Houve vários estrangeiros a combater por Portugal nas Guerras da Restauração. Sabe-se o que trouxe o italiano Giovanni Vannicelli a Portugal?Não temos muitas informações biográficas sobre Giovanni Vannicelli, mas, pelo que sabemos, ele tinha cerca de 30 anos - tendo nascido em Itália, no Estado da Igreja, por volta de 1607 - quando veio para a Península Ibérica para servir como militar num dos corpos do exército da União das coroas espanhola e portuguesa. No entanto, após a Restauração de 1640, Vannicelli pertenceu ao grupo de militares que optou por jurar lealdade a João IV de Bragança e, portanto, por estar ao seu lado na disputa que, durante o quarto de século seguinte, opôs Portugal à monarquia dos Habsburgos de Espanha.Foi pelo seu envolvimento na Batalha das Linhas de Elvas, em 1659, que Vannicelli ganhou grande fama. Como se distinguiu ele na batalha?Em outubro de 1658, o exército espanhol, composto aproximadamente por 11 mil infantes e 3500 cavaleiros e comandado por D. Luís de Haro, dava início ao cerco de Elvas. No interior do forte de Elvas encontravam-se aproximadamente 11 mil infantes, incluindo milícias auxiliares e a guarnição da praça. Giovanni Vannicelli estava à frente de outros 11 mil homens, três mil dos quais cavaleiros, que saíram de Estremoz para ir ao socorro de Elvas. O exército de socorro português chegou à vista de Elvas em 13 de janeiro de 1659, e colocou-se numa posição intermédia entre o forte de Nossa Senhora da Graça e o forte de São Francisco, de tal forma que não se compreendia onde se pretendia atacar. Este estratagema surtiu efeito, pois D. Luís de Haro optou por manter a guarnição espanhola disseminada por todas as linhas de cerco, e, portanto, enfraqueceu essas forças. O assalto português começou ao amanhecer do dia 14 de janeiro. A primeira rutura verificou-se perto do Forte de Nossa Senhora da Graça; a cavalaria espanhola, com cerca de 700 cavaleiros, terá então investido sobre os portugueses, mas foi logo apanhada de flanco por uma força de cavalaria portuguesa saída da guarnição de Elvas, que embora menos numerosa, lhe causou alguma desorganização. Neste combate entrou também nesta altura uma força de cavalaria espanhola proveniente do quartel da Vergada, que carregando sobre a cavalaria portuguesa esteve a ponto de a liquidar. Mas a cavalaria da vanguarda portuguesa chefiada por Vannicelli veio em seu auxílio, de tal forma que, em conjunto com a cavalaria portuguesa da guarnição de Elvas, conseguiram ao fim de pouco tempo pôr em fuga toda a cavalaria espanhola.No regresso a Itália, Vannicelli chefiou o exército do papa. Na época, era um cargo de grande relevância, certo?Certamente tratava-se de um cargo de grande transcendência: o papa costumava chamar a si, para comandar o seu exército, os melhores comandantes militares de toda a Europa. Evidentemente, a fama de Vannicelli tinha ido muito além de Portugal e chegado aos ouvidos do papa, que, ao saber da existência desse comandante tão valente, o reclamou para si.Este militar morreu em Génova. Era uma família importante, os Vannicelli?Os Vannicelli pertenciam ao grupo das famílias da antiga nobreza medieval do sul da Úmbria, no Estado da Igreja, e eram principalmente homens de armas, eclesiásticos e figuras proeminentes na administração e na justiça local: originários de Orvieto, eram senhores de Lugnano in Teverina e Magliano e inscritos na nobreza da cidade de Amelia; em todas estas localidades, brasões esculpidos, edifícios históricos e capelas nobiliárias testemunham o prestígio alcançado ao exercer cargos civis, militares e eclesiásticos no governo do Estado Pontifício. A morte em Génova, em 1673, deve provavelmente ser relacionada com o envio, pelo papa Clemente X Altieri, de Giovanni Vannicelli em missão diplomática à República de Génova, que mantinha, naquela altura, importantes laços políticos e financeiros com Roma.A pintura que mostrou na palestra, o que nos permite saber mais deste italiano que serviu os reis de Portugal numa época decisiva da nossa História?A pintura apresenta-nos, em primeiro lugar, um retrato de Giovanni Vannicelli. Naturalmente, não sabemos até que ponto este retrato é fiel à sua aparência, embora pareça compreender-se que se trata de um retrato realizado quando Vannicelli ainda era vivo e, consequentemente, podemos imaginar que se trata de um retrato fiel. Ao mesmo tempo, vemos que na pintura Giovanni Vannicelli é representado com o símbolo da Ordem de Santiago, o que também nos diz algo sobre ele. A cena de batalha representada é precisamente a da batalha da Linha de Elvas e mostra, ainda que de forma muito simplificada, os dois exércitos, o espanhol e o português, e porque o exército português, graças à intervenção de Vannicelli, teve a vantagem; talvez se trate de um quadro que foi doado pelo rei Afonso VI a Giovanni Vannicelli após o fim da guerra e precisamente para exaltar o agradecimento e a gratidão que o rei tinha por este condotiero italiano..“Tomate chegou da América como remédio e planta ornamental. Quando entrou na gastronomia italiana foi uma revolução”