"Encantarias são como o Olimpo da Amazónia. Só que no fundo do rio"

Entrevista a João de Jesus Paes Loureiro, poeta e ensaísta brasileiro, que na terça-feira lança em Lisboa o livro Encantarias da Palavra, muito marcado pela condição de filho do Pará. O autor fará a palestra "Poesia: um mundo sem fronteiras" às 18 horas no Palácio da Independência, no Rossio.

O seu livro chama-se Encantarias da Palavra. Encantarias é uma palavra criada na língua portuguesa do Brasil? Quer dizer o quê?

Essa palavra é de origem indígena e ribeirinha, que são os dois fatores que considero originários da cultura amazónica. A encantaria, na conceção ribeirinha e indígena, é o lugar no fundo dos rios onde moram os encantados, ou seja, os mitos, os deuses, os símbolos religiosos da Amazónia, desde as suas origens. Costumo dizer que é como se fosse um Olimpo submerso. Na Grécia, sabemos, era no monte Olimpo que estavam os deuses. Na Amazónia é no fundo do rio. É uma forma de, pelo imaginário, se povoar também a Amazónia com a iniciativa de indígenas diante daquela extensão tão grande de florestas e rios. É uma contribuição do homem para a própria criação de uma imagem da Amazónia. Não podemos esquecer que é pelo imaginário que o novo mundo foi descoberto e nesse imaginário a Amazónia está no centro porque é onde se julgava estar o paraíso na terra.

A sua poesia é muito influenciada pela sua origem amazónica. É diferente ser um brasileiro da Amazónia do que ser de outra parte do Brasil?

Em alguns aspetos sim. A região ficou isolada durante muitos séculos. A Amazónia sai do isolamento já na década de 1950 com a construção de uma grande estrada, que é uma espinha dorsal, que é a transamazónica. Antes, o acesso era pelo mar ou poderia ser pelos Andes, fazemos fronteira com essa região, mas era muito difícil o acesso por causa de tribos indígenas, sobretudo os encolhedores de cabeça, que quando matavam os invasores encolhiam a cabeça e ficava uma coisa simbólica. Há muitos exemplos disso no Museu Goeldi, no Pará, que é um importantíssimo museu de arte. Era uma região isolada porque a navegação até lá, na costa do Maranhão, quando entra na foz do rio Amazonas, que é ao lado da ilha de Marajó, outro dos símbolos da região, há formações rochosas no mar que provocavam inúmeros naufrágios. O grande poeta brasileiro do romantismo, Gonçalves Dias, estava a estudar aqui em Lisboa e, voltando de férias para o Maranhão, a caravela em que ele seguia naufraga nesse lugar.

Esse isolamento também influenciou a história no período colonial. Esta região da Amazónia demorou mais a aderir à independência do Brasil. Criou assim uma identidade relativamente própria?

Muito própria. Além de ter acontecido na Amazónia a mais importante rebelião social, a Cabanagem, embora muito pouco estudada no Brasil e muito pouco divulgada no sistema de ensino. Foi uma revolução de caboclos índios que assumiu poder, só que era uma classe superdominada então não teve condições de sustentá-lo. Tem uma importância muito grande e deixou um traço de rebeldia na compreensão da vida. É claro que a cultura dominante na região é de origem portuguesa. A classe dominante era portuguesa, tanto no comércio e na indústria como politicamente. Tanto que quando quiseram fazer a urbanização de Belém havia dois projetos: o primeiro era fazer de Belém a Amesterdão dos trópicos, o outro era fazer a Lisboa dos trópicos. Evidentemente ganhou a Lisboa dos trópicos, apenas com um problema: para fazer a Lisboa dos trópicos isso a gente percebe bem a semelhança quando se conhece Lisboa e se visita Belém. O problema é que tinha de aterrar rios e ribeiros para dar aquela extensão contínua de terra para poder construir. Mas à parte disso foi uma bela escolha porque ficou uma bela cidade. Belém brasileira é a cidade, sempre foi, de mais forte expressão da presença portuguesa, quer na cultura quer na arquitetura, na culinária, no vocabulário e numa certa maneira convivial, sem preconceitos de ligação étnica.

Pelos seus apelidos familiares, as suas raízes também serão 100% portuguesas?

Sim. Cristãos novos. Família Paes e família Loureiro. Costumo brincar dizendo que a minha parente mais antiga em Portugal é D. Maria Paes Ribeira, autora do mais antigo documento poético aqui de Portugal.

Qual é a sua relação com a língua portuguesa? Imagina-se poeta fora da língua portuguesa ou a língua portuguesa é essencial à sua poesia?

É essencial à minha poesia. No caso das artes em geral, a originalidade nasce da relação do autor com a sua cultura, em relação com as outras do ponto de vista de aperfeiçoamento técnico. Todos os países são assim, todos os lugares. A língua é um elemento fundamental, sobretudo na poesia porque a poesia concretiza-se por via da linguagem, de uma linguagem falada. Tenho livros traduzidos no Japão, em Itália, na Alemanha, em França, na Colômbia... qual é o problema que ocorre? A dificuldade da tradução está exatamente no facto da relação da língua com a cultura. Há quase uma necessidade de readaptação simbólica das palavras à relação que uma outra palavra tem com a sua cultura, para que seja compreensível o poema.

Tal como esta palavra encantarias, também há outras palavras que surgem do contexto brasileiro e amazónico. Isso obrigatoriamente faz a poesia brasileira diferente da portuguesa?

