Não é a primeira vez que entro na Galeria São Roque, mas fico sempre a pensar se estou num pequeno museu de arte ou antes numa espécie de gruta de Ali Babá, tantas são as preciosidades aqui expostas, entre mobiliário, pinturas, esculturas e joias, em boa parte legado das andanças dos portugueses pelo mundo, pois há por aqui muito mundo mesmo, sobretudo muita Índia e muita China. E por falar em China, antes de me sentar a conversar com Mário Roque, avisto a razão principal desta minha visita, os dois evangelistas de rosto oriental sobre os quais li no mais recente dos livros editado por este galerista que também é um colecionador (ou vice-versa). Sim, falo das duas figuras em madeira a representar São Lucas e São João Evangelista e que são magníficos exemplos do que é apresentado em Arte Cristã Chinesa: Dos Mares do Sul da China à Corte Imperial (1580-1900). Hugo Miguel Crespo, autor do livro e historiador que trabalha na equipa de Mário Roque, já tinha explicado noutra obra que estas esculturas tinham sido “provavelmente feitas por um escultor chinês especializado no fabrico de grandes estátuas destinadas a templos budistas ou daoistas”. Sim, artistas de longe a interpretar o que nos é próximo e a criarem uma arte sincrética. Datam os dois santos da primeira metade do século XVII, e serão do Sul da China, região de forte missionação cristã a partir da chegada dos primeiros portugueses em 1513 e, sobretudo, depois de Macau passar a estar sob governação portuguesa. O livro sobre arte cristã chinesa foi lançado em maio na 22.ª edição da LAAF (Lisbon Art and Antiques Fair), e o facto de ser em português mas também em inglês, explica Mário Roque, tem tudo que ver com as audiências além fronteiras, demasiado habituadas a ouvir a versão anglo-saxónica ou a francesa da expansão marítima europeia. O galerista é, aliás, pródigo a publicar obras que juntam a história da expansão portuguesa com a história da arte e oferece-as sempre que participa em grandes feiras internacionais. Com From the Old Continent to the World Portugal Leads Europe into the Modern Age, também deste ano, e escrito só em inglês, aconteceu o mesmo, explica. Foi uma forma da São Roque, e também a cultura portuguesa, se promover na mais importante feira de antiguidades, a TEFAF (The European Fine Art Foundation), que se realiza anualmente em Maastricht. Folhear esse livro lançado nos Países Baixos, e de vários autores, é percorrer a aventura dos Descobrimentos Portugueses. E não faltam os textos de enquadramento da aventura marítima iniciada com a conquista de Ceuta em 1415 e confirmada com a passagem do Bojador em 1434, que abriu portas para as caravelas portuguesas chegarem ao Golfo da Guiné, nunca mais parando ao longo de mais de um século até em 1543 três mercadores desembarcarem em Tanegashima. Outro texto fala de uma colher em marfim, da Serra Leoa, que tem esculpida a figura de um navegador português. Outro ainda, explica um Menino Jesus, de Goa, também em marfim. E ainda mais um descreve uma caixa ‘ventó’ fabricada por artistas do norte da Índia em teca, ébano, marfim, osso, pau-rosa, sândalo, latão e ferro, com acessórios em cobre dourado. Há também textos e fotografias de arte do Sri Lanka, Myanmar, China e Japão. “Em muitos casos, sobretudo no mobiliário, eram encomendas vindas da Europa e executadas por artesãos de vários países. Mas no caso da arte cristã chinesa servia para o culto na própria Ásia”, explica Mário Roque, segurando um exemplar do novo livro agora editado, com uma sobrecapa lindíssima que reproduz uma pintura atribuída a Giuseppe Panzi, que trabalhava em Pequim, feita por artistas chineses, com a orientação de Panzi, representando um antigo retábulo na Igreja de São José, em Pequim, da autoria do próprio italiano. Este livro sobre arte cristã chinesa