O berbequim que salvou um homem da morte

O protagonista de Hotel Silêncio vai para um país destruído pela guerra. Na bagagem leva uma ferramenta que serviria para se enforcar mas acaba por lhe alvar a sua vida. Um romance raro e que vem da Islândia

Audur Ava Ólafsdóttir tem um nome quase impronunciável mas o seu romance, Hotel Silêncio, possui uma narrativa bastante compreensível e sedutora. Audur é islandesa e o romance que agora é traduzido em português foi premiado no seu país com os principais galardões e esteve em Lisboa para explicar porque faz de um homem com um berbequim um protagonista épico.

Não é a primeira que visita Portugal, país que é uma referência literária desde que leu Fernando Pessoa e o poeta se tornou incontornável enquanto estudava História da Arte em Paris: "Comecei a ler autores que não estavam traduzidos para o islandês, como é o caso de portugueses, e um dos primeiros foi Pessoa. Fiquei apaixonada, pois não há ninguém que se lhe compare. E depois foi Saramago, que é único."

Quem são os seus leitores? A história da autora é resumida assim pela própria: "No princípio, os meus leitores eram bons mas muito poucos. Até conhecia a maior parte dos islandeses que me liam, por exemplo os das lojas onde fazia compras. Depois, os leitores passaram a ser professores e outros escritores que achavam que tinha uma voz especial. Em seguida, ganhei prémios em quase todos os livros que publiquei e a tradução para o dinamarquês e francês aumentou o sucesso na Islândia e o país interessou-se pelo meu trabalho. O meu último livro teve boas críticas e tornou-se um best-seller no meu país."

O que são os seus livros? A autora de Hotel Silêncio não quer que o seu romance seja confundido com a invasão de policiais que tem caracterizado a literatura nórdica desde que a saga Millenium de Stieg Larsson teve sucesso à escala mundial. Para evitar confusões, nem espera por qualquer pergunta e começa a passar uma das mensagens que a trouxe a Lisboa: "Não é um policial, nem esse género literário faz parte da nossa cultura ou é representativa das sagas que herdámos da Idade média." É mais assertiva ainda: "Eu não mato os meus personagens, essa é uma forma mais fácil de escrever. Todos morremos. Morrer não é assim tão original, além de que o mais interessante é como sobreviver".

O tema do romance que originalmente se intitulava Cicatrizes é apenas um: "É uma história sobre a ressurreição do protagonista." Ou, acrescenta, "uma viagem da escuridão para a luz." Pergunta-se se pode dizer-se que é uma segunda oportunidade? Responde que sim: "É a possibilidade para se regenerar, renovar e tornar-se uma outra pessoa. Também uma conversa sobre os dois eu: o anterior mais jovem e o que é hoje."

Outras características de Hotel Silêncio é o de ser um romance muito físico, diz: "Em que o físico toma um lugar importante, até uma oposição entre o corpo e a linguagem, principalmente porque o protagonista fala pouco e esse silêncio é muito importante na história." E não é difícil escrever sobre o silêncio? "É verdade e por essa razão grande parte do livro está entre as palavras e as linhas. A Islândia é a terra do silêncio, como se fosse um grande mosteiro, e se estivermos no centro de Reiquejavique essa sensação não desaparece. "

Para obter esse efeito, Audur cortou muito do livro após o ter escrito, mais do que em livros anteriores: "Foi mesmo um desafio e perguntava-me até quando posso cortar e continuar a ter uma história?" Não lhe foi fácil escrever sobre este tema, até porque o suicídio está sempre muito presente. "É um tema difícil, mas é uma realidade na Islândia, especialmente entre homens jovens."

Outra das questões do romance era a definição do que é a masculinidade, designadamente de um protagonista rodeado por mulheres: "Ao explorar o que é o sofrimento, a dor e o sofrimento humano, e o meu herói está perdido em si mesmo. Vive uma crise existencial, com um casamento acabado e quer morrer, mas deseja poupar a filha de o encontrar morto. Aí decide ir para um país onde houve a guerra e que está a viver um cessar-fogo muito perigoso. Como ele tem jeito para reparações, é um arquétipo do homem da Islândia: pode reparar qualquer coisa exceto ele próprio."

"Então decido enviar este homem islandês para um mundo quebrado, onde ele se pode consertar a si próprio", explica, "apenas levando na bagagem pouco mais do que um berbequim para fazer um furo e pendurar o prego onde pendurar a corda para se enforcar." É aí, continua, que "compara as suas próprias cicatrizes com a dos outros habitantes desse país e vê que pode ter um papel. O meu herói é incapaz de matar, primeiro seria morto ou preferia ser morto."

É também objetivo do protagonista valorizar o papel das mulheres "na reconstrução de um país após uma guerra, porque esse é o papel das mulheres na sociedade" e dá um exemplo: "Esse foi o papel das mulheres no pós-crise financeira de 2008 na Islândia, com uma primeira-ministra a limpar a porcaria depois da festa."

Questiona-se o que acontecerá com outra governante que também está a "limpar a porcaria", Theresa May no Reino Unido: "Não sei se ela será capaz de o fazer, mas considero que os ingleses lamentarão esse passo." Uma pergunta que lhe serve para inquirir o que se passa em Portugal em relação às eleições europeias.

Como começa um livro é outra das questões que Audur gosta de desenvolver: "Cada livro tem uma forma diferente de ser iniciado. Não sei de onde vem a ideia, até posso estar a atravessar uma rua." No entanto, Hotel Silêncio foi diferente: "Decidi que queria nesta história pessoas que não veem um futuro e estão preocupados com a situação do mundo. Principalmete, passar a ideia de que não podemos fazer tudo sós, mas todos poderemos fazer alguma coisa."

Quanto às traduções que a sua obra está a ter, Audur confessa que a sua "especialidade é escrever numa língua que ninguém entende, além dos 300 mil islandeses, e existem poucos tradutores que falem o islandês. É uma língua muito difícil, uma espécie de latim das línguas nórdicas, a mais antiga que é falada na Europa, e uma tortura gramatical." Dá um exemplo dessa dificuldade: "Existem 24 formas diferentes para dizer nada."

Hotel Silêncio

Audur Ava Ólafsdóttir

Editora Quetzal

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