Gregório Duvivier: "No Brasil a democracia está a ir pelo ralo"

O comediante da Porta dos Fundos apresenta em Portugal o monólogo "Sísifo" que fala do absurdo da vida contemporânea e da situação política no Brasil, "um país que vive hoje um desmoronamento, que desce ladeira abaixo".

Na semana passada, Gregório Duvivier esteve em Nova Iorque, com os colegas humoristas do Porta dos Fundos, para receber o Emmy Internacional de melhor comédia com o "Especial de natal: Se beber, não ceie". Esta semana, o brasileiro está em Portugal para apresentar o espetáculo Sísifo, monólogo que parte do mito grego de Sísifo - o homem que todos os dias carrega a sua pedra por um monte acima para ao fim do dia vê-la rebolar monte abaixo e ter que começar tudo de novo, e conversou com o DN.

Uma das vozes mais críticas no Brasil em relação à política do presidente Jair Bolsonaro, Duvivier tem 33 anos e é um apaixonado por Portugal e pela "pujança da cultura portuguesa" - além de fã dos Gato Fedorento e da amizade que tem com o humorista Ricardo Araújo Pereira, é um admirador do músico Filipe Melo, do encenador Tiago Rodrigues, dos atores Nuno Lopes e Beatriz Batarda e de tantos outros: "Vocês fazem um teatro espetacular!"

Porquê o Sísifo?

É um mito que diz muito sobre a condição humana mas também sobre a condição contemporânea e brasileira. O Sísifo é um sujeito que, condenado a um trabalho repetitivo e exaustivo, está preso nessa repetição eterna. E todos nós temos essa impressão com os dias que passam e se parecem tanto. E também nesse mundo atual as pessoas parecem um pouco robotizadas e é muito difícil quebrar essa automatização. A peça fala disso, de como as pessoas parecem presas em GIFs e como sair dessa repetição.

Há duas maneiras de ver isso: por um lado, o Sísifo é como o ratinho na roda, que corre mas não sai do lugar; mas por outro lado ele é persistente, não desiste...

Camus, o escritor francês, falou exatamente isso: ele diz que Sísifo foi feliz porque conseguiu preencher essa caminhada até ao final da montanha com a pedra, ele não vê a pedra como um fardo mas como uma missão que Sísifo encontrou na vida. Então, Sísifo é mais feliz do que aquele que não tem pedra. A vida de todos é absurda, não só dos que carregam pedras. A gente nasce sem pedir, morre sem entender porquê e entre uma coisa e outra acontecem factos igualmente inexplicáveis e nada parece regido por ninguém.

E como podemos sair desse absurdo?

O que Sísifo diz, e que é bonito, é que o sentido não é algo que se encontra mas é algo que se inventa em algum lugar. E o teatro e a arte servem um pouco para isso, para forjar sentidos para a vida. No teatro, você cria um universo que faz algum sentido. Essa é a diferença entre o teatro e a vida. O teatro precisa ser crível, a vida não. O que a gente faz no palco é criar universos críveis, que façam algum sentido. A pessoa vai ao teatro e por alguns minutos esquece que fora dali nada faz sentido. O ator é um Sísifo, ele encontrou nessa repetição um prazer. O ator de teatro é um louco, nada do que ele faz fica, ele faz esculturas de gelo no deserto, aquilo esvai-se e derrete em poucas horas, no dia seguinte tem de recomeçar do zero. Isso é a tragédia do ator de teatro mas é também a sua glória, porque no final de uma peça só quem estava ali viveu aquilo.

Como é que o Sísifo está presente neste espetáculo?

Ele está como imagem, como um dispositivo através do qual a gente conta a história de mais de 60 personagens. É uma forma de a gente encaixar um monte de coisas que a gente queria dizer. Queríamos falar de política, de amor - toda a relação amorosa tem algo de Sísifo, porque ela se constrói mesmo sabendo que vai desmoronar fatalmente, seja com o divórcio, seja com a morte de alguma das pessoas.

Como é que surgiram estas personagens?

