Quatro criativos estiveram a trabalhar durante uma semana com os mestres oleiros Feleciano Agostinho e Feliciano Mira Agostinho em Viana do Alentejo. Carolina Celas, Célia Esteves, Claudia Lancaster e Nicolau aceitaram o desafio proposto por Astrid Suzano, cofundadora da associação Passa ao Futuro (ver entrevista abaixo) para transportarem a sua arte para as peças de olaria utilitária fabricadas por estes dois oleiros, pai e filho, cada um com a sua própria oficina. Das mais de 50 que já existiram em Viana do Alentejo, são as únicas sobreviventes, explica Feleciano Agostinho, de 82 anos, enquanto trabalha na roda - em três minutos (cronometrados) termina um alguidar. Ao lado, a sua mulher, Maria das Dores, 76 anos, trata dos acabamentos das peças, retirando o excesso de barro.“Foram desaparecendo, foram por outros caminhos para ganhar mais do que se ganhava na olaria, isto antigamente era tudo uma miséria”, recorda. Quanto a si, nunca pensou em fazer outra coisa: “Não não, isto chega-me bem. Faço isto ainda hoje porque gosto, senão não estava aqui”. Todos os dias da semana senta-se na roda elétrica e o domingo é o dia de que gosta mais, porque passam mais pessoas pela oficina. Sobre a presença dos artistas na sua olaria, diz: “Gosto, pena é ser pouco tempo”. E tem ajudado o negócio? “Tem sim senhora, muito, quanto mais vezes cá vierem, mais a gente vende”. . Esta residência, diz Feliciano Mira Agostinho, 55 anos, traz “olhos diferentes, ideias muito frescas de artistas, e o que nós estamos aqui a fazer é uma parceria, sobretudo a Rosa, a trocar as técnicas. Às vezes é preciso estar de fora para termos uma visão completamente diferente”.Mais do que isso, acrescenta, “eu sou boa pessoa, como vocês podem reparar, mas não tenho nome suficiente para entrar em alguns sítios e vender por certos valores. Acaba por ser uma parceria que nos favorece e arranja-nos novos públicos”. Feliciano Mira Agostinho decidiu sair da alçada do pai em 2004 e criou o seu próprio negócio no centro da vila.Astrid Suzano diz que este projeto é importante para os oleiros e que "vai ter imenso impacto, do ponto de vista financeiro, na produção as duas olarias”. . O primeiro contacto da arquiteta com os oleiros de Viana do Alentejo aconteceu em 2018 quando, juntamente com Fatima Durkee (falecida em 2022), estava a fazer um mapeamento das artes e ofícios portugueses. “E os dois, quando nós viemos cá, queixavam-se de problemas diferentes, mas basicamente que não estavam a conseguir vender como antigamente. Não percebiam porque é que as pessoas já não tinham interesse nas peças que eles faziam, qual era o problema."Foi então que sugeriram mudar a decoração das peças através da colaboração com artistas. "A nível de forma não valia a pena mudar, porque as peças continuam a ser úteis, estão bem pensadas, e achámos que podia ser engraçado trazer pessoas para mudar a decoração. Foi esse o desafio que nós propusemos.”O pai ficou um pouco reticente, mas nunca se opôs, lembra Astrid Suzano. "Os dois ficaram muito abertos a essa possibilidade, e começámos a montar o projeto." A arquiteta sublinha que “o intuito do que fazemos é para que haja continuidade e retorno contínuo para os artesãos, o objetivo é sempre que se crie alguma coisa que possa gerar produção”.Não é a primeira vez que esta residência acontece, a primeira foi em 2021, com os ilustradores Mantraste, Mariana Malhão, Mariana Miserável e José Torres. “Foi a primeira edição e foi um sucesso. Chegámos a ir à Maison & Objet [feira internacional de design de interiores, em Paris], foi um público muito internacional e venderam-se muitas, muitas, peças”, revela Astrid Suzano. . Na residência artística deste ano, que decorreu entre 9 e 14 de março, foram selecionadas cinco tipologias de peças: alguidares e vasos de dois tamanhos diferentes, o pousa colheres de pau e um prato de 26 centímetros. O pai faz os alguidares, e o filho as restantes peças. Os quatro criativos pintam-nas e “só quando as peças saírem do forno, daqui a cerca de um mês, é que escolhemos as peças finais. Nós selecionamos as peças que nós achamos que fazem mais sentido do ponto de vista comercial”, explica. Feliciano Mira Agostinho frisa que "a ideia, desde o princípio, é fazermos séries limitadas. Por várias razões: primeiro, porque tenho uma série de clientes de há muitos anos que eu não posso largar. E, depois, se não massificarmos, promove-nos mais”.