Fãs dos Pearl Jam mostram porque é que eles continuam vivos

Banda de Eddie Vedder sobe ao palco principal do Nos Alive esta noite às 23.15. Músicas com letras sempre atuais, empatia com o público e fortes convicções ideológicas do vocalista são algumas das razões apresentadas pelos fãs da banda de Seattle para um sucesso que perdura há quase três décadas

À uma da tarde os restaurantes da rua das estátuas de Algés - por estes dias transformada em Rua do Rock, têm as esplanadas cheias. Por todo o lado veem-se calças de ganga pretas, coletes de cabedal e, sobretudo, T-shirts a dizer Pearl Jam.

A caminho do recinto do Nos Alive, no Passeio Marítimo de Algés, já do outro lado da linha do comboio, muitos fãs da banda liderada por Eddie Vedder seguem em passo apressado. As portas do recinto abrem às 15.00. E eles querem arranjar um bom lugar para logo à noite ver os cabeça de cartaz, que encerram três dias de um festival onde já estiveram outras duas vezes, em 2007 e 2010.

À hora certa, nem um minuto a mais nem um minuto a menos, os seguranças dão ordem de entrada e a espera acaba. Eufóricos, os fãs correm em direção ao Palco Nos. O primeiro a chegar é Mitch Ferreira, de 39 anos, vindo de propósito da África do Sul. Agarra-se ao gradeamento e não mais o larga. "Estou a guardar lugar para a minha irmã". Alguns minutos depois ela chega. Abraçam-se de alegria.

Estavam na fila desde o meio-dia. Nem sequer eram dos primeiros. Mas ali, Mitch chegou primeiro, é o que importa. "Consegui correr mais rápido do que toda a gente, pois costumo fazer corrida, faço triatlo", conta, sem largar a irmã. "Eu já vi os Pearl Jam cinco vezes e em vários países, o meu irmão viu-os em Roma, há duas semanas, mas esta é a primeira vez que assistimos a um concerto deles juntos", afirma Nicole Varela, de 37 anos, sem conseguir esconder a excitação.

As famílias, marido, mulher e respetivos filhos, ficaram em casa e vêm mais tarde. Este é um momento só dos irmãos. "O meu irmão estava na África do Sul quando viu que os Pearl Jam vinham a Portugal. Tinha planeado ir de férias à Ásia. Mudou tudo e veio para cá. Ligou-me no primeiro dia em que os bilhetes foram postos à venda, eu corri para a Fnac, consegui comprar". Os ingressos para ver a banda esgotaram no espaço de quatro dias ainda durante o mês de dezembro do ano passado.

"Os Pearl Jam ainda são muito relevantes. A música deles está muito atual. As mensagens que eles procuram fazer passar nas letras das músicas - ou até mesmo durante os concertos - continuam muito atuais", refere Mitch, para explicar o segredo do sucesso através do tempo da banda norte-americana fundada em 1990 e cujo álbum mais recente, Lightning Bolt, data de 2013.

As mensagens que eles procuram fazer passar nas letras das músicas - ou até mesmo durante os concertos - continuam muito atuais"

Entre os seus álbuns favoritos, Mitch, que há mais de três décadas vive na Cidade do Cabo, tem Vs e Vitology - respetivamente o segundo e o terceiro editados pelo grupo. Neste concerto, o digital manager espera que eles toquem Man of the Hour, tema que foi incluído na banda sonora do filme Big Fish, em 2003, mas também Off he Goes, do álbum No Code. "Não tocaram Man of the Hour em Roma, por isso gostava que tocassem aqui em Lisboa. É uma das minhas favoritas", refere Mitch, enquanto a irmã Nicole diz não conseguir escolher nenhum tema preferido. "São tantos. Gosto de muitos. Não consigo escolher só um".

Coladas ao gradeamento, em frente ao palco principal, estão, sentadas Monika Owcarzak e Marzena Sowka. Amigas de longa data, ambas polacas - embora a primeira viva no Reino Unido - têm seguido os Pearl Jam nesta digressão. Isso mesmo comprovam as várias pulseiras coloridas que têm nos braços. Amesterdão, Milão, Roma, Pádua, Praga, Cracóvia, Barcelona, Berlim e, agora, Lisboa. Estas são algumas das cidades por que já passaram para assistir aos concertos da banda. Sempre na primeira fila. Já são da família. Garantem.

Marzena, de 42 anos, já viu os Pearl Jam 17 vezes. No braço escreveu com marcador preto o nome da música que quer ouvir hoje. "Eu quero que eles toquem Faithfull [do álbum Yield]. Em Roma ele tocou. Eddie toca músicas que os fãs pedem", explica a fotógrafa, mostrando fotografias de várias vezes em que escreveu nomes de músicas nos braços e nas mãos e elas foram tocadas nos concertos.

Monika, de 30 anos, que por seu lado assistiu a dez espetáculos da banda, explica que ela e a amiga vieram para a porta do recinto do Nos Alive às 03.00. "Até não é muito. Noutros sítios já chegámos a estar um dia antes. A dormir em sacos-cama. Muitas vezes não vemos nada das cidades. Pois passamos a vida nas filas. Mas aqui em Lisboa conseguimos passear dois dias. Adorei a Torre de Belém".

E uma vez chegadas à linha da frente do público como aguentam tantas horas até à entrada em palco dos tão desejados? "Normalmente trazemos comida e água. Hoje não temos nada. Evitamos ao máximo sair daqui, mas se for preciso ir buscar comida, ir ao WC, vai uma de cada vez. Depois volta. Ninguém rouba o lugar. Nós, os fãs, já somos como uma família. Em Berlim, por exemplo, para entrar, as pessoas iam a caminhar calmamente umas atrás das outras, de forma ordeira e disciplinada, sem ser preciso ninguém correr sequer", conta Monika, enquanto a amiga mostra um vídeo em que ficou registado esse momento.

Eles perduram no tempo porque são genuínos e as músicas são feitas do coração. Não apenas para vender nas rádios"

"Eddie [de 53 anos] tem uma personalidade muito verdadeira, genuína, honesta. Ele lembra-se das pessoas, fala com elas, é espontâneo nos concertos. Aquilo que faz, a forma como se comporta, não é puro marketing. Como fazem tantos outros. Eles perduram no tempo porque são genuínos e as músicas são feitas do coração. Não apenas para vender nas rádios", refere Marzena, dando como certo que entre os temas a tocar pela banda neste Nos Alive estará, certamente, a canção Alive do álbum Ten (o primeiro dos Pearl Jam).

Como diz a letra da própria música, o grupo continua bastante vivo, tal como em 1990. "Eddie preocupa-se muito em ser solidário, ele importa-se com as pessoas doentes, os sem-abrigo, os direitos das mulheres, só para dar alguns exemplos. Em Cracóvia, ele fez um longo discurso sobre os direitos das mulheres, pois como sabe nós temos na Polónia um governo muito conservador, infelizmente", nota Marzena, que tal como Monika já tem bilhete para o concerto de Londres, o último da digressão. Custou 800 euros. A cada uma.

Lisboa era o último destino da digressão europeia da banda, mas por motivos de saúde, em que o vocalista ficou sem voz, o concerto de Londres, na O2 Arena, teve que ser reagendado. Acontece esta terça-feira dia 17. Esta é a terceira vez que os Pearl Jam tocam no Alive e o seu oitavo concerto Portugal. O primeiro concerto data de 1996 e aconteceu no Pavilhão Dramático de Cascais.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)