'Instinto Animal'. Ben Affleck na rede de Hollywood
Mark Kimball, personagem central de Instinto Animal (Netflix), é uma figura enraizada no imaginário liberal do classicismo de Hollywood. Liberal não é, neste contexto, um rótulo partidário, antes o nome de uma dinâmica dramática e política. Remete-nos para um modelo narrativo em que emerge algum desequilíbrio, por vezes um conflito radical, entre as razões individuais e os valores dominantes num determinado contexto social. Kimball está em campanha para o cargo de mayor de Los Angeles, especialmente empenhado em garantir os votos dos eleitores latinos — vai rentabilizando uma imagem pública de honestidade e dedicação humanista, até que o seu filho é raptado, desencadeando uma investigação que pode revelar dados de um passado não muito edificante...
Algumas das peripécias poderão fazer lembrar um dos grandes filmes de 2025 — Highest 2 Lowest, de Spike Lee, com Denzel Washington (AppleTV+) — que, por sua vez, se inspirava no clássico O Céu e o Inferno (1963), de Akira Kurosawa. Enfim, tal genealogia acaba por se revelar frustrante, já que Instinto Animal pouco mais consegue do que acumular uma série de clichés do género policial. Não falta sequer um desconjuntado clímax no rio de Los Angeles, cenário que já foi utilizado de forma incomparavelmente mais inventiva em filmes tão especiais como Chinatown (Roman Polanski, 1974) ou Exterminador Implacável 2 (James Cameron, 1991).
Tudo isto seria uma notícia rotineira, não se desse o caso de Instinto Animal (Animals, no original) ter a assinatura plural de Ben Affleck (ator principal, coautor do argumento, coprodutor e realizador). Na verdade, importa revalorizar o seu lugar na história das últimas décadas de Hollywood, aliás pontuado por dois Óscars — como argumentista de O Bom Rebelde (Gus Van Sant, 1997), prémio partilhado com Matt Damon, e coprodutor de Argo, que também interpretou e dirigiu, consagrado com a estatueta dourada de Melhor Filme de 2012.
Instinto Animal comete o pecado de encarar a sua herança industrial (o cinema de géneros da idade de ouro dos grandes estúdios americanos) como um rol de lugares-comuns que basta “reproduzir” sem critério. Mesmo não esquecendo que o streaming também nos tem dado grandes filmes, a sua lógica dominante continua a ser a multiplicação de cópias que, pelos vistos, desconhecem a riqueza dos originais.