Escrevi o texto em dupla, com Vinícius Calderoni. Tínhamos esse sonho de fazermos algo juntos. Tínhamos tanta coisa para dizer e ficámos a pensar qual seria a melhor maneira de encaixar essas histórias todas. Quando achámos esse dispositivo da rampa, a peça toda poderia ser em cima de uma rampa, a peça começou a ganhar forma. Essa topografia íngreme traz um diálogo do ator, tem todas as formas possíveis de subir uma rampa e de se jogar de uma rampa, para o abismo. Tem desde Moisés atravessando o Mar Vermelho até um vendedor ambulante de mate na praia do Rio de Janeiro, passando por um motorista de Uber. Estão lá todas as formas de travessia que podem existir no mundo.

É uma peça sobre o presente, o que nos rodeia?

Sobre o momento contemporâneo mas também sobre a condição humana. Sobre suicídio, morte, o que faz a vida valer a pena, a busca de algum sentido na vida. Tem temas super-duros, difíceis para caramba, mas acho que o humor faz com que de alguma forma sejam digeríveis. O humor ajuda a gente a tomar esse remédio amargo que é a vida.

Diria que é uma peça cómica?

É uma peça cómica, mas não sei se é uma comédia. Diria que é um drama cómico.

As pessoas vão rir-se?

Se tudo der certo. A gente estreou a peça sem saber qual era o género dela. Mas como eu sou comediante tudo acaba indo para a comédia. Embora, o texto não seja exatamente cómico no sentido clássico da palavra. Mas ele é cómico no sentido em que tem piadas.

Considera-se um comediante? É essa a melhor definição para si?

Acho que sim. Tudo o que eu faço tem algum grau de humor.

Começou por ser ator. Como é que descobriu esse humor?

Comecei por ser ator mas desde que entrei no teatro que me fascinava muito a possibilidade de criar laços através do humor. Quando uma pessoa faz rir uma plateia dá a impressão que a plateia comunga com o ator uma intimidade que é muito única. Só o comediante sabe o que é isso. Lembro-me que, com 10 ou 11 anos, entrei no teatro e, sem querer, fiz as pessoas rirem, provavelmente da minha cara, da minha voz aguda, mas riram e houve uma conexão, foi uma experiência transformadora. Passei a perseguir aquilo ao longo da minha vida, essa comunhão que o riso gera.

E no seu dia-a-dia também faz os outros rir ou é uma pessoa séria?

Os humoristas são geralmente pessoas sérias. Quem vive do humor tende a não encontrar muito espaço para isso na própria vida. O humor é muito diferente do bom humor e às vezes as pessoas confundem isso. No Brasil, as pessoas esperam do humorista algo espalhafatoso quando na verdade é o contrário disso em geral, é preciso ser muito observador e muto crítico, o humorista alimenta-se da distância que tem em relação ao mundo, pode até ser um pouco desagradável para quem está à volta dele porque o humorista é normalmente uma pessoa que não consegue curtir, está olhando o mundo de modo clínico.

É o que faz nesta peça?

Sim, olhar as engrenagens do mundo. É um pouco o olhar da criança ou do louco, é um olhar fresco. O humorista tenta perseguir essa ingenuidade do olhar algo pela primeira vez.

Nesta peça existe também uma crítica à atual situação do Brasil, imagino.

Não tem como não ter, qualquer pessoa que vive no Brasil está criticando a situação atual. A peça não fala disso o tempo todo mas, se vir com olhos atentos, está a falar disso o tempo todo. De um país que vive hoje um desmoronamento, que desce ladeira abaixo, que construiu a duras penas uma democracia e que a vê agora ir pelo ralo. O desmoronamento é sempre mais rápido do que uma construção. Como Caetano dizia, o Brasil é esse país onde tudo é construção e já é ruína.

Essa é já uma ideia clara para a maioria dos brasileiros?

Ainda há muitos apoiantes mas acho que estão diminuindo porque os resultados não estão a chegar. O presidente defende-se através de ataque: ataca o Lula, o PT, a Venezuela, o comunismo internacional, porque ele precisa de um grande vilão. É o que o fascismo faz: alimenta através do medo a ideia de que sem ele seria tudo muito pior. E o governo diz isso: existem problemas mas sem nós seria pior, vocês estariam nas garras do PT. Muita gente acredita nisso mas com o tempo a maioria já vai percebendo o embuste. É fácil ganhar uma eleição com esse discurso, mas depois de eleito como é que se justifica a falta de resultados? O governo está já inventando desculpas para o fracasso futuro.

