O historiador Hugo Miguel Crespo e o antiquário e colecionador Mário Roque (junto ao faqueiro)
O historiador Hugo Miguel Crespo e o antiquário e colecionador Mário Roque (junto ao faqueiro) Foto: Paulo Spranger

“Faqueiro em ouro se não foi feito para o rei, foi com certeza para alguém da família real”

Historiador Hugo Miguel Crespo coordenou 'Magnânimo - Um Faqueiro de Ouro para o Rei de Portugal', livro em português e inglês da São Roque, no qual especialistas abordam a extraordinária peça.
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Magnânimo é o título deste livro que coordenou e que tem como ponto de partida um faqueiro em ouro do reinado de D. João V. É um faqueiro que se pode realmente pensar ter sido encomendado pelo rei para oferecer a uma amante? É essa a história contada pela família antes proprietária, certo?

Nós não conseguimos provar com documentação essa proveniência. Em especial em Portugal estas proveniências orais têm pouco valor. Não é fácil dizer com certeza que terá sido uma encomenda do rei para oferecer a uma amante, mas o facto de ser um faqueiro em ouro, excecional, remete-nos sempre para a esfera do rei. Se não foi feito para o rei, terá sido com certeza para alguém da família real. Considerando o estilo, trata-se de uma peça dos anos 40 do século XVIII, já numa fase de declínio acentuado da saúde do rei. É estranho que tivesse encomendado uma peça deste tipo para uma amante, uma vez que o período mais conhecido das suas aventuras amorosas seja os anos 20, e não os anos 40, quando está mais interessado em expiar os seus pecados e, portanto, mais empenhado em encomendas de âmbito religioso.

O reinado de D. João V é um reinado, lá está, magnânimo, pela abundância de recursos, nomeadamente o ouro do Brasil, que financia grandes obras públicas, como o Real Edifício de Mafra ou o Aqueduto das Águas Livres. É provável que este ouro venha do Brasil?

Sim, isso é um dado quase adquirido. Nós fizemos uma identificação elementar, química, das peças do faqueiro, portanto sabemos a composição da liga, mas muito mais importante do que isso, conseguimos identificar inclusões microscópicas de uma liga natural de ósmio e irídio que nos remete para os metais do grupo da platina. Não conseguimos dizer com certeza que se trata de ouro brasileiro, porque não temos os marcadores geológicos precisos, mas podemos dizer tratar-se de ouro aluvionar muito provavelmente de origem brasileira.

Estamos a falar de quase um quilo e meio de ouro usado neste faqueiro. Quantas peças?

Sim, é um conjunto para seis pessoas, dezoito peças; portanto, são seis garfos, seis colheres e seis facas, sendo que nas facas apenas o cabo é em ouro, as colheres e os garfos são em ouro maciço. Trata-se de um investimento material muito expressivo num objeto essencialmente de ostentação.

Se fosse muito usado seria possível saber porque existiriam marcas, certo?

Sim. Todas as peças foram vistas à lupa binocular e marcas de uso intenso não tem. Obviamente não se trata de ouro puro, mas de uma liga com prata e cobre para se tornar mais resistente. Está protegido no seu estojo original com ferragens de prata, mas o revestimento de veludo carmesim sim, tem bastantes marcas de uso, talvez por ter sido transportado de sítio em sítio, manuseado.

O faqueiro, que pertencia a uma família alentejana, no momento em que o colecionador e antiquário Mário Roque, que publica este livro, o adquire, tinha sido dividido entre diferentes membros da família proprietária. Como se conseguiu reunir tudo?

Metade do faqueiro estava com membros desta família, Assis e Santos, de Estremoz, amigos do António Lima, o diretor artístico da São Roque Antiguidades, e, portanto, abordaram-no no sentido da aquisição. O Mário Roque ficou interessado e adquiriu-se essa metade. Durante um ano houve várias tentativas pelo Mário no sentido de conseguir localizar as restantes peças do faqueiro e também o estojo. O estojo tinha ficado com o avaliador na altura das partilhas, e soubemos depois que também essa outra metade do faqueiro tinha sido, entretanto, vendida ao próprio avaliador.

Foto: Paulo Spranger

Este faqueiro já esteve exposto em Feiras Internacionais, como a de Maastricht. Há a possibilidade do faqueiro ir parar a um Museu Nacional e tornar-se acessível aos portugueses?