lançado em Lisboa, assim como o anterior, lançado em Maastricht, juntam-se a outros que tem vindo a publicar, sempre recorrendo a um leque de historiadores especializados. The Age Of Discoveries- Portugal, The First Global Empire/L’Âge Des Découvertes/ Portugal, Le Premier Empire Global, edição em inglês e francês, é um deles. Lisbon at the Forefront of Chinoiserie - Portuguese Faience in the 17th Century é um outro, que dá pretexto ao galerista para uma pausa no tema da arte cristã na China e explicar-me a história da faiança portuguesa, a sua ascensão e queda. “Fomos nós que introduzimos na Europa, no final do século XVI, o gosto pelo azul e branco e começámos a fazer as primeiras chinoiseries. Vinham os serviços de porcelana da Companhia das Índias e os oleiros portugueses começaram a copiar, ou melhor, a reinterpretar. Tudo com uma criatividade que as faianças dos países que nos seguiram não tiveram. A pasta de Lisboa, e isto é pouco conhecido hoje, era a melhor do mundo. O melhor barro do mundo. Havia aqui em toda esta zona de Lisboa, no Poço dos Negros, no Alto de Santa Catarina, também na Mouraria. Era um barro muito fino, de uma qualidade fantástica. Ainda agora, quando se fazem escavações, mesmo para construir prédios, encontram-se vestígios de olarias”, conta Mário Roque, que sublinha que nesses finais do século XVI, primeira metade do século XVII, toda a Europa vinha comprar faianças a Portugal. “Era a Ásia a inspirar-nos, e a Europa a importar a faiança azul e branca, vidrada, que se produzia em Portugal. Os judeus portugueses, instalados em Amesterdão ou Hamburgo, participavam neste negócio, que, porém, durou uns 60 ou 70 anos e acabou. Porquê? A partir de 1650, Delft começou a copiar as nossas faianças. E embora a pasta fosse pior, a qualidade da faiança fosse pior, eram mais centrais, mais perto dos compradores, e mais competitivos. As próprias famílias reais europeias em vez de virem buscar a Portugal, compravam lá, que era mais barato”, explica o galerista. Nascido em Angola há 68 anos, mas a viver em Lisboa desde criança, Mário Roque é médico e até participou no primeiro transplante cardíaco em Portugal, mas desde sempre teve uma paixão pela arte. Numa anterior conversa, contou-me que herdou da mãe a faceta de colecionador. Maria Helena Roque era professora de Físico-Química, mas como grande amante de arte que sempre tinha sido, quando se reformou montou um antiquário também aqui na Rua de São Bento. De certa forma, o filho seguiu-lhe os passos quando decidiu ser galerista a tempo inteiro. “A minha mãe foi toda a vida uma grande colecionadora, porque tinha já bases familiares no domínio das antiguidades. E, desde os meus dez anos, começou a introduzir-me nesse mundo. Comecei a acompanhá-la a antiquários, a feiras, primeiro nacionais e depois internacionais. Incutiu-me este gosto e o desejo da procura e da descoberta, ir descobrir a peça ao fim do mundo se possível”, disse então, num artigo que teve o título “O homem que foi a Goa comprar um cofre de madrepérola e tartaruga que hoje vale um milhão”. De volta à publicação deste livro sobre a arte nascida dos contactos entre portugueses e chineses, Mário Roque sublinha que aquilo que cada vez mais lhe interessa é “o cruzamento de culturas, pois Portugal foi o primeiro império global”. Claro que o foco é a arte, acrescenta, mas “queremos divulgar outras coisas que nós portugueses fizemos no mundo, como, por exemplo, a revolução a nível da alimentação mundial, já no século XVI, da China para a Europa, da América para a Europa, e por aí fora, e sempre nos dois sentidos. Também as mudanças na medicina, na própria língua, como o português influenciou as outras línguas e foi por elas influenciado”. Também a religião fez parte dessa globalização, acrescento, basta pensar que boa parte