatura tem a maior liberdade pois não há regras como no futebol; o jogo é medo da perda; antes do jogo começar todos têm jogadores preferidos e, tal como na literatura, pergunta-se onde está aquele jogador ou porque não está ali Philip Marlowe..."
A fechar vem a frase da redenção: "De que fala a literatura? De tudo." Um discurso de 45 minutos, ficando a segunda parte do desafio para se jogar no resto da feira do livro enquanto se buscam outras perguntas e respostas apenas literárias.

"Somos uma seita cada vez menor"


A sessão com a escritora Lídia Jorge esteve marcada pelo 25 de Abril na sua obra, pela memória enquanto fio da sua literatura, pelo novo romance, Estuário, que reflete sobre o medo de que o mundo do futuro não tenha salvação. Depois veio a primeira das grandes perguntas: o papel da literatura hoje. "A literatura ainda traz a esperança e é uma paisagem indispensável a um mundo contemporâneo tão duro", respondeu. A segunda: o futuro da literatura? "Esta é uma feira onde não há perigo para os livros, mas estes estão cada vez mais diminuídos", respondeu.

Para Lídia Jorge, a FIL é um bom local para falar dos livros: "Na literatura, somos uma seita que passa as palavras de uns para os outros, mas já não somos muitos. Antigamente, os jovens eram futuros leitores, hoje isso está diferente e o futuro não é risonho." Olha para o Pavilhão de Portugal à sua volta e é lacónica: "Este pavilhão mostra Portugal. Poucas cores e discreto. Não nos queremos mostrar muito."

Recorda o que a une ao México: "Em jovem, era Frida Kahlo, depois os muralistas e na literatura Carlos Fuentes foi fundamental." Importante foi também um poeta mexicano, José Emílio Pacheco, e os versos em que dizia não amar a pátria mas certas coisas da terra. "Eu daria a minha vida pelo Tejo ou Boliqueime e por alguns outros pedaços do meu país", confessou.

Contratos assinados e livros vendidos

Perante uma feira da dimensão de Guadalajara, a pergunta é se há resposta aos investimentos feitos. A agente literária Nicole Witt, de autores como Agualusa, Lídia Jorge, Odjaki ou José Luís Peixoto, referiu que nos meses que antecederam a FIL houve interesse de grandes grupos editoriais e de independentes em publicar autores portugueses: "Por exemplo, a Almadia publicou Gonçalo M. Tavares." Também José Luís Peixoto lançou vários livros no México, tal como Afonso Cruz que já soma onze traduções, uma das quais entrou no plano de leitura mexicano e teve uma primeira edição de 80 mil exemplares comprados pelo Estado.

Na livraria montada no Pavilhão de Portugal, o negócio não tem corrido mal e dos três mil livros levados de Portugal mais de metade já foram vendidos. A literatura infantil tem sido uma surpresa, seguindo-se Saramago e Lobo Antunes. No entanto, dificilmente sobrará algum livro no pavilhão, onde já se notam muitos buracos nas estantes, quando a FIL fechar este domingo.

Exclusivos