Sim. O nosso objetivo, quando editámos este livro, e se procurou reunir um grupo de especialistas em torno desta peça extraordinária, era produzir um dossiê que nos levasse a propor esta peça à tutela para a aquisição para um dos museus nacionais. Quando levámos a peça para Maastricht, o objetivo era dar a conhecer esta obra-prima da nossa ourivesaria, mostrar a excelência da arte portuguesa fora de portas. E foi considerada uma das peças-estrela da TEFAF, a mais importante feira de arte do mundo. Depois foi mostrada em Lisboa, e há interesse de um grupo de amigos de um museu nacional e espera-se que a tutela responda de forma positiva.

Como coordenador e autor, neste livro assina um estudo específico da peça, mas há outros historiadores que colaboram para explicar a época, como António Filipe Pimentel...

Este livro tem vários capítulos que contextualizam o faqueiro, e eu pedi ao António Filipe Pimentel para ele pensar uma espécie de biografia estética do rei. O texto dele, que, junto com outros autores que participam neste livro, é um dos grandes especialistas na produção artística do reinado de D. João V, o que faz é avaliar as escolhas estéticas do rei entre Paris e Roma, os dois principais centros de encomenda artística do rei.

No seu caso específico como historiador, além do seu papel de perito, a sua atividade tem muito que ver com o património artístico português, mas não se confina às fronteiras do Portugal de hoje. O seu estudo estende-se pela Ásia Portuguesa. Quer dar alguns exemplos do que tem estudado?

Sim, este livro centra-se na nossa ourivesaria do século XVIII, embora me tenha dedicado mais à ourivesaria portuguesa do século XVI, para o Museu do Tesouro Real; fui consultor científico desse projeto. Mas o meu trabalho, de forma mais geral, tem precisamente que ver com a arte produzida na Ásia para consumo português. Tenho trabalhado sobre a Índia, sobre os vários centros de produção de mobiliário, como na exposição que comissariei no Museu Nacional de Soares dos Reis em 2021, A Índia em Portugal, onde procurei mudar um pouco o paradigma no sentido em que foram os objetos que nos colonizaram, portanto, objetos feitos na Índia para o mercado português nos séculos XVI e XVII. Trabalhei também sobre os marfins religiosos do Ceilão português, e a arte religiosa cristã chinesa dos séculos XVI a XVIII, não apenas marfins, mas também pintura e escultura.

Foto: Paulo Spranger

Vamos focar na Índia, até pela excecionalidade que Goa tinha no Império Português, capital cristã do Oriente. Quando se fala na chamada arte indo-portuguesa, há algo que é fascinante, é que estamos a falar de objetos produzidos muitas vezes por artesãos hindus, mas que estão a responder a encomendas de católicos, tanto para consumo na Índia, como para consumo em Portugal e no resto mundo.

São oportunidades de negócio. Na Índia, quando os portugueses chegam, há uma certa tolerância quanto aos cultos locais. Mais tarde, com a entrada da Inquisição, isso muda. Temos a destruição, de forma concertada, dos templos hindus em Goa. Portanto, os artistas que trabalhavam para os templos tiveram de se adaptar às novas clientelas. E também a própria clientela teve de se adaptar. Há, por exemplo, uma série de leis contra a produção de objetos religiosos católicos por artistas hindus, que teriam de se converter. Mas o facto de termos várias leis, todas no mesmo sentido, de proibir, significa que essas leis não eram cumpridas.

É isso que explica que algumas peças dessa época, no fundo, possam ter figuras como o Menino Jesus com feições asiáticas. Talvez na China seja mais evidente. E também com elementos artísticos não automaticamente identificados como católicos. Isso acontece?

Sim, acontece. Não um sincretismo completo, mas obviamente que a plasticidade, a estética é muito local, goesa, produto de uma vernacularização das tradições artísticas do Concão e do Decão. E, portanto, os mesmos artistas produzem para clientelas diferentes, mas a estética é absolutamente a mesma. Em termos de feições, sim, claro que sim. Há umas feições mais asiáticas, mais marcadas na China, mas também em Goa.

Na época de D. João V, temos ainda o hábito de importar peças do Oriente?

Sim, com certeza. Isso existe mesmo hoje. Os mercados asiáticos produzem objetos que nos fascinam, sempre produziram, não só pelos materiais, como pelas técnicas e a iconografia. Basta pensar na porcelana, nos têxteis, tudo o que de alguma forma concorre com aquilo que era produzido na Europa. Mas em Portugal esse fascínio pelo Oriente traduz-se numa familiaridade que resulta de uma proximidade histórica que é bastante diferente do que encontramos em Espanha, França ou Itália.

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