Nesse aspeto e numa maneira de usar as palavras e numa maneira de encarar a vida e a realidade. O mundo português vem de séculos e de um apogeu que produziu uma literatura que serviu de modelo para nós até ao modernismo. A escola do Brasil, no período colonial, é uma escola dirigida pelos padres portugueses. Era um sistema de ensino fundamentado no sistema português da época. Tem o padre António Vieira que viveu em Belém, vários dos seus sermões foram proferidos lá. Essa relação permite que haja um modo de ver que se aproxima mas que ao mesmo tempo se distingue, porque a cultura, na verdade, é uma soma de culturas e no nosso tempo, agora, com essa possibilidade de miscigenação das culturas, cada vez mais cada cultura assimila valores de outras. Mas o nosso vocabulário tem muito que ver com o vocabulário português, em alguns aspetos a própria maneira de pronunciar as palavras, com a diferença de que aqui em Portugal há uma velocidade maior da fala, tanto que a gente compreende também com maior clareza um argentino do que um espanhol. É mais uma demonstração dessa relação da língua com a cultura. Tinha um poema meu sobre a demolição do Muro de Berlim - foi publicado lá - e havia uma imagem que eu criava das valquírias voando sobre aqueles destroços. A tradutora ligou-me de lá a dizer que era muito difícil fazer a tradução porque as valquírias na Alemanha, sobretudo para os mais jovens, não têm mais o significado de leveza mas antes das mulheres gordas que cantam as óperas de Wagner. Achei maravilhoso porque percebe-se como essa relação simbólica da língua é inseparável da cultura e da evolução da cultura.

Camões diz-lhe muito? E Fernando Pessoa?

Camões muito, porque no ensino ele é um modelo. Fernando Pessoa tem uma grande divulgação e admiração no Brasil. Há também uma poeta daqui que tem tido muita divulgação, que é a Sophia. Gosto muito da poesia dela e da evolução da poesia. Há um poeta que conheci, Herberto Helder, e ele tem uma poesia que não só aqui como lá é mais difícil de ter uma penetração maior pela complexidade simbólica. Ele é uma espécie de caleidoscópio surrealista pelas comparações e pelas imagens, mas é um poeta muito lembrado entre nós. Depois há os clássicos. Bocage, por exemplo, tem o seu modelo de um certo período. Houve uma época em que no vestibular a disciplina de literatura era luso-brasileira. Há, até hoje, nos cursos de Letras, literatura brasileira e literatura portuguesa. Há essa irmandade muito grande e muito necessária. Agora com essa unificação que houve da língua, que não unificou, pelo contrário foi um gesto mais político do que lógico e cultural. O Acordo Ortográfico criou uma série de rebeldias e uma série de problemas com relação até à expressão. Aqui, por exemplo, há uma certa resistência, e no Brasil também, porque se você colocar Fernando Pessoa no português do Brasil você quebra o ritmo da poesia dele. Se você colocasse estes poemas nossos na sintaxe de Portugal você quebra o ritmo e às vezes quebra o sentido da metáfora.

No seu livro parei num poema sobre uma gata que só comia metade do prato, que achava que só tinha direito a essa porção. Era uma gata muito socialista. Há uma mensagem política na sua obra?

Sim. O meu primeiro livro de poemas, era ainda estudante da universidade, ia ser lançado pela União Nacional dos Estudantes depois de uma seleção. O lançamento seria dia 3 de abril de 1964 e no dia 1 de abril instalou-se a ditadura no Brasil e o meu livro foi apreendido e destruído. Estava na sede da União Académica Paraense e foi considerado subversivo porque havia poemas sobre a questão da diferença de de trabalho nas pessoas, diferença de classe, eram poemas sociais e políticos, sobre os negros, sobre Cuba. Foi entendido pelo ângulo político mais do que pelo ângulo poético. Foi destruído. Então os meus livros seguintes nunca perdem essa relação com a realidade. A poesia não pode ser uma acomodação diante da vida, a poesia é algo que expressa um valor de beleza ao mesmo tempo crítico e um valor de consciência diante da realidade. Eu gosto de Sophia porque a poesia dela sofre essa progressão. Ela começa aquele lirismo e vai-se tornando política.

Como homem da Amazónia, teme que a Amazónia como recurso para o Brasil seja abusada?

Essa Amazónia vem sendo abusada mas eu temo um agravamento desse abusar porque atualmente a visão política é utilitarista e as perspetivas que aparecem é de oferecer ao mercado internacional os bens que o país tem, no sentido de arrecadar recursos, e numa visão monetarista, que é uma visão cruel diante de qualquer país. No caso da Amazónia é um desrespeito entendê-la como uma espécie de almoxarifado do Brasil, um lugar onde se vai buscar benefícios e com quase nenhum retorno. Hoje vivemos num período em que há uma síndrome dissociativa de funções no governo. Ou seja, os vários setores não se entendem. São coisas afirmadas e negadas logo depois, há uma sensação de um sonambulismo diante da realidade em que não se sabe o caminho a tomar. No caso da Amazónia é nítido o interesse de apropriação das terras, de diminuição do espaço das terras indígenas, de abrir espaço para o agronegócio, que é um veneno para a natureza de qualquer lugar, de abrir espaço para projetos predatórios, como as hidroelétricas e as isenções fiscais que fortalecem a plantação desse projeto. Isenções fiscais que vêm prejudicar a arrecadação e a própria sustentação social da vida na região. De modo que é uma fase em que vivemos muito apreensivos diante do que a Amazónia pode sofrer perante os projetos que estão a ser anunciados.

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