No seu discurso no Supremo Tribunal Federal falou muito da censura. Já sentiu censura na pele?

Por enquanto não, literalmente. Já houve processos contra mim mas ou eu ganhei ou foram rejeitados pelos tribunais. Eles não conseguiram ainda mudar a constituição, então, por enquanto os juízes ainda decidem a favor da liberdade.

Mas essa sombra da censura paira sobre os artistas...

Sim, esse medo da censura existe em todo o mundo que vive de arte no Brasil. É tudo muito recente. A gente tinha censura há 30 e poucos anos atrás, as pessoas ainda se lembram. A democracia é muito nova ainda.

Uma das formas de fazer censura é cortar os financiamentos dos artistas.

Exatamente. E é uma censura perversa porque parece que não é censura, dá a impressão que ninguém está proibindo nada, a gente só não quer financiar isso. Mas a verdade é que atinge os que mais precisam, os periféricos, os que fazem os trabalhos mais vanguardistas e os que não estão tão contemplados pelo sistema comercial, como muitos artistas negros, muitas mulheres, trans, etc., que são aqueles que têm mais dificuldade em conseguir o apoio das marcas. Então esse corte no financiamento acaba por ser uma medida elitista, porque a arte que vai permanecer é justamente aquela que é aprovada pelos grande barões da media.

O que é estranho para nós, que sempre vimos o Brasil como um país tão progressista e aberto, em relação aos costumes.

Eu acho que Portugal é muito mais progressista do que o Brasil. Os portugueses têm essa imagem mas a verdade é que Portugal liberou o aborto e o casamento homossexual e no Brasil isso nem é uma questão, é um país muito retrógado em certas coisas. Desde 1974, Portugal abriu-se ao mundo e é muito cosmopolita, é muito poliglota, conhece as culturas de muitos países, a música de Cabo Verde, o humor do Louis CK, coisas muitos diferentes. Claro que em Portugal há muitos católicos mas as instituições são laicas, vocês não têm deputados pastores. Um dos problemas no Brasil é que não se criou um consenso de que a ditadura era ruim. Por exemplo, não prendemos nenhum torturador. Houve uma amnistia geral ampla e irrestrita, foi esse o termo usado.

Qual é a tarefa do humorista num momento destes?

Eu acho que a tarefa do humorista nestas horas é dar a ver. É jogar sobre o mundo um olhar desprovido de vícios. Mas há muitas pessoas no Brasil que dizem que o papel do humorista não é dar opinião política, é só fazer o público rir. Mas as coisas não são indissociáveis. Fazer rir e provocar reflexões são coisas complementares.

Na Porta dos Fundos fazem ambas coisas, provocar o riso e a reflexão, há já sete anos. Não deve ser fácil...

Não é fácil. Mas para mim existe uma beleza: nós somos muito diferentes, inclusive politicamente. Não tem nenhum bolsonarista e também não tem nenhum terraplanista. Mas temos espectros diferentes dentro do Porta dos Fundos, há uns que defendem pontos de vista mais liberais na economia, eu gosto do estado do bem-estar social, as discussões existem. Mesmo em relação ao humor, há uns que acham que se pode fazer piada com tudo, outros acham que há que ter cuidados. Isso torna o grupo muito sólido porque há uma diversidade de opiniões que é saudável e a gente se respeita muito mas não deixa de discutir, isso é muito bom.

Sísifo

De Gregório Duvivier e Vinícius Calderoni
Com Gregório Duvivier
Braga (Espaço Vita) - sábado, 30
Caldas da Rainha (Centro Cultural e de Congresso) - domingo, dia 1 de dezembro
Porto (Teatro Sá da Bandeira) - segunda-feira, dia 2
Estarreja (Cineteatro) - terça-feira, dia 3
Lisboa (Teatro Tivoli) - quarta-feira, dia 4

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