dos 30 milhões de cristãos da Índia tem nome português, que as ruínas da Catedral de São Paulo, em Macau, são um símbolo do catolicismo na China, ou que no Japão há ainda quem se orgulhe de descender dos Kakure Kirishitan, os “cristãos ocultos” convertidos nos séculos XVI e XVII pelos jesuítas portugueses e que resistiram à perseguição dos xóguns. O galerista admite que ao dar a conhecer a expansão portuguesa lá fora, atrai a curiosidade. Uma exposição em Paris, por exemplo, atraiu a atenção do Museu Guimet, que pediu que lhe emprestasse cinco peças de faiança portuguesa para colocar ao lado das peças de porcelana chinesa do mesmo período. Mas mais impressionante ainda, destaca, “há dois ou três anos, o Museu de Xangai, que é o maior museu de porcelana do mundo, comprou-me também cinco peças”. Deixemos a faiança e a porcelana, e voltemos à arte sacra, e sobretudo às peças que misturam dois mundos, o europeu, cristão, e o sínico, com o omnipresente budismo, e também as religiões tradicionais chinesas, o daoismo, o confucionismo. A obra de Hugo Miguel Crespo agora editada por iniciativa de Mário Roque “não foi feita meramente para promover a imagem da São Roque ou vender algumas peças, mas para ser um livro de história da expansão portuguesa no Oriente, com exemplos de objetos, mas completamente independente da galeria. É essa a regra. Não há nada de comercial nos livros, só dão a conhecer as peças”. E que peças. Os dois santos com feições chinesas, que deveriam ser quatro, pois pensa-se que representariam os evangelistas; estas estatuetas de São Lucas e São João Evangelista devem ter sido encomendas para ornamentar uma Igreja da Europa, caso raro, escreveu Hugo Miguel Crespo, que as descreve assim: “Representadas como figuras descalças e sentadas, ambas são calvas e, com os olhos fechados, parecem estar em profundo estado de meditação. Vestem longas túnicas cingidas à cintura por cintos. Sobre a túnica com abertura frontal, a figura à esquerda veste uma volumosa capa, presa à frente por firmal quadrado, apoiando a mão esquerda no joelho esquerdo e recolhendo as dobras da capa sobre o joelho direito. A figura à direita, descansando a face na palma da mão esquerda, coloca a mão direita sobre um livro em forma de caixa (um códice). A característica estilística mais incomum em ambas é a forma angular das dobras dos mantos, em especial as onduladas dispostas sobre os ombros”. Os santos estavam na Alemanha, e foram identificados por um galerista espanhol que os fez chegar a Mário Roque. O livro mostra outras peças marcadas pelo tal cruzamento de culturas, como um Cristo crucificado, em marfim, da transição dos séculos XVI para o XVII, do Fujian, fixado numa cruz feita de ébano do Ceilão, atual Sri Lanka. .Antes de sair, Mário Roque chama-me a atenção para um recanto da São Roque, onde se destaca uma pintura em seda, montada sobre tela, de Santo António, que se pensa ser de 1770-1780, período que corresponde ao apogeu da dinastia Qing, pois coincide com imperador Qianlong. Trata-se de um Santo António que, apesar de nascido em Lisboa (ainda que muitos o digam de Pádua) exibe neste caso um ar oriental, tal como o Menino que segura no colo. E próximo está um São Pedro sino-português, do século XVII, igualmente do Sul da China, de madeira esculpida, lacada e pintada, com o primeiro papa com as chaves do céu na mão esquerda, enquanto faz a bênção com a direita. Mais dois exemplos de arte sacra cristã executada por artistas chineses. Está Mário Roque preparado para um museu famoso asiático surgir a querer reforçar a coleção com algum destes belíssimos exemplos da mistura de mundos? O sorriso e o silêncio diz quase tudo. Percebe-se que para o galerista sim, mas que ao colecionador, o homem desde sempre apaixonado pela arte, custará sempre a separação.