Nascido em Barcelona, em 1960, José Luis Guerín é um cineasta tanto mais interessante, por vezes fascinante, quanto não parece haver “rótulo”, nem sequer zona temática ou princípio estético, capazes de abarcar a diversidade do seu trabalho. Para nos ficarmos por dois exemplos emblemáticos, lembremos que encontramos na sua filmografia experiências tão singulares como Innisfree (1990), um ensaio sobre O Homem Tranquilo (1952), de John Ford, ou Comboio de Sombras (1997), memórias ambivalentes, porque construídas entre ficção e documentário, das filmagens amadoras de Gérard Fleury na década de 1920. O seu título mais recente, Histórias do Vale Bom (prémio especial do júri no Festival de San Sebastián) chega esta quinta-feira, 19 de março, às salas portuguesas.Dizer que se trata de um documentário sobre Vallbona, um bairro da periferia de Barcelona, será uma informação tão correta quanto insuficiente. Quanto mais não seja porque a visão de Guerín ou, mais especificamente, o seu modo de filmar não repete os lugares-comuns “sociológicos” que, não poucas vezes, caracterizam as abordagens televisivas deste tipo de universos.Antes da entrada do genérico, os quatro ou cinco minutos de introdução são sintomáticos de uma estratégia narrativa em que o rigor do método não exclui, bem pelo contrário, as componentes de alguma improvisação. Com as suas imagens a preto e branco (algumas aparentemente registadas em película de 8mm), descobrimos fragmentos sugestivos que servem de introdução a um lugar com uma história antiga e multifacetada. No início do século XX, chegou mesmo a existir em Vallbona um projeto de construção de uma cidade-jardim para pequenos proprietários... A Guerra Civil impediu a sua concretização e a chegada de novos habitantes, vindos do Sul, foi gerando um bairro com um visual algo “desordenado”, mas que existe, apesar de tudo, como uma pequena ilha que, de modo algo insólito, resistiu a diluir-se no tecido urbano de Barcelona.O diálogo de Guerín com os habitantes inicia-se em forma de casting (há mesmo um cartaz com o anúncio da sua realização). Trata-se, afinal, de abrir caminho - caminho cinematográfico, entenda-se - para a diversidade de rostos, gerações e experiências que habitam o labirinto de Vallbona. Nesta perspetiva, Histórias do Vale Bom é também um exemplo modelar da forma de ocupar (cinematograficamente) um determinado lugar, respeitando a pluralidade das suas pessoas e memórias. .'Projeto Hail Mary'. Avé Maria do cinema.A Pequena Amélie'. Amélie à procura da sua identidade