Há festivais que ocupam salas. BABELL quer tomar a cidade. Entre 24 e 29 de junho de 2026, o Porto será chamado a transformar-se em palco de palavras, ideias, música, poesia e pensamento, através de uma programação que se espalhará por ruas, praças, jardins, auditórios e edifícios históricos, numa tentativa assumida de fazer da literatura uma experiência urbana, coletiva e visível.Promovido pela Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara Municipal do Porto, o evento revelou agora a totalidade da sua programação e confirmou a escala da ambição. Aos nomes já anunciados nos últimos meses - Olga Tokarczuk, Salman Rushdie, Margaret Atwood, Byung-Chul Han e Javier Cercas - juntam-se agora László Krasznahorkai, Julian Barnes, Conceição Evaristo e Héctor Abad Faciolince. O cartaz ganha, assim, peso no contexto nacional: dois Prémios Nobel e um conjunto de autores que, vindos de geografias, línguas e tradições distintas, compõem um mapa expressivo da literatura contemporânea.A cultura como pilarMais do que apresentar um programa, a sessão no Rivoli, esta terça-feira (31), serviu para afirmar uma visão. Nas intervenções dos responsáveis políticos e institucionais, BABELL surgiu não apenas como um projeto cultural, mas também como uma ideia de cidade.Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal do Porto, definiu a cultura como “o pilar, a base, onde o futuro tem de assentar”. E acrescentou: “Sabemos que é um bem comum. BABELL vai deixar uma semente para o futuro e é um orgulho para todos nós, portuenses, viver este momento.”Também Jorge Sobrado, vereador da Cultura, sublinhou a dimensão transformadora do festival. “Aqui, no Porto e no BABELL, não nos conformaremos em reproduzir a célebre máxima de Lampedusa, segundo a qual ‘é preciso que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma’”, afirmou. “Pelo contrário, nada deve ficar como antes.”Da parte da Fundação Livraria Lello, Pedro Pinto definiu o alcance do projeto: “BABELL é uma arma cultural capaz de impactar no território e na vida das pessoas”, descrevendo-o também como “uma forma poética de promover o território”.Já Rui Couceiro, comissário do evento, insistiu na ousadia da proposta e no seu caráter excecional. “Programar é a arte do possível. Mas nós acreditamos, na Fundação Livraria Lello, que é, por vezes, a arte do impossível.” E acrescentou: “O que aqui se está a fazer tem uma ambição que advém da ousadia visionária da família Pedro Pinto.”O livro como entradaEntre os vários traços que distinguem BABELL, um sobressai de imediato: aqui, o livro não é apenas tema ou pretexto; é condição de acesso. Inspirado na experiência da Livraria Lello, o festival adota um modelo em que a participação nas sessões será garantida pela compra de livros numa rede de mais de 50 livrarias aderentes. Cada exemplar dará direito a uma senha com código, que permitirá reservar lugar na página oficial do evento.A organização faz questão de sublinhar que nada lucra com este mecanismo, pensado para levar leitores às livrarias da cidade e reforçar a relação entre programação cultural, comércio livreiro e hábitos de leitura. Para entrar em qualquer sessão, será ainda obrigatório transportar um livro na mão. As bilheteiras, isto é, a possibilidade de adquirir livros que dão acesso às senhas, abrem a 7 de abril.Literatura, música, arte e pensamentoA abertura do BABELL está marcada para 24 de junho. A partir da Livraria Lello Porto, que iniciará uma nova fase de crescimento num projeto assinado por Álvaro Siza, o programa prolonga-se, nesse mesmo dia, até ao Mosteiro de Leça do Balio, sede da Fundação Livraria Lello. É aí que terá lugar a conferência de Byung-Chul Han, integrada na inauguração do Jardim do Pensamento, espaço que o filósofo germano-coreano vai apadrinhar e que resulta da colaboração entre Álvaro Siza e o arquiteto paisagista Sidónio Pardal.A arte contemporânea encontrará um dos seus momentos mais fortes na participação de Cai Guo-Qiang. O artista chinês, associado a projetos como Sky Ladder, às cerimónias dos Jogos Olímpicos de Pequim e a exposições em museus como o Prado, o Guggenheim ou o Metropolitan Museum of Art, apresentará uma performance de grande escala entre a Ribeira do Porto e o Cais de Gaia, um espetáculo pensado para dialogar com as duas margens do Douro e transformar, ainda que por instantes, a paisagem histórica do rio através de “um espetáculo poético e original de escala monumental”.Na música, o destaque vai para o concerto de GNR e Pedro Abrunhosa. Na Avenida dos Aliados, a proposta é inédita: os dois projetos vão partilhar o palco em duas canções, uma de cada repertório, e apresentar ainda temas novos, compostos especialmente para o festival, a partir de textos de grandes poetas portuenses. Na Torre dos Clérigos, Luís Osório apresentará o monólogo “Aparição”, criado para o festival e centrado em histórias insólitas e menos conhecidas de escritores portugueses e estrangeiros."Uma cidade-livro"A literatura em língua portuguesa terá também forte presença no programa, com autores como Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Ana Paula Tavares, Valter Hugo Mãe, Milton Hatoum, João de Melo, Dulce Maria Cardoso, Djaimilia Pereira de Almeida e Bruno Vieira Amaral, além de Conceição Evaristo. O festival quer, assim, fazer coexistir geografias, gerações e vozes distintas, sem perder de vista a “relação profunda entre o Porto e a palavra”.Haverá ainda programação infantil, com curadoria de Adélia Carvalho, nos Jardins do Palácio de Cristal; colóquios sobre educação e leitura, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett; o ciclo “O Porto em 90 Minutos”, com aulas de História da cidade; e as iniciativas “A Poesia está na Rua” e “A Poesia ao Poder”, ambas com curadoria de Rui Spranger.BABELL nasce no contexto das comemorações dos 120 anos da Livraria Lello e cruza-se ainda com duas datas simbólicas para a cidade: os 25 anos da Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura — e os 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.Coproduzido pela Câmara Municipal do Porto, o festival conta ainda com uma vasta rede de parceiros institucionais e estratégicos, entre os quais a Câmara Municipal de Matosinhos, o Turismo de Portugal, o Bairro dos Livros, o Centro Português de Fotografia, o Museu Nacional Soares dos Reis, a Torre dos Clérigos, o Teatro Nacional São João e a Universidade do Porto.Resta saber se conseguirá cumprir a ambição que anunciou no Rivoli. Para já, uma coisa parece certa: mais do que apresentar um rol de sessões e nomes sonantes, BABELL propõe-se afirmar uma ideia de cidade e experimentar uma forma de a viver. .Festival Babell: a cidade do Porto como palco, o livro como passe