Como Mario Martone refere, Fuori é um filme que procura apreender e integrar a herança de Goliarda Sapienza (1924-1996). Não biografar, mas reescrever. Isto porque a escrita de Goliarda, qual pressentimento cinematográfico, rasga as evidências da realidade, não para dela fugir, antes para expor as tragédias, consumadas ou suspensas, que a habitam. Leiam-se, por isso, os seus livros atualmente disponíveis no mercado português: A Arte da Alegria (edição Dom Quixote), Carta Aberta e A Universidade de Rebibbia (ambos com chancela da Antígona).Daí a ambiguidade da linguagem de Martone naquele que será o seu filme mais brilhante e também mais depurado: a pulsação realista dos corpos e dos lugares vai sendo contaminada por um clima trágico que, por fim, parece resgatar a personagem de Goliarda ao desencanto do seu destino. Além do mais, com essa ferida incurável de não ter chegado a conhecer a primeira edição italiana de A Arte da Alegria, lançada em 2008.Nas suas memórias sobre a prisão de Rebibbia, numa escrita que tem tanto de didático como de obsessivo, Goliarda procura compreender como o interior do cárcere duplica, literal e simbolicamente a vida lá fora (fuori): “(...) neste caldeirão de personalidades, destinos, desvios em que estou imersa, a minha pessoa parece ser de pouco interesse. Aqui dentro, nós, privilegiados pelas famílias, pelos ambientes em que vivemos deste o berço, protegidos desde crianças do que é a verdadeira necessidade, permanecemos espetros anémicos, nem bons nem maus, nem honestos nem desonestos, comparativamente com este bando de piratas que, de um modo ou de outro, não se sujeitou a aceitar as leis injustas do privilégio.”O filme de Martone é, de facto, cúmplice de palavras como estas — como diz o realizador, aproximando-se do “estilo” de Goliarda. Está longe de ser uma opção meramente formal. Estamos mesmo perante uma experiência cinematográfica que recusa, ponto por ponto, a mediocridade corrente (favorecida por muitos discursos dominantes no espaço televisivo) que define os filmes e, em boa verdade, qualquer objeto artístico a partir de um elenco de “temas” tido como um caderno de encargos de qualquer ficção politicamente correta. Martone consegue, assim, a proeza de fazer o mais político dos filmes — para mais tendo como centro uma figura em nada estranha às mais variadas formas de intervenção política — sem nunca menosprezar a infinita complexidade das relações humanas.Acontece tudo isso através de um metódico amor pelo trabalho de quem representa em frente da câmara. Valeria Golino compõe uma Goliarda Sapienza que resiste, ponto por ponto, a ser enclausurada em qualquer cliché feminino ou feminista, sem esquecer a prodigiosa Matilda De Angelis no papel de Roberta, a cúmplice nº 1 de Goliarda. No cinema italiano, a tradição de atores e atrizes ainda é o que era..Mario Martone: “Gosto de usar o cinema como uma máquina do tempo”