O novo filme do iraniano Asghar Farhadi, Histoires Parallèles, ficará, por certo, como um dos momentos altos da 79.ª edição do Festival de Cannes. E não apenas porque o cineasta iraniano se “transfere” para cenários franceses — para mais com um elenco que inclui Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel e Catherine Deneuve —, mas também porque o seu título nos leva a considerar uma sugestiva moral narrativa. A saber: contar uma história nunca é organizar uma banal acumulação de “acontecimentos”, mas sim observar o estilo, ora ligeiro, ora perverso, como essa história nos conduz a outras histórias enredadas em paralelismos mais ou menos explícitos.O primeiro paralelismo decorre do facto de o filme de Farhadi se inspirar no Capítulo Seis do Decálogo (1989), do polaco Krzysztof Kieslowski, obra monumental que tinha como ponto de partida os enunciados dos Dez Mandamentos — neste caso, o sexto mandamento: “Não cometerás adultério”.É verdade que, tal como Kieslowski, Farhadi parte de uma personagem que, de uma janela de sua casa, espia alguém que vive do outro lado da rua. As coincidências “factuais” ficam por aí, uma vez que aquilo que mais conta é o modo como semelhante comportamento desencadeia um turbilhão de acontecimentos capaz de por à prova a transparência dos laços humanos, a ambivalência do desejo e a verdade do amor.Farhadi encena tudo isso como um labirinto de fragmentos da vida quotidiana, num registo em que o realismo imediato (o olhar sobre as ruas de Paris tem tanto de reportagem como de contida teatralidade) não exclui, por vezes parece mesmo atrair, uma sensação onírica. Isto porque a personagem central, Sylvie (Huppert, em controle absoluto de todas as nuances emocionais), começa a escrever uma ficção que tem como ponto de partida uma mulher desconhecida (Efira) que lhe evoca a imagem de sua mãe. Ao descobrir que ela habita na sua rua, começa a espiá-la, transformando (ou melhor, transfigurando) as suas rotinas, e também as pessoas com quem se relaciona, em inspirações para a sua ficção. Simplificando, digamos que a inesperada circulação da sua escrita vai afectar tudo e todos, primeiro de modo irónico, a pouco e pouco instalando um dramatismo que se vai aproximando de formas de violência física e moral... .Se Farhadi apresenta uma genuína e muito actual “comédia humana”, a americana Jane Schoenbrun, com o seu bizarro e fascinante Teenage Sex and Death at Camp Miasma (título de abertura da secção “Un Certain Regard”) propõe uma parábola centrada numa jovem cineasta que funciona, em última instância, como uma crítica paródica de muitas convenções do género de terror em que se insere. Aliás, o inventário de referências que o filme mobiliza (a começar por Psico, de Hitchcock) é tanto mais inesperado quanto nele encontramos Gillian Anderson a assumir a personagem de uma actriz que, ainda adolescente, protagonizou um filme mítico de terror, vivendo agora, nos cenários desse filme, como se fosse uma “reencarnação” da personagem reclusa de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder. Todas estas referências, convém acrescentar, não são deduções do crítico, mas memórias explicitamente citadas no filme que, em última instância, se define como um ziguezague entre os artifícios do cinema e o imaginário sexual das suas personagens.A merecer também especial referência temos ainda o filme que abriu outra secção, a Quinzena dos Cineastas: Butterfly Jam é mais um belíssimo trabalho do russo Kantemir Balagov que, depois de Tesnota (2017) e Violeta (2019), continua a filmar personagens da região da Circássia, de onde também é natural. Desta vez, tais personagens são figuras que vivem o seu “sonho americano” como um misto de euforia e pesadelo. Balagov filma as suas vidas como uma avalanche de paixões com algo de delírio operático — entre os actores principais, encontramos Barry Keoghan e a sempre brilhante Riley Keough.