Descobrindo uma obra-prima de Haneke

Com "Happy End", Michael Haneke encena as atribulações de uma família para expor as feridas interiores da nossa Europa - é um dos grandes acontecimentos do Verão cinematográfico

Foi em Maio de 2017: Michael Haneke regressou à competição de Cannes (onde já tinha ganho duas Palmas de Ouro) com Happy End, reflexão muito amarga sobre o presente europeu, incluindo o drama dos refugiados. O júri do festival preferiu a abordagem ligeira e indulgente de O Quadrado... Enfim, apesar do atraso de mais de um ano, não nos queixemos: Happy End é um trabalho invulgar de observação, rigor e pensamento.

A GAIVOTA - Será que o leitor conhece a adaptação de A Gaivota, de Anton Tchekhov, que Sidney Lumet realizou em 1967? Recorda-se da excelência de um elenco que incluía Vanessa Redgrave e James Mason? Enfim, digamos para simplificar que a nova abordagem da peça, assinada por Michael Mayer, se fica pela atitude esforçada de quem quer "aligeirar" o tom, supostamente tornando o texto mais acessível... Velho engano que, em qualquer caso, tem a seu favor algumas performances competentes, com destaque para Annette Bening e Saoirse Ronan.

** (com interesse)

GOTTI - Entre nós, acrescentaram-lhe o subtítulo "Um verdadeiro padrinho americano", como se isso o aproximasse da excelência da trilogia de O Padrinho, de Francis Ford Coppola. Nada a fazer, infelizmente. O projecto de retratar o chefe mafioso John Gotti (1940-2002) arrastou-se ao longo de vários anos, sem que, no entanto, John Travolta desistisse da sua concretização. Os resultados são dramaticamente desconexos, espécie de telefilme de rotina, tornando inglório o esforço de Travolta para emprestar alguma densidade psicológica à personagem.

* (medíocre)

HAPPY END - As convulsões internas de uma família da zona de Calais, no norte de França, são o ponto de partida de um prodigioso filme introspectivo, capaz de cruzar a desagregação simbólica da estrutura familiar com as evidências perturbantes da crise dos refugiados. Com um elenco que inclui Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant e a jovem (e notável) Fantine Harduin, Michael Haneke consegue expor a estranha solidão dos adultos e, mais do que isso, a comunicação fechada entre gerações - obra-prima!

***** (excepcional)

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