'Fuck the Polis'. Cinco personagens à procura da beleza perdida
O mais recente filme de Rita Azevedo Gomes, Fuck the Polis, chega amanhã às salas de cinema. Distinguido com o Grande Prémio do Festival Internacional de Marselha de 2025, integrou no mesmo ano a programação do Doclisboa. O enigma do título não será uma “chave” de leitura do que quer que seja, mas justifica um breve esclarecimento, quanto mais não seja para sublinhar o seu laconismo.
Trata-se, de facto, de um trocadilho com Fuck tha Police, título de uma canção do grupo de hip hop N.W.A., incluída no álbum Straight Outta Compton (1989). Na origem, a expressão envolve algum tipo de desafio às forças da autoridade, desafio que se transfigura em insólita ironia através do uso da palavra “polis” — ou seja, cidade, em grego. Surgiu inscrita num graffiti, algures numa cidade da Grécia, e serviu também de título a um livro de poesia de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d’Água, 2018). Por fim, este círculo de referências encerra-se, abrindo-se para o seu destino cinematográfico, já que Fuck the Polis tem como inspirações A Portuguesa (2024), precisamente um conto de João Miguel Fernandes Jorge, e L’Éxile d’Hélène (1948), um ensaio de Albert Camus.
Parece estranho... Sem dúvida, mas de uma estranheza que rima com beleza. Do conto, Rita Azevedo Gomes refaz o movimento da personagem de Irma que, depois de uma primeira viagem à Grécia, em 2007, regressa no presente (do filme) para rever os lugares que visitou, de alguma maneira refazendo emoções e abrindo-se a novos pensamentos. Através do ensaio, publicado em 1954 na coletânea L’Été, somos confrontados com o desencanto do escritor, marcado pela nostalgia de uma vivência da beleza cujas raízes estão na civilização grega — no primeiro texto dessa coletânea (Le Minotaure ou la Halte d’Oran), Camus escreve: “Já não há desertos. Já não há ilhas. No entanto, sente-se a sua necessidade”.
Fuck the Polis pode ser classificado como um documentário. Não no sentido mais tradicional do género, muito menos obedecendo à lógica “demonstrativa” que domina o espaço televisivo, antes pelo seu empenho em documentar como nos relacionamos com os lugares (gregos, antes do mais) e como tal relação tende a ser filtrada, contaminada ou até mesmo induzida pelas maravilhas da palavra literária. Aquilo que fazem os cinco protagonistas — Bingham Bryant, Mauro Soares, João Sarantopoulos, Maria Novo e a própria realizadora — tem qualquer coisa de ritual cinematográfico, partilhando (e lendo) textos que intensificam as memórias das pedras, das árvores e dos peculiares arranjos das coisas naturais a que damos o nome de paisagem.
Esta é uma trajetória em que, contrariando as obrigações do turismo, os locais descobertos ou redescobertos parecem não se mover, imobilizados no tempo. Existem como se fossem sinais vulneráveis, mas persistentes, de uma identidade histórica que, antes mesmo das imagens, só a palavra (a começar pelos textos lidos) mantém em movimento.
Daí o valor fundamental do encontro dos protagonistas com a cantora grega Maria Farantouri. Para Irma, ela é mesmo uma memória encantada que se confunde com as memórias da primeira viagem à Grécia; agora, na serenidade luminosa da sua sala, Farantouri impõe-se como um verdadeiro oráculo que com eles partilha os mistérios e subtilezas do seu canto.
O que sustenta o filme não é tanto a ligação simbólica de todos estes fragmentos, antes o facto de formarem um puzzle cuja conclusão pode ser sempre suspensa ou adiada. O mais importante é a persistência do olhar, o desejo de continuar a descobrir os recantos da história (individual ou coletiva), numa demanda da beleza em que o registo documental pode atrair as mais inesperadas variações formais. No final, a cor exuberante das papoilas (que, aliás, vão pontuando todo o filme) basta para acreditarmos que a pulsão poética pode refazer o mapa das cidades.

