Retratos da intimidade? Será essa uma tendência a assinalar no conjunto de filmes candidatos à Palma de Ouro de Cannes? A pergunta é prematura, mas não deixa de ser motivada pelos primeiros dois títulos descobertos na secção competitiva da seleção oficial: Nagi Notes, do japonês Koji Fukada, e La Vie d’une Femme, de Charline Bourgeois-Tacquet. Em ambos os filmes, o centro dos acontecimentos é uma complexa e fascinante personagem feminina, devidamente sustentada pela respetiva intérprete: Takako Matsu, no primeiro caso; Léa Drucker, no segundo.Léa Drucker, convém lembrar, é uma das grandes damas do atual cinema francês, mesmo se, pelo menos fora de França, não possui a aura de star de outras atrizes da mesma geração — foi, aliás, uma presença de destaque na edição de Cannes de 2025 com o policial Caso 137, de Dominik Moll, que viria a valer-lhe um César. La Vie d’une Femme possui os méritos, e também os limites, de uma narrativa de tal modo seduzida pelos contrastes da sua personagem central que vai ao ponto de a apresentar através de uma série de capítulos (numerados, cada um com o seu título) que se querem outros tantos ensaios “demonstrativos” das convulsões da sua existência de chefe do serviço de cirurgia de um hospital público. Por vezes, a eficácia dramática das situações fica limitada pela agitação de uma “mise en scène” nem sempre adequada à vibração (intimista, justamente) dos comportamentos. Seja como for, deparamos com uma magnífica galeria de intérpretes, incluindo o reencontro com Marie-Christine Barrault (como mãe da personagem de Drucker), ela que foi uma presença luminosa em A Minha Noite em Casa de Maud, de Eric Rohmer, já lá vão 57 anos.Entretanto, o magnífico Nagi Notes refere-se a uma pequena povoação no sul de Honshu (a maior ilha japonesa), no limiar da qual se encontra uma base militar. O título francês, Quelques Jours à Nagi, tem como justificação imediata a chegada de Yoriko (a personagem de Takako Matsu) a Nagi para visitar, durante “alguns dias” a sua amiga Yuri (Shizuka Ishibashi). As duas mulheres têm um laço antigo, até porque Yoriko foi casada com o irmão de Yuri — o reencontro com muitas memórias cruzadas vai ser, por assim dizer, exponenciado pelo facto de Yuri se propor esculpir um busto de Yoriko...O mínimo que se pode dizer é que a realização de Koji Fukuda, atento às mais discretas nuances afetivas das suas personagens, mantém uma relação subtil com todos os elementos do ambiente de Nagi (incluindo o som dos tiros que, em momentos de estranha acalmia, provêm da base militar). Mais do que isso: o confronto de diferentes gerações é tratado como um desafio muito particular a todas as personagens, afinal à procura das razões (porventura da ausência de razões...) dos seus insondáveis destinos. Em resumo: Nagi Notes é um belo fresco emocional, misto de transparência e mistério, que confirma a riqueza do trabalho de Koji Fukuda, cineasta de quem já conhecíamos Love Life (2022). .Mercado do FilmeO Mercado do Filme, em Cannes, é o maior do planeta do cinema. Escusado será dizer que aí se decidem muitas compras e vendas, produções de novos títulos ou anteprojetos dessas produções. Os números são eloquentes: 15 mil profissionais, representando 140 países, negoceiam um total de cerca de quatro mil novos filmes. Como já é tradicional, há um país em destaque (“Pays à l’honneur”) cuja presença se cruza com a própria programação das várias secções do festival — este ano a honra cabe ao Japão.Curiosamente, a presença japonesa tem um dos seus destaques na secção de clássicos que dará a conhecer uma cópia recentemente restaurada de um dos filmes menos conhecidos de Akira Kurosawa: Sanshiro Sugata (1943). Vale a pena recordar que Kurosawa ganhou a Palma de Ouro de 1980 com Kagemusha – A Sombra do Guerreiro (ex-aequo com All That Jazz, de Bob Fosse).Para lá da presença de muitos representantes das áreas de gestão e produção do cinema do Japão, a par de diversas conferências, a parte mais significativa da embaixada japonesa em Cannes está na competição para a Palma de Ouro. Com três representantes: All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi, Nagi Notes, de Koji Fukada (comentado aqui ao lado), e Sheep in a Box, de Hirokazu Kore-eda..'The Match'. Cannes celebra Diego Maradona.Cannes acolhe a nostalgia cinéfila.A Realidade Virtual portuguesa passa por Cannes