Uma rádio efémera, do Intendente para o mundo

Da efémera e comunitária Rádio Escuta, ouve-se este bairro de Lisboa através de noticiários em bengali, canções preferidas dos seus habitantes e reportagens

No velho palácio Visconde da Graça, em pleno largo do Intendente, percorrendo um corredor e depois outro - com respetivo cheiro a tinta - entramos numa redação em tudo peculiar. "Alguém precisa de ajuda com pessoas para entrevistar? Temos aqui o Sami." Sami Ullah Maqpoon vem da região montanhosa do norte de Paquistão, de Gilgit. Vive há dois anos em Lisboa.

Ricardo, um dos membros da redação da comunitária e efémera (lá iremos) Rádio Escuta, ao lado dos seus colegas, todos eles estudantes de primeiro ano de Comunicação na Universidade Lusófona, coordenados pelo seu professor e jornalista do DN Ricardo J. Rodrigues, diz que está à procura de condutores de tuk tuk. Sami não conhece nenhum imigrante nessa área, mas conhece um condutor de Uber. Serve?

E alguém relacionado com desporto? Sami fala de um pequeno rapaz, também do norte do seu país, que é "louco por futebol: podes perguntar o que quiseres, ele sabe tudo". Mandeep conhece alguém que joga basquetebol: o colega que trabalha com ele na loja de telecomunicações do Rossio. Mandeep Singh Mathon é indiano, vive em Lisboa há seis anos. Primeiro na Mouraria, depois no Intendente.

Além de música e reportagens, a rádio tem noticiários em bengali ou hindu

Quando os encontramos, lá fora, no largo, afinavam-se os últimos detalhes do estúdio da Rádio Escuta, a rádio comunitária e efémera integrada na programação do festival Bairro Intendente em Festa que durante três semanas fará soar este território onde quer que a liguem. Sami e Mandeep são dois dos mediadores entre a comunidade migrante que vive neste território e a redação da rádio que nesta quinta-feira, a partir das 19.00 se faz ouvir pela primeira vez, até às 22.00 - será sempre assim, de quinta-feira a domingo, até dia 22 de julho.

Os dois rapazes são também dois dos tradutores e locutores que todos os dias no noticiário da Rádio Escuta, feito pelos alunos a partir do dia-a-dia do festival, dirão nas línguas rotativas bengali, urdu, mandarim ou hindi aquilo que antes foi dito em português e em inglês.

Se lê este artigo depois das 19.00 e estiver a passar pelo Intendente, é provável que já a esteja a ouvir. O mesmo pode acontecer em qualquer parte do mundo, esse mundo fora para que os migrantes entrevistados enviam cumprimentos, através do site do projeto Escuta.

Mensagens de Lisboa para o Bangladesh ou Paquistão

"Ontem surgiu a ideia de uma rubrica nova", começa por contar Francisco Gonçalves, um dos estudantes que constitui a redação da rádio. "As pessoas com quem temos estado a falar têm sempre uma mensagem para enviar ao seu país de origem, para alguém que deixaram na Índia, ou no Bangladesh, para a mãe, para o pai, para a namorada. Estivemos com um rapaz que já não falava com a namorada há três meses, porque na aldeia onde ela está nem tem internet." Então nasceu a rubrica feita de mensagens sonoras enviadas para o país de origem.

Francisco e os restantes estudantes de Jornalismo estão responsáveis pelas várias rubricas a que chamaram Curtas e pelo noticiário. "Espero realmente que muitas pessoas fiquem sensibilizadas com as nossas reportagens. Algumas rubricas são mais sérias do que outras. Temos uma que é a canção da minha vida e essa é muito engraçada", continua o estudante.

À redação composta pelos estudantes juntam-se jornalistas convidados como João Carlos Malta, da Rádio Renascença, Sandy Gageiro, da Antena 1, Raquel Marinho, da SIC, ou Ricardo Oliveira Duarte, da TSF, que contribuem com entrevistas (que podem ser feitas em direto do estúdio do largo) ou reportagens sobre o bairro. Haverá também música, a partir das sugestões dos habitantes do Intendente, a cargo de um conjunto de DJs coordenados por Nelson Makossa.