“Eles é que nos vão dizer quantas querem fazer. Porque também não queremos que eles trabalhem só para nós. Vão ser peças numeradas e quando acabar aquela edição, acaba”, diz Astrid Suzano, adiantando que as peças serão vendidas no site da Passa ao Futuro e também “numa boa seleção de lojas em Portugal, pelo menos duas ou três, já estamos a conversar, mas não está ainda fechado”. Os artistas são pagos pela residência e receberão royalties pelas peças produzidas.Um elemento chave destas residências nas olarias é o diálogo dos artistas com as pintoras – tradicionalmente os homens produzem as peças na roda de oleiro e as mulheres pintam-nas. São elas que depois vão ter de reproduzir os desenhos dos ilustradores nos alguidares, pousa colheres, vasos e pratos. . “Já me deixaram o contacto deles para eu depois pedir informações”, diz Rosa, a mulher de Feliciano, a pintora da olaria. “Eles fazem o que estão a imaginar, depois será um desafio é para mim. Já reparo que alguns são mais desafiadores do que outros”, aponta, enquanto os vê trabalhar nas peças. “Eles estão sempre a perguntar: acha que está difícil?”. O mesmo desafio terão Mariana Almeida e Elisabete Francisco, as duas pintoras da oficina do mestre Feleciano, o pai. Para os artistas, ilustrarem em cerâmica é um verdadeiro processo de aprendizagem. “As minhas ideias surgem todas muito da forma como eu desenho. E depois esse desenho encontra o barro, mas o barro tem várias particularidades, não é só pintar, pode ter várias camadas, tem condicionantes técnicas. O desenho vai conversando com o barro e vai ganhando outra forma, normalmente acontece assim", diz Nicolau, ilustrador de Cerveira, sobre o seu processo criativo nesta residência."Mas também o que me tem interessado muito é tirar partido de formas de desenhar que acontecem só a trabalhar este material. Por exemplo, tirar partido do torno para desenhar de uma forma diferente”, acrescenta. O torno permite pintar o prato enquanto roda, resultando em linhas circulares perfeitas. . "Eu tinha algumas ideias e depois quando cheguei aqui percebi que nada funcionava muito bem", afirma Carolina Celas. "Acho que é normal, porque, na verdade, a técnica é muito diferente. A forma de pintar é mesmo diferente, porque as peças têm muito mais pó, são muito mais fundas e depois partem. Também temos de nos adaptar a isso", sublinha. E há a questão das cores. Depois de o barro ser cozido, as cores podem não corresponder exatamente à tinta que foi utilizada, aponta Claudia Lancaster. “É esta coisa meio surpresa, não sei o que vai acontecer. Até há uma peça em que eu usei azul e lilás, mas na peça é a mesma cor. Estou com receio de ficar tudo azul. Mas supostamente é um lilás e um azul, mas vamos ver.”Célia Esteves é a única do grupo que não é ilustradora, a sua experiência é outra, por isso a sua abordagem às peças foi diferente. "Para mim está a ser uma lufada de ar fresco, porque eu estou sempre no tear e a fazer colaborações com outros artistas, então é uma oportunidade para eu poder ser criativa também.""Eu queria raspar e só fazia a intenção de usar uma cor, o preto, e mantive isso na coleção, por isso não encontrei grandes dificuldades, enquanto que os meus colegas, que são ilustradores, trabalham mais com as cores e aí podem encontrar outros desafios, porque as cores mudam", aponta a criadora dos tapetes GUR, uma abordagem contemporânea à tecelagem tradicional.“Queria trazer um bocado de Viana do Castelo para Viana do Alentejo”, diz Célia Esteves sobre a sua coleção. “Então fui buscar algumas expressões e palavras do Minho, não diria que seja só de Viana, algumas que a minha avó dizia. E também elementos etnográficos dos bordados ou até da louça de Viana, e fiz uma abordagem um bocado mais contemporânea”, explica.Já as peças de Carolina Celas contam histórias em torno da comida, a sopa de tomate, o ovo estrelado, a plantação do trigo, as papoilas no campo. "Acaba por ser um bocado o que eu faço, a narrativa. E também me dá algum prazer ver as pessoas a porem a cabeça nos sítios para perceberem o que está a acontecer." . Claudia Lancaster inspirou-se numa música para decorar alguma louça em que está a trabalhar. "E foi um bocado com base nessa música que eu criei as peças. Outras não, outras queria que fossem mais decorativas e abstratas. A música diz 'o sol perguntou à lua se havia amanhecer'. E depois fala nos olhos de alguém. Essa ideia do sol vir e da lua também chegar a seguir. E foi isso.”Os ilustradores só vão conhecer o resultado das suas criações no dia 15 de maio, no âmbito do FICO - Festival de Ilustração, Criatividade e Olaria, que começou em 2022 em Viana do Alentejo, na sequência da primeira residência artística ali realizada.As peças que forem escolhidas para serem produzidas serão