A doença de Alzheimer é central neste A Força das Sentenças. O romancista pediu aqui ajuda ao psicólogo que também é?Para este livro talvez tenha procurado maior ajuda na família do que na ciência. Mas serão poucas as ocasiões em que o psicólogo deixa de o ser, não é como um casaco que se pendura. O tema interessou-me por ter acompanhado de perto o caso de um parente próximo. Achei cruel a forma como um rótulo pode mudar a relação da sociedade com uma pessoa, igual a uma sentença (daí o título). E interessa-me a dualidade memória versus personalidade. A forma como nos definimos não estará relacionada com aquilo de que nos lembramos do nosso passado? E com o que esquecemos?.Tem publicados vários livros onde os Açores servem de tema ou de pretexto. Este livro serve para mostrar que um escritor açoriano não tem de ser forçosamente um escritor dos Açores?Este livro talvez sirva para mostrar a mim mesmo que pertenço ao mundo, mesmo que escreva sobre o que se passa na minha rua. Mas é verdade que abordo "a ilha", mais recentemente os temas da emigração, e isso reflete uma certa duplicidade: desejo desprender-me da ilha mantendo os pés nela. Creio que consigo escrever sobre qualquer tema e situá-lo em todas as geografias, já o tenho feito nalguns contos e crónicas, mesmo que a paisagem açoriana me contagie todos os dias. E não é preciso nascer nos Açores para se ser açoriano: há quem nos visite e se sinta adotivo; e há quem descenda de gerações remotas e mantenha a lava no sangue..Recebeu grandes elogios a alguns livros anteriores, e Onésimo Almeida até publicou no DN um texto sobre Ilha-América em que lhe atribui uma escrita "ágil, incisiva e vivaz". Também A Escrava Açoriana mereceu críticas muito positivas. Como reage a estes elogios e também a prémios como o recente Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes, atribuído pela Câmara de Portimão?Tenho cuidado redobrado com os aplausos que recebo: são sempre provisórios (aliás, como quase tudo na vida). Aceito os elogios, são uma das melhores recompensas por esta casmurrice de continuar a escrever; agradeço os prémios, pois vêm de certa forma certificar a minha entrega; mas o que mais me entusiasma é a própria escrita, a intensidade da investigação, o ato de se contar uma história que me liga aos leitores..Os Açores já lhe ofereceram ideias para novos livros? Ou há até novas ideias que não vêm dos Açores?Ideias para novos livros não faltam e vêm de todas as geografias. Quando surge um tema novo, vou colecionando material até que seja suficiente para a narrativa. Depois é alinhar ideias soltas, e essas despontam a partir do que me rodeia. Para o novo romance que estou a escrever, por exemplo, inspirei-me na história verdadeira de um açoriano emigrado nos Estados Unidos que se juntou à máfia, durante os anos vinte, aquando da Lei Seca. É apenas um exemplo de entre inúmeros casos caricatos do nosso passado desconhecido e que poderiam ser revelados..Qual são para si os grandes romances sobre os Açores?Começaria pelos olhares de forasteiros: Mulher de Porto Pim (Antonio Tabucchi) e As Ilhas Desconhecidas (Raúl Brandão). Depois há outros incontornáveis: Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio), Gente Feliz com Lágrimas (João de Melo) e Meridiano 28 (Joel Neto), mas o que mais me marcou foi O Barco e o Sonho, de Manuel Ferreira..Que escritores, e aqui o exercício exclui os açorianos, o marcaram mais?Depois de uma adolescência com a banda desenhada de Lucky Luke (Maurice de Bévère) e os clássicos de Enid Blyton, dei por mim cercado pelos policiais de Rex Stout. Depois vieram H. G. Wells, Hemingway e Hermann Hesse. Mais tarde, Eça, Saramago e Mário de Carvalho. Hoje tento ler de tudo, incluindo não-ficção..A Força das SentençasPedro Almeida MaiaOn y va, Câmara de Portimão139 páginas