Originárias das zonas rurais de Portugal, estas danças folclóricas, comuns sobretudo em ocasiões sociais, foram introduzidas em Macau com a chegada dos portugueses. Após anos de evolução e da contínua incorporação de elementos locais, os intérpretes já não se limitam à comunidade macaense de ascendência portuguesa, havendo também muitos participantes chineses, o que evidencia o caráter inclusivo da trans- missão cultural e da interação entre grupos étnicos. Em outubro de 2025, as danças folclóricas portuguesas foram oficialmente inscritas na Lista do Património Cultural Imaterial de Macau.Manter viva a tradição: dançar o folclore português com perseverançaA Associação de Danças e Cantares Portugueses “Macau no Coração” (doravante designada por “Associação”) tem como antecessor o Grupo de Danças Folclóricas Portuguesas de Macau, fundado em 1999, aquando do regresso de Macau à China.Em 2006, foi oficialmente registada como uma associação local de beneficência e sem fins lucrativos, dedicando-se à promoção das danças folclóricas portuguesas.Enraizada em Macau sem esquecer as “origens”“Sentimo-nos muito felizes por, através da plataforma da Associação, termos reunido um grupo de amigos com os mesmos ideais para promover e transmitir esta cultura em conjunto”, partilha Ana Maria Manhão Sou. Atualmente, a Associação conta com cerca de 50 bailarinos, desde crianças a adultos, sendo que todos dedicam o seu tempo livre aos ensaios e às atuações.“Ao longo destes mais de 20 anos, como quem constrói um edifício, começámos do zero e fomos erguendo andar após andar. Naturalmente, desejamos que cada piso seja sólido e bem elaborado, pelo que, numa fase posterior, começámos a deslocar-nos a Portugal para intercâmbios, seguindo os padrões locais na aprendizagem de pormenores como o traje e a etiqueta.”Os bailarinos da Associação percorrem várias cidades portuguesas, visitam mestres reconhecidos e procuram captar a essência mais autêntica da tradição. Ana Maria recorda, com emoção, que desde as dúvidas iniciais até ao reconhecimento gradual, cada etapa foi difícil, mas profundamente significativa. “Hoje em dia, parceiros em Portugal também acompanham as nossas atuações. Apesar da grande distância que nos separa, partilhamos o mesmo propósito: promover e dar continuidade a esta tradição.”.Mais do que uma dança: um veículo de culturaAna Maria afirma: “As danças folclóricas portuguesas diferem de outros tipos de dança; são uma arte popular profundamente marcada pela identidade nacional, intimamente ligada à vida quotidiana, à história e à cultura das populações de outrora. Por isso, os membros que continuam a dançá-las até hoje são pessoas que, do fundo do coração, amam a cultura de Macau e de Portugal.”Ao mesmo tempo que preservam a tradição, estas danças têm vindo a integrar gradualmente elementos locais de Macau, desenvolvendo características próprias. Entre essas adaptações, destacam-se sobretudo as alterações musicais. “Por exemplo, introduz-se o patuá nas canções populares, ou reescrevem-se letras em chinês com base nas originais em português, evidenciando ainda mais a fusão cultural sino-ocidental característica de Macau.”O desenvolvimento das danças folclóricas portuguesas em Macau distingue-se também pela abertura à participação de diferentes grupos. “Depois de chegar a Macau, para garantir a continuidade desta tradição, as atuações deixaram de estar restritas aos portugueses; os chineses também podem aprender, e pessoas de diferentes origens dançam juntas - algo que vai ao encontro do elevado grau de inclusão cultural de Macau”, acrescenta Ana Maria.Segundo ela, a dança tem mesmo atraído pessoas de várias partes do mundo que estudam e trabalham em Macau e que se interessam por aprendê-la. Ana Maria vê esta tendência com entusiasmo e espera que cada vez mais pessoas possam experienciar o encanto desta arte.Acrescenta ainda que “as danças folclóricas portuguesas foram oficialmente inscritas na Lista do Património Cultural Imaterial de Macau. A Associação espera continuar a promovê-las nas escolas e insiste em apresentar um folclore ‘tradicional’ e ‘autêntico’, dando continuidade a esta tradição que, sendo representativa de Macau, tem vindo também a ganhar visibilidade internacional.”Texto de CHEANG MEI IENG Excerto da edição n.º 169 (fevereiro de 2026) da revista Macau (edição em chinês)Nota do editor: Exposição Um Vislumbre da Cultura Chinesa chega a LisboaA exposição dedicada às edições especiais Um Vislumbre da Cultura Chinesa, publicadas todas as quintas-feiras no Diário de Notícias em parceria com o Macao Daily News, está patente no Centro Científico e Cultural de Macau até 1 de maio. Mais de dois anos de diálogo e partilha ganham forma nesta exposição, que, através das páginas publicadas, abre as portas para a cultura chinesa. Convidamos os nossos leitores