mostradas no Depozito, em Lisboa, a 27 de junho e lançadas comercialmente. No Porto serão expostas na It's a Book, a partir de 19 de setembro. . Astrid Suzano: “Está-se a voltar a dar palco ao artesão”Criada em 2016, a associação Passa ao Futuro faz dez anos de atividade que celebrará com uma exposição no MUDE - Museu do Design no próximo ano. A Passa ao Futuro nasceu na sequência de um mapeamento que as arquitetas Astrid Suzano e Fatima Durkee, as fundadoras, começaram a fazer dos artesãos em Portugal. Nesta altura, a associação já tem uma base de dados com mais de dois mil artesãos em Portugal. “Não os conhecemos todos, no entanto, já conhecemos muitos deles. E, por isso, já temos mapeados vários problemas de vários artesãos”, diz Astrid Suzano ao DN. As fundadoras da Passa ao Futuro foram as curadoras da exposição Um Cento de Cestos que esteve patente de setembro de 2021 até recentemente no Museu de Arte Popular, em Lisboa, sobre a qual será publicado agora um catálogo.Que balanço faz do impacto que a Passa a Futuro tem tido nestes dez anos? Quando nós começámos, há dez anos, fomos bater à porta do Ministério da Cultura, do Turismo, de todos eles. E toda a gente nos disse, ‘não queremos saber do artesanato, o artesanato morreu, agora o mundo é digital’. As pessoas pensaram um bocado e a verdade é que há agora muitos projetos, imensas marcas, há imensas mini Passa ao Futuro, o que é ótimo, não conseguimos fazer tudo sozinhas, quanto mais nós formos, e mais nos juntarmos, melhor é para todos. Por isso, acho que o saldo é positivo, efetivamente há uma diferença, desde que nós começámos até agora, até mesmo para nós, ao nível de projetos.Fizeram agora a residência aqui em Viana do Alentejo, em que outros projetos está envolvida a Passa ao Futuro?Fomos convidadas para fazer uma exposição no MUDE, no Museu do Design, precisamente na celebração dos nossos dez anos, e que será só em março do próximo ano. E no âmbito também desta exposição teremos diferentes momentos, estamos a negociar com o MUDE duas residências. E também talvez ter uma série de workshops abertos ao público. A ideia é mostrar uma boa seleção das coleções que resultaram das nossas iniciativas, em diálogo com a coleção do museu. E também enquadrar o papel do artesão que está um bocado ao serviço do design. O foco era sempre no designer, no arquiteto, nunca se sabia quem era o artesão. E depois isso começou a mudar um pouco. Nós dizemos sempre quem fez, quem produziu. Há sempre essa informação, que é muito transparente. Mostrar o papel do artesão no contexto do design. E está-se a voltar a dar palco ao artesão.Nestes dez anos já trabalharam com que tipo de artesanato?Já trabalhámos com cestaria, tecelagem, cobre, cortiça, madeira – na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva – latão, pele e couro, cerâmica, construção tradicional (tijolos de burro, mosaico hidráulico). Focamo-nos especificamente em ofícios que têm implicações utilitárias, que é diferente do mercado do design, da arte ou da moda, isso é outra coisa. Decidimos mesmo focar-nos em design, uma coisa mais de produto. Há áreas ainda por explorar? Nunca fizemos nada ainda com bordados e rendas. Quero muito trabalhar com o vidro, na Marinha Grande, temos tentado. Vamos agora fazer uma candidatura a financiamento para fazer umas residências na Marinha Grande, em parceria com uma universidade. Será para 2029.Quais são os ofícios tradicionais mais em risco em Portugal? Quando nos convidaram para fazer a exposição no Museu de Arte Popular, deram-nos um tema a escolher e nós acabámos por escolher a cestaria, porque tínhamos uma lista dos ofícios em risco de desaparecimento, e a cestaria está em número um, porque apesar de haver um grande número de artesãos cesteiros, são pessoas muito mais velhas. Na altura, a média de idade das pessoas a fazer cestaria era de 72 anos. E há outros ameaçados? Há coisas específicas, por exemplo, a olaria pedrada de Nisa está em risco, morreu há pouco tempo o oleiro. E depois coisas soltas, por exemplo, a tecelagem de lã, só há uma uma senhora que a faz, a D. Fátima, em Mirandela. O tipo de tapete que ela faz é único em Portugal. A arte pastoril, que é feita com madeira ou cortiça. É uma arte muito romântica, os pastores iam para o campo, faziam muitas peças para as namoradas, para pedir em casamento... Isso também está em risco, já não há pastores.A jornalista viajou a convite da Passa ao Futuro.Anna Maria Maiolino no MAAT: Esculturas vivas feitas de pequenos gestos.Bruno Zhu no CAM. Uma exposição cheia de "momentos insólitos" para acordar o visitante