A Rádio Escuta abre todos os dias com um documentário da série Meia Hora, da antropóloga Hélène Veiga Gomes, que coordena o projeto com Ricardo J. Rodrigues.

Os lugares onde o documentário foi feito são agora pontos de escuta

A relação de Hélène, filha de mãe francesa e pai português, com o Intendente já tem vários anos, e o bairro foi objeto da sua tese de doutoramento. Daí que ela já lá estivesse quando Marta Silva, do Largo Residências, propôs que o plano de desenvolvimento local do GABIP (Gabinete Apoio ao Bairros de Intervenção Prioritária) Almirante Reis, num trabalho que envolve a Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia de Arroios e a Fundação Aga Khan Portugal, e que decorre até 2020, incluísse um retrato "deste plano em modo working process". Neste primeiro ano o registo audiovisual foi feito pelo som, depois serão outros.

"Este projeto chama-se Escuta, pretende ir escutando o que está a ser feito. O arquivo vai estar online." Foi a partir desse projeto que Marta e Hélène convocaram Ricardo J. Rodrigues, que há muito pensava em criar ali uma rádio comunitária.

Os quatro documentários da série Meia Hora são, por isso, uma auscultação a este território, divididos por Hélène em quatro temáticas, a partir do que viu nas diferentes instituições que integram o GABIP. "O envelhecimento ativo, a reconversão das mulheres do trabalho sexual para empregadas de limpeza, os migrantes, e o que é viver na rua, a partir de uma pessoa que conheci, que vivia num prédio da Almirante Reis que ardeu em fevereiro."

Outra particularidade da Rádio Escuta é que a série de Hélène pode ser escutada, ao longo do bairro, em lugares onde ela gravou, e onde encontrou os protagonistas desta série (os pontos de escuta podem ser consultados no site). "Permite às pessoas entrar naqueles sítios e perceber o que se passa ali, nestes sítios onde normalmente elas não entram. Por exemplo, o centro das Irmãs Oblatas [Obra Social das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor], que têm um passivo ou ativo de trabalho sexual. É raro alguém entrar lá. Podes ouvir ou não ouvir, podes meter conversa, podes fazer o que quiseres".

A Rádio Escuta está ligada, seja no Bangladesh, na Índia, no Paquistão, no largo do Intendente, ou nos lugares que Hélène percorreu para perceber como se ergue de novo a vida de um migrante quando chega a um lugar novo, como pode mudar a vida de uma mulher depois do trabalho sexual, como é o dia-a-dia de alguém que vive na rua, ou de quem envelhece em conjunto no Centro de Dia Nossa Senhora dos Anjos.

Outros destaques do festival Bairro Intendente em Festa, de entrada gratuita, até 22 de julho:

Dia 6, sexta-feira, às 21.00

Jantar-Baile-Concerto, dirigido por Marta Silva e Jon Luz, que junta as culturas africana, indiana, chinesa e portuguesa à mesa, na dança e na música.

Dia 7, sábado, às 22.00

Concerto Master Musicians of the Aga Khan Music Initiative, com música do Médio Oriente, Bacia do Mediterrâneo, Ásia Central e do Sul, China e África Oriental, do jazz à música erudita ou folk.

Dia 8, ​domingo

Feira Intendente das 10.00 às 18.00, com artigos em segunda mão

Dia 14 às 22.00

Concerto de António Chainho & convidados

Dia 20 às 22.00

Concerto de Bruno Pernadas

Durante todo o festival

Exposição coletiva Lixo Luxo no Palácio Visconde da Graça, largo do Intendente

Com direção artística de Susana Alves, e os artistas convidados ​Andreia Tocha, Caim Caldas, David de Sousa, Forr​est Dump, Maria Del Mar & Marta Gaspar, Vitor Serrano

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".