Temos uma relação escassa, mas também gratificante, com a produção cinematográfica da Índia. Sabemos da tradição popular, ou seja, a mitologia e a música de Bollywood, mas é um facto que, de vez em quando, um ou outro filme surpreende pelas suas singularidades temáticas e adquire uma invulgar ressonância internacional — assim aconteceu, em tempos recentes, com All that Breathes, nomeado para o Óscar de melhor documentário de 2022, e Tudo o que Imaginamos como Luz, distinguido em 2024 com o Grande Prémio de Cannes. Na sua subtileza dramática e contenção formal, Labirinto de Sombras, revelado no Festival de Berlim de 2025, agora lançado entre nós, é mais um título que merece ser descoberto.Nos subúrbios de Calcutá, deparamos com uma teia trágica que permanece sempre em suspenso. Sundar (Chandan Bisht), um ex-soldado cujos traumas limitam toda a sua existência, não será, em rigor, a figura central do drama, mas é quem desencadeia toda uma turbulência que vai afetar o seu filho Debu (Sayan Karmakar) e, sobretudo, a sua mulher Maya (Tillotama Shome, notável atriz). É Maya que assume as despesas dramáticas de toda a história — primeiro, porque é graças ao seu trabalho, como criada de várias famílias obviamente mais ricas, que a família resiste; depois, porque quando Sundar é acusado de ter cometido um homicídio, a sobrevivência material cruza-se com a possibilidade de decomposição emocional de todo o seu frágil universo...Trata-se de uma primeira obra realizada por um casal: Tanushree Das, atriz e encenadora teatral com experiência na área da montagem, e Saumyananda Sahi, com um trajeto profissional ligado, sobretudo, à direção fotográfica para cinema (as imagens de All That Breathes tinham a sua assinatura). E não será exagero reconhecer que as respetivas experiências são essenciais para o misto de realismo e “suspense” emocional de Labirinto de Sombras. A fotografia, em particular, trata os cenários em que Maya se move com uma atenção à luz e à cor que valoriza a verdade dos corpos e dos objetos, resistindo sempre a qualquer facilidade pitoresca; ao mesmo tempo, a narrativa evolui tanto através de ações muito concretas, ligadas à labuta do dia a dia, como de factos que não são mostrados, mas intuídos através dos diálogos das personagens principais.Nesta perspetiva, talvez se possa dizer que a tragédia de Sundar enraíza-se na sua incapacidade para traçar uma linha entre o bem e o mal das suas ações, de alguma maneira transferindo para Maya e Debu o peso de uma culpa difícil de enfrentar. Em última análise, Labirinto de Sombras é sobre a superação dessa culpa, o que empresta ao filme uma contenção poética tão envolvente quanto universal..'Girls on Wire'. Uma juventude presa por arames.'33 Fotos do Gheto'. O Holocausto revisto através de 33 imagens