A adivinhação dos Óscares (este ano a 15 de março) a partir do palmarés dos Golden Globes é uma velha tentação jornalística que, de facto, se baseia numa visão esquemática e redutora da própria temporada dos prémios. Primeiro, porque o universo de votantes (cerca de três centenas de membros da imprensa internacional) é totalmente diferente da abrangência profissional da Academia de Hollywood (refletindo as escolhas de quase dez mil membros da indústria); depois, porque a “repetição” de prémios, além de normal, não é estatisticamente tão significativa quando, por exemplo, comparamos os principais premiados com as escolhas das associações (“guilds”) de produtores e realizadores. Depois de vários anos de crise em que a representatividade (profissional, etária, etc.) dos votantes foi objeto de muitas polémicas, há que reconhecer que os Golden Globes souberam reconverter as suas bases, voltando a ser aquilo que, afinal, os cinéfilos mais admiram. A saber: uma celebração do cinema que persiste e resiste, mesmo para lá da decomposição das estruturas clássicas de Hollywood (que, como a apresentadora Nikki Glaser lembrou, já não existe como centro económico e simbólico da grande indústria audiovisual dos EUA). .Um prémio “secundário”, mas marcante, da cerimónia deste ano terá sido para uma categoria, afinal, exterior ao espaço dos Óscares. Ao arrebatar o Golden Globe de melhor secundário em televisão, nessa série prodigiosa que é Adolescência, o inglês Owen Cooper (fez 16 anos no dia 5 de dezembro) surge como uma singela manifestação de uma identidade juvenil que não se dilui nas formas mais disparatadas, caricatas e irresponsáveis, com que alguns formatos televisivos tratam a infância e a adolescência. Mais do que “antecipar” os Óscares, os Golden Globes funcionam sobretudo como um espelho das tendências que estão a marcar a chamada temporada dos prémios. Com destaque para dois títulos que, pelo menos no contexto americano, são fenómenos de culto (ainda em crescendo): Hamnet, drama histórico centrado no casal William Shakespeare/Agnes Hathaway, e O Agente Secreto, a memória política brasileira cujo apelo universal está mais que provado. A vitória de O Agente Secreto nas categorias de melhor ator/drama, para Wagner Moura, e de melhor filme estrangeiro (ou internacional, de acordo com a classificação da Academia) deixa, aliás, uma interrogação que, escusado será dizê-lo, não diminui as qualidades especificamente cinematográficas dos títulos envolvidos. Ou seja: depois deste “esquecimento” de Foi Só um Acidente, o iraniano Jafar Panahi chegará, ou não, ao fim desta temporada como símbolo das lutas por melhores condições de vida no seu país? Em boa verdade, sejamos realistas, talvez seja pedir demais a um filme e, sobretudo, a um cineasta... .Tal questão suscita uma interrogação perversa que, de uma maneira ou de outra, talvez não possamos evitar. A saber: num contexto (americano e internacional) de tantas e tão perturbantes convulsões políticas e militares, será que podemos esperar, ou até mesmo exigir, que os filmes surjam como “bandeiras” de algumas causas? A minha resposta é linear: mesmo perante o mais subtil filme político — será o caso de Batalha Atrás de Batalha, vencedor na categoria sempre bizarra de melhor “comédia ou musical” —, será um erro jornalístico reduzir o cinema a obrigatório instrumento panfletário (do que quer que seja). Clooney & Spielberg Ainda assim, o facto de George Clooney, apresentador do prémio para melhor filme/drama (na companhia de Don Cheadle), ter iniciado a sua intervenção com um saboroso “Bonsoir, mes amis” ecoou muito para lá do seu louvável esforço para reproduzir a elegância poética da língua francesa. Tendo em conta algumas recentes atribulações da política mediática nos EUA, podemos acreditar que alguém na Casa Branca estará a estudar, com afinco e ansiedade, os labirintos da herança literária de Molière. .A provar que há coisas mais importantes, sobretudo mais mobilizadoras, do que as peripécias do infantilismo político, foi reconfortante sentir que, afinal de contas, apesar de tudo, Hollywood não é uma palavra vã — nem um conceito que possamos dispensar. Isto porque o triunfo de Hamnet na categoria de filme/drama levou ao palco do Beverly Hilton, na qualidade de produtor, uma figura tão especial (e tão carregada de história) como Steven Spielberg. O seu elogio da realizadora do filme, a chinesa Chloe Zhao, teve o precioso valor simbólico de nos relembrar o valor universal das linguagens cinematográficas (Jesse Buckley sublinhara esse ponto ao receber o prémio de melhor atriz na categoria de drama). Se os prémios servirem também para celebrar tal valor, isso significa que nem tudo está perdido para os espectadores. .Netflix contra Hollywood: o drama cinematográfico para 2026 .'The Pitt' e 'Adolescência' vencem maiores prémios de TV nos Globos de Ouro