Morreu, aos 74 anos, o historiador António Manuel Hespanha

António Manuel Hespanha, historiador, morreu esta segunda-feira aos 74 anos.

O académico António Hespanha, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, morreu esta segunda-feira, na Fundação Champalimaud, na sequência de um cancro no colón, confirmou ao Público a filha.

Jurista de formação, pela Universidade de Coimbra, António Hespanha, investigou as práticas jurídicas e publicou vários livros dedicados à História do Direito, nomeadamente no Antigo Regime, antes das revoluções liberais.

A sua obra teve "grande impacto na Alemanha, Europa do Sul e América Latina", notou o politólogo António Costa Pinta na sua página do Facebook, lamentando a perda do historiador.

"Estava a discutir com ele a tradução do seu ultimo livro em inglês", acrescentou Costa Pinto. A obra em causa, Filhos da Terra - Identidades Mestiças nos Confins da Expansão Portuguesa, foi publicada em fevereiro deste ano pela Tinta da China.

Entrevistado pelo DN, em fevereiro, António Hespanha era crítico da forma como se vê o país: "Esta ideia de que Portugal é o sítio mais bonito, mais amável, mais doce, afeta os comportamentos, quase exigindo que os estrangeiros nos agradeçam e desculpem todo o nosso desleixo e incompetência. Mas embala também a história num carreirinho de banalidades amáveis."

O historiador António Manuel Hespanha nasceu em 1945, em Coimbra, cidade onde se licenciou, em 1967, obtendo posteriormente o doutoramente em História e Política Institucional Europeia, tendo defendido a tese As Vésperas do Leviathan, sobre o sistema de poderes das monarquias tradicionais europeias.

António Hespanha foi diretor-geral do Ensino Superior, inspetor do Ministério da Educação, assistente da Faculdade de Direito de Lisboa e professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

É definido pelo Centro de Investigação e Desenvolvimento sobre Direito e Sociedade da Universidade Nova de Lisboa (CEDIS), como "o historiador português mais citado internacionalmente" e "um dos nomes mais importantes no estudo da história institucional e política dos países ibéricos".

António Manuel Hespanha foi comissário-geral para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (1997-2000), membro do Instituto Histórico-Geográfico do Rio de Janeiro (2003) e de conselhos científicos e conselhos editoriais de diferentes instituições e publicações universitárias, como o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a Universidade Autónoma Luís de Camões e a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, entre outras instituições.

Recebeu o Prémio Universidade de Coimbra (2005) e as insígnias de Grande Oficial da Ordem de Santiago (2000), os graus de Doutor Honoris Causa das universidades de Lucerna, na Suíça, e Federal do Paraná, no Brasil, e de "Lecturer March Bloch", da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris.

Foi membro externo do Conselho Geral da Universidade de Coimbra, sócio correspondente da Academia Nacional de História da Argentina e do Instituto Argentino de Investigação de História de Direito.

Autor de mais de duas dezenas de livros e de mais de centena e meia de artigos científicos, sobretudo nas áreas da História, História do Direito e Teoria do Direito, História Política e Colonial, entre as suas obras destacam-se "A Cultura Jurídica Europeia", "Teoria da Argumentação e Neo-Constitucionalismo", "Guiando a Mão Invisível - Direitos, Estado e Lei no Liberalismo Monárquico Português" e "Cartas para Duas Infantas Meninas - Portugal na Correspondência de D. Filipe I para as Suas Filhas (1581-1583)".

A livraria Almedina reeditou, no mês de junho, o livro "Pluralismo Jurídico e Direito Democrático".

No início dos anos 2000, publicou, pela Imprensa de Ciências Sociais, "Feelings of Justice in the Chinese Community of Macao", com base num inquérito junto da comunidade chinesa, em 1999, quando da transferência de poder do território.

A obra inspiraria, pouco depois, o "Inquérito aos Sentimentos de Justiça num Ambiente Urbano", que seria publicado em 2005, tendo em conta "os sentimentos sobre o justo e o injusto num ambiente urbano português".