Há um velho cliché que nos faz esperar, porventura desejar, que um filme vindo de terras asiáticas, em particular da China, nos apresente personagens a lutar com espadas, exibindo vigorosos movimentos voadores a desafiar a lei da gravidade... E lembramo-nos de exemplos como O Tigre e o Dragão (2000), de Ang Lee, ou O Segredo dos Punhais Voadores (2004), de Zhang Yimou. De forma sugestiva, embora por certo algo discutível, talvez possamos dizer que Girls on Wire, da chinesa Vivian Qu, surge como um herdeiro daquela tradição, ainda que de forma francamente ambígua, quanto mais não seja pela pulsão realista das suas propostas.A herança está no próprio título. Girls on Wire (à letra: Raparigas no arame) é uma expressão que decorre, precisamente, da atividade da jovem Fang Di (Wen Qi): ela trabalha como dupla na indústria de cinema, sendo especialista em protagonizar peripécias espetaculares, por vezes muito arriscadas, em que o seu corpo está, literalmente, preso por arames. Na verdade, a sua entrega a tão árduos trabalhos resulta da necessidade de pagar dívidas familiares decorrentes de uma herança que não é estranha a algumas ligações com entidades mafiosas.Tudo isso acaba por ser relançado de forma ainda mais dramática quando lhe surge a prima Tian Tian (Liu Haocun), que já não via há cinco anos. Tendo em conta os antecedentes familiares, Fang Di desvaloriza as calorosas memórias de infância que ambas partilham, tentando mesmo repelir Tian Tian. O certo é que o passado está longe de ser descartável (vamos conhecendo as suas atribulações através de flashbacks inseridos com assinalável subtileza), de tal modo que as duas primas vão viver uma odisseia de resgate das suas próprias identidades que, em determinados momentos, se cruza com os artifícios dos bastidores cinematográficos em que decorrem muitas cenas.Wen Qi e Liu Haocun são brilhantes, compondo as suas personagens como figuras assombradas pelo legado dos mais velhos, sem que isso se traduza num qualquer esquematismo simbólico sobre o diálogo (ou as ruturas) entre gerações. Tal como nas sequências mais arriscadas que Fang Di protagoniza enquanto dupla — uma delas, em torno de umas filmagens na água, numa noite muito fria, distingue-se pela sua surpreendente vibração física —, as duas heroínas são, afinal, sobreviventes de um universo (familiar, antes do mais) em que a mitificação da juventude existe como uma cruel ilusão. Daí que Girls on Wire possua a energia nostálgica de um filme de Série B, embora sublinhando a dimensão muito atual das suas convulsões dramáticas — em resumo, uma discreta maravilha..'Labirinto de Sombras'. O bem e o mal ou o peso da culpa.'33 Fotos do Gheto'. O Holocausto revisto através de 33 imagens