O mínimo que se pode dizer sobre o Festival de Cannes (a decorrer até dia 23) é que as boas surpresas têm surgido em todas as secções. Até mesmo nas chamadas “Sessões Especiais”, secção que, por vezes, em anos anteriores, pareceu ser apenas uma acumulação de “restos” nem sempre muito motivadores. Um destaque muito especial vai para o documentário John Lennon: The Last Interview, o mais recente trabalho de Steven Soderbergh.Como diz o título, é mesmo a “última entrevista” de Lennon, realizada a 8 de dezembro de 1980 — ou seja, o dia em que Lennon foi assassinado à porta do edifício Dakota, em Nova Iorque, por Mark David Chapman. Seria um dia de muita atividade para Lennon e Yoko Ono, já que, além da entrevista, tiveram também uma sessão fotográfica com Annie Leibovitz, para a Rolling Stone — seria o tema de capa da edição seguinte da revista.Foi uma entrevista radiofónica, realizada no próprio Dakota, para a RKO Radio Network, conduzida por um trio: o DJ Dave Sholin, a escritora Laurie Kaye e o produtor musical Ron Hummel. Soderbergh reuniu-os para uma conversa que é, de uma só vez, uma coleção de referências apaixonadas sobre o ambiente caloroso em que decorre a entrevista — com Lennon a dar conta da alegria com que estava a repensar todo o seu trabalho musical — e, nos minutos finais, uma breve memória sobre o impacto mediático, emocional e simbólico da notícia da morte de Lennon.Através de uma montagem muito elaborada, como o seu quê de didático, Soderbergh vai reproduzindo os vários fragmentos da entrevista, ao mesmo tempo que revisita a história de Lennon e dos Beatles, em particular a sua entrada triunfal no mercado dos EUA. Sem esquecer que a passagem de John Lennon: The Last Interview não pôde deixar de evocar a “estreia” do próprio Soderbergh em Cannes, na edição de 1989, quando chegou à Côte d’Azur com um pequeno filme de produção independente intitulado Sexo, Mentiras e Vídeo — tinha apenas 26 anos e o júri oficial, presidido por Wim Wenders, consagrou-o com a Palma de Ouro..Cannes. Um festival de muitas histórias paralelas.Cannes. Emoções japonesas e francesas