"Foi quando cheguei a Lisboa e li o 'Desassossego' em português que compreendi Pessoa"

Brunch com o escritor espanhol Jaime-Axel Ruiz Baudrihaye.

Foi por WhatsApp que recebi o nome do sítio para este brunch: "O café pode ser A Tentadora, em Campo de Ourique, na esquina da Ferreira Borges com a Saraiva de Carvalho." E agora, na esplanada, já com um café e um bolo de arroz à frente, Jaime-Axel Ruiz Baudrihaye explica-me que a escolha deste cafezinho é não só porque vive aqui perto, na Estrela, como por A Tentadora surgir logo no início do livro que em tempos escreveu sobre Lisboa, "um livro a quatro mãos, como bem sabes". Sim, sei, mas já lá iremos. Antes importa apresentar este escritor espanhol, um intelectual que fala português, que tem casa em Portugal e que é um apaixonado pelo país desde que há três décadas foi pela primeira vez colocado em Lisboa, na embaixada, como responsável pelos contactos com a imprensa.

Jaime é um homem alto, olhos e cabelos claros, e não se sabendo nada dele poder-se-ia, pelo aspeto físico, arriscar que talvez fosse um europeu do norte, não que não haja espanhóis de todas as cores e feitios, basta pensar em D. Quixote e Sancho Pança. "O meu pai era espanhol e a minha mãe belga. Conheceram-se como estudantes em França e depois foram viver para a Bélgica. Nasci em Bruxelas, mas só lá vivi até aos 5 anos. Depois fui criado em Madrid", resume Jaime, desvendando assim a origem do seu último apelido, o herdado da mãe, pois como é regra entre os espanhóis o do pai é o penúltimo.

Ter uma família multinacional desde o berço explica talvez muito da sua vida: foi diplomata em Paris, Rabat, Bruxelas e Lisboa, neste caso por duas vezes. É casado com uma espanhola que nasceu no Brasil (a psicóloga Alice) e uma das duas filhas (tem também um filho) vive hoje em Dacar com o marido senegalês. Aliás, quando começo a tentar lembrar-me como conheci Jaime, fico na dúvida se foi num evento da Fundação José Saramago, se num almoço na residência da embaixadora de Espanha (o magnífico Palácio Palhavã) ou numa receção oferecida por Israel a propósito do Hanukkah, o festival das luzes judaico. Creio que terá sido outro escritor espanhol apaixonado por Lisboa, Ignacio Vázquez Moliní, a apresentar-nos.

Estou a comer uma sanduíche de fiambre e a beber um galão e pergunto a Jaime se aquele sonho que pediu antes de se render à alternativa bolo de arroz tinha que ver com memórias antigas. "Sim. A primeira vez que vivi em Lisboa foi em Alfama, mas na segunda foi já aqui perto e costumava vir à Tentadora comer sonhos. Pelos vistos não há. Talvez seja só hoje, ou então como tem acontecido um pouco com a cidade, foram-se perdendo muitas coisas tradicionais. Não aqui em Campo de Ourique, onde há vida de cidade, mas por exemplo na Baixa, onde foram fechando as tascas, as livrarias, os alfaiates."

Sente-se em Jaime nostalgia por uma certa Lisboa que vai desaparecendo, vítima do enorme sucesso do turismo antes da chegada da pandemia em março do ano passado. Recordo-me de em abril de 2020 termos publicado no Diário de Notícias uma crónica dele, com o título "Lisboa sossegada e viva", sobre como a cidade estava diferente por causa do vírus, um texto de grande beleza, do qual transcrevo aqui um pouco: "O 28 sobe vazio e lento a Calçada da Estrela, na Baixa e na Praça do Comércio a chuva deixa um brilho nas calçadas que ninguém mancha, os fados silenciados, os alfarrabistas fechados e o Campo de Santa Clara deserto. É abril e neste ano não podemos celebrar o dia 25, que será um sábado um tanto triste ainda que ouçamos Grândola, Vila Morena em alguma rádio para matar saudades. Mas não se deixem enganar, não, Lisboa está apenas a hibernar."

Prosseguia depois a crónica de Jaime: "Sentíamos saudades do sossego de Lisboa depois da invasão daquele turismo exagerado que, egoísta, indiferente, ia desalojando os habitantes dos seus bairros antigos e convertendo a cidade num parque temático. Mas hoje é uma paz um pouco triste. Estão vazios os cafés onde os fregueses costumavam contar uns aos outros as suas tristezas e alegrias, esquecidas as mesas dos parques onde os reformados jogavam as suas partidas de cartas, fechados os parques infantis. Os lisboetas, os alfacinhas que dão a verdadeira vida aos seus bairros, estão fechados nas suas casas, muitas idosas ficam sem visitas e sem essas conversas triviais, mas necessárias para irem passando os dias, sem verem as suas amigas e poderem demorar-se junto à padaria. Elas não têm internet para fazer videoconferências."

Neste último ano e meio tão condicionado pela covid-19, o escritor tem vivido entre Lisboa, Madrid (onde estão uma filha e um filho e os três netos) e uma casa familiar na Andaluzia, na província de Jaén. E com o tempo extra que os confinamentos vão trazendo conta que tem escrito, mas também lido muito. Admira alguns nomes da poesia portuguesa, como Nuno Júdice e também Sophia e Ruy Belo. Confessa que leu primeiro O Livro do Desassossego em espanhol, mas só compreendeu Fernando Pessoa quando chegou a Lisboa e finalmente leu o livro em português. Também me fala dos romancistas portugueses, confessando grande admiração por Lídia Jorge.

"As editoras espanholas investem pouco nos autores portugueses. É um pouco a regra em tudo. Os portugueses conhecem muito melhor Espanha dos que os espanhóis conhecem Portugal. Na história acontece o mesmo. Na escola aprendemos muito pouco sobre Portugal", comenta este homem que se fixou em Portugal pela primeira vez em novembro de 1989. "Recordo-me muito bem da data porque vinha de carro de Tânger e ouvi na rádio ainda em Marrocos, em francês, que o Muro de Berlim tinha caído", explica.

Responsável pelos serviços de imprensa da embaixada na primeira etapa lisboeta e funcionário da representação do turismo de Espanha na segunda, Jaime foi reforçando laços com a capital portuguesa e quando há 20 anos conheceu Moliní, funcionário europeu mas autor de livros como o notável La Embajada Roja en Lisboa (teve também edição portuguesa), surgiu a ambos uma ideia de parceria a quatro mãos, a tal que referimos no início deste brunch, na realidade um pequeno-almoço.

"Há partes que reconheço ter sido eu, mas outros capítulos não. Cada um de nós escreve e envia para o outro, que dá uns retoques. É uma amálgama", conta. E assinam com o pseudónimo de Rui Vaz de Cunha, que é suposto ser português ou de origem portuguesa. "Criámos-lhe uma história de vida." Lisboas foi publicado em 2012, Elogio de Bruselas em 2013.

Em tempos, Moliní ofereceu-me Lisboas. Um dos textos, sobre um técnico de reparação de televisores em Campolide, ficou-me especialmente na memória. O estilo de reportagem impunha-se ao de crónica e ali estava uma belíssima homenagem a Lisboa.

Jaime diz que Portugal, apesar da proximidade com Espanha, é diferente "e é isso que lhe dá alma". E volta a arremeter contra o turismo exagerado, que diz ser um pouco "fáustico", pois pode fazer perder a alma. Confessa também apreciar muito as vilas e as aldeias de Portugal, "sempre bem cuidadas, uma prova de patriotismo estético".

A caminho dos 71 anos, Jaime pondera regressar a Madrid por razões familiares, mas sempre "dando um saltinho a Lisboa", onde estão muitos amigos. "E tenho uma grande atração pelo Atlântico", diz ainda o escritor, reforçando a ideia.

Formado em Direito, foi advogado sindical entre 1973 e 1979. Comunista na juventude, conheceu seis detenções e chegou uma vez a ficar mesmo preso. Com a morte de Francisco Franco em 1975, a transição para a democracia começou em Espanha e só quando a sua ficha ficou limpa Jaime conseguiu candidatar-se a funcionário do Estado. Hoje olha com certa zanga para o seu país. "Nós espanhóis temos muita inveja dos portugueses, da unidade que conseguiram", diz. Mas relativiza o perigo dos separatismos em Espanha, pois "estamos habituados a estes altos e baixos, a centrifuguismo versus centripetismo. No fim, lá nos entenderemos".

Confessa que chegou a ser juancarlista, "mesmo se nunca esperámos maravilhas dos Bourbon, Juan Carlos teve valor como defensor da democracia contra o golpe dos saudosistas da ditadura de Franco, mas depois estragou toda a sua imagem com os escândalos". Mesmo assim, não quer o fim da monarquia, diz que em Espanha as repúblicas acabaram sempre muito mal. E se a maioria dos espanhóis se inclina para o lado republicano, isso não quer dizer que queiram abrir a caixa de Pandora ou, numa versão muito castiça, "abrir o melão". De qualquer forma, "antes Felipe VI como rei do que Aznar como presidente da República", diz, entre risos, referindo-se a José María Aznar, político conservador que chegou a ser chefe do governo espanhol.

Em Lisboa, Jaime aproveitou os últimos anos já mais descansados de obrigações profissionais para frequentar a Sociedade Nacional de Belas-Artes, prosseguindo um curso que já tinha antes tentado. E conta que tem pintado muito, sobretudo Lisboa e paisagens marítimas. "Nunca pintei Madrid, não me inspira", confessa. Mais um sinal de que o escritor espanhol apaixonado por Lisboa nunca a deixará para sempre.

leonidio.ferreira@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG