Em 2002, na derradeira exposição das obras de Fernando Calhau, no Pavilhão Branco, junto com Rui Chafes, houve um diálogo ou, como na altura foi descrito, “uma exposição cruzada”. Agora, 24 anos depois da morte de Fernando Calhau, o Pavilhão Julião Sarmento faz uma homenagem a esse encontro entre os dois criadores com uma exposição intitulada Depois de Para Sempre, com curadoria de Isabel Carlos. O DN viu as obras e conversou com Rui Chafes, que vê as suas quatro peças expostas, entre as 29 assinadas por Fernando Calhau, como “uma participação numa exposição”, mas que remete para o que aconteceu há 24 anos, quando houve obras de ambos “em confronto” e havia “uma igualdade de número, não matemática, mas mais equilibrada”.Há 24 anos, cerca de duas semanas antes de morrer, Fernando Calhau, junto com Rui Chafes, deu vida à exposição intitulada Um Passo no Escuro, no Pavilhão Branco, em Lisboa. Agora, Depois de Para Sempre não surge como uma tentativa de reconstruir esse momento, mas é uma evocação lúcida da relação entre os dois criadores e não esconde o que ambos disseram um ao outro e também a Julião Sarmento, que adquiriu as obras expostas. Portanto, tendo em conta a passagem do tempo, é também uma conversa entre os três, que pode ser apreciada entre 7 de março e 14 de junho deste ano.“São peças que Julião Sarmento comprou na altura”, explica ao DN Rui Chafes, em referência às suas três esculturas e a um único desenho que integram a exposição. “O Julião tinha esse olhar muito atento ao que estava a acontecer, por isso é que ele tinha uma relação tão grande, quer com artistas da sua idade, da sua geração, mais velhos, mas também muitas vezes com artistas mais novos”, revela, aludindo a si próprio, que teria pouco mais de 20 anos quando criou a peça que dá nome à exposição - Depois de Para Sempre - e que está em destaque na sala, rodeada de luz natural.“Eu tinha talvez 22 anos, 24 anos, era muito novo, e ele [Julião Sarmento] foi ver as exposições e adquiriu as peças”, conta Rui Chafes vincando que o artista e dono desta coleção “nem sequer” adquiriu as peças por via de troca, “foi mesmo ele que comprou”.Por este motivo, explica Rui Chafes, Julião Sarmento era “muito generoso em relação a artistas mais novos”.Sobre a Depois de Para Sempre - a peça, não a exposição -, Rui Chafes descreve-a como tendo pertencido a uma “série de peças que pareciam um pouco instrumentos para o corpo, meio no limite da dor, da tortura”. Uma análise à escultura, mesmo que seja feita por um olhar impreparado, dá precisamente esta ideia.“Não acho que fosse muito de corpo ausente, mas no limite da dor”, insiste o escultor..Para além da peça que dá nome à exposição, o olhar do visitante acaba por se perder naquilo que parece um casaco, feito em metal antigo, aparentemente oxidado.Também esta peça pertencia a uma série de cinco que Rui Chafes fez em 1989, para uma exposição intitulada Na Diferença. O título é Vertigens e “são casacos que têm uma dimensão um pouco maior que um ser humano”, analisa Rui Chafes, acrescentando que “era como se fossem para homens muito grandes, numa escala meio antinaturalista”. Mas há mais conceitos por trás.“Partiu, sobretudo, da peça A Morte de Danton, de Georg Büchner, que eu tinha visto na altura várias vezes e cujo texto me interessava muito, e tinha a ver com uma altura em que ele diz que cada ser humano é um abismo. Temos vertigens quando nos aproximamos”, elabora o escultor, vincando que, na série de peças referida, os “casacos são sobredimensionados”.Questionado sobre se, nessa altura, já tinha começado a sua incursão pela criação de peças geométricas em cenários orgânicos e figuras orgânicas em cenários mais estéreis, Rui Chafes admite que nunca tinha pensado nesses termos, mas acaba por revelar que, por exemplo, na exposição permanente que tem no Parque da Pena, em Sintra, se interessou muito pelo “espaço da natureza, nas montanhas, na floresta, nas rochas, na vegetação, nos lagos”, que acabou por gerar “intervenções muito sintéticas e muito geométricas. Não digo abstratas, mas muito geométricas.”Nesta viagem à intencionalidade da obra de Rui Chafes, o escultor analisou a sua própria obra e percebeu que, “no espaço branco, muitas vezes acontece o contrário, elas [as peças] são mais voluptuosas, mais orgânicas”.Rui Chafes garante que começou a trabalhar exclusivamente em ferro em 1988, depois de ter experimentado outros materiais.Trabalhar um material mineral, inorgânico, contrasta, porém, com a preocupação que o escultor revela ter em relação ao mundo, que passa pela entrega de “poder às máquinas”. “Há pessoas que não têm medo, há pessoas que defendem e há pessoas que têm medo e que atacam, mas o que está a acontecer é que a informatização progressiva de todos os nossos aspetos de vida, desde o dia a dia até aos aspectos emocionais, até aos aspectos mais íntimos e mais ideológicos, tudo o que nos compõe, está a ser cada vez que entregue a máquinas, à Inteligência Artificial, no fundo, a robôs”, argumenta, completando esta preocupação com a ideia de que “aquilo que parecia ficção científica rapidamente está a revelar-se como sendo real e está próximo de nós”. “Não é preciso ser muito atento para perceber que o risco é enorme, quer no controlo sobre nós próprios, quer de ausência de intimidade ou de segredo”, considera.No extremo disto tudo, o DN perguntou a Rui Chafes se uma escultura sua concreta, que é em simultâneo uma instalação – que conta sempre com a participação da bailarina e coreógrafa Vera Mantero, numa simbiose entre ferro e um corpo humano específico –, seria um bom exemplo de como a arte ainda é humana.“Essa escultura foi feita em 2004 para a Bienal de São Paulo, em 2004. Depois, foi mostrada no CCB [Centro Cultural de Belém], foi mostrada em Espanha, foi mostrada na Alemanha e foi mostrada em Serralves, há dois anos”, contextualiza o escultor.“A peça é gigantesca, está permanentemente em exposição, numa coleção particular”, descreve Rui Chafes, explicando que, “cada vez que é preciso mostrá-la, temos de desmontá-la, montá-la, desmontá-la. É uma peça difícil de montar. É imutável, é em ferro negro, mas há ali um elemento completamente mutável, humano e frágil, que é o corpo da Vera Mantero.”Desde a criação desta peça até agora, estima Rui Chafes, já passaram vinte anos, mas é a impermanência dela que “é muito interessante”. “Cada vez que desenho o corpo da Vera Mantero, o corpo está em mutação, e há de chegar um dia que já não é de todo o mesmo corpo. E não sei, quanto mais tempo o corpo vai manter-se. Quanto mais tempo o desenho vai ser possível fazer, e quanto mais tempo, sobretudo, a performance vai ser possível fazer naqueles termos. E como não é possível fazer por mais ninguém - só pela Vera -, é uma peça que está destinada a perder uma parte, e isso é muito humano”, conclui.O quadrado e o relevoA Depois de Para Sempre começa e acaba com 29 peças de Fernando Calhau, passando pelas três esculturas e pelo desenho de Rui Chafes, mas há incursões de Julião Sarmento em várias obras, começando por aquela que, numa lógica de ponteiros de relógios, inicia a exposição e que encerra em si uma “ironia”, como explica a curadora, Isabel Carlos. A peça chama-se Camisa e tem como único elemento colorido uma gravata que alterna umas riscas verdes com outras de uma cor que parece ir do salmão ao laranja. Está assinada em termos iguais por Fernando Calhau e por Julião Sarmento, que, em determinada altura fundaram um coletivo intitulado Silva Tavares & Cia. Lda., que surgiu sob a forma de empresa. A relação da gravata com a ideia da Camisa é a própria ironia de Fernando Calhau ter sido funcionário público durante toda a vida e usar muitas vezes gravata, sempre às riscas, ainda que pudesse ser monocromáticas, “mas sempre de malha”, explica Isabel Carlos.Porque a exposição segue uma ordem mais ou menos cronológica, nesta altura estamos em 1968. De qualquer modo, como relembra a curadora, é um tributo ao diálogo de 2002 entre Rui Chafes e Fernando Calhau, o que significa que contém “uma temporalidade descontinuada ou continuada”, mas é também “uma das belas histórias de amizade e de diálogo entre artistas”.A exposição de 2002 surgiu como um desafio, diz Isabel Carlos, como se estivesse a contar uma lenda.“Fernando Calhau, que estava a ficar doente - teve uma doença oncológica com alguma continuidade -, um dia telefonou a Rui Chafes e disse: ‘quero fazer uma exposição só de escultura e quero que a faças comigo’”, relata a curadora.Em relação a Julião Sarmento, a história é mais antiga, porque ambos foram colegas na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL).No final das década de 60 do século XX, explica Isabel Carlos, o contacto com a pop britânica - “que era diferente da pop americana e era muito evidente uma série de explorações que os britânicos estavam a fazer com o registro da pop art” - contaminou Fernando Calhau. “Ou teria sido ao contrário”, pergunta a curadora, sorridente, sem propor uma resposta. É neste contexto que surge a peça Relevo Branco, que é, tal como o nome indica, um relevo em forma de moldura numa folha branca.Mas tudo isto conduz a duas peças que evocam a pop art e que representam Marilyn Monroe, sem que qualquer uma delas tenha título.“Uma Marilyn não muito feliz, uma Marilyn um bocadinho trágica”, descreve a curadora levantando o véu de uma outra peça da coleção de Julião Sarmento que não chegou a esta exposição.“Não fazia muito sentido no discurso desta exposição. Há uma Marilyn em que Fernando Calhau associa a sua imagem a uma pistola. Há aqui um lado de morte trágica nesta série da Marilyn. A gravura era muito importante”, destaca, relembrando que esta forma de arte era um recurso importante nesta fase, no final da década de 60 e início da década de 70, porque era mais barato do que pintar, para além de acrescentar às peças a serialidade e a capacidade de edição.A meio da exposição, os visitantes vão poder ainda contar com uma incursão ao mundo da instalação de Fernando Calhau, que passa por umas palavras azuis em néon que evocam a razão, mas com duas expressões adaptadas: Ratio e oãzaR, propositadamente.No entanto, antes do fim, os quadrados, vários, foram um elemento fundamental na obra de Fernando Calhau. Por isso, uma das obras mais icónicas, intitulada Uma palavra... a cair para baixo, mostra a intenção do artista, ao inscrever a mesma expressão - uma palavra... a cair para baixo - em dois dos cantos de um quadrado.Depois de Para Sempre, conclui Isabel Carlos, é um diálogo entre três artistas, mas também é a sua “história”, contada através das obras..‘Ti Chitas’ no CCB sob a forma de ópera para dar uma ideia da “nossa voz coletiva”.‘John Gabriel Borkman’ no São Luiz questiona o “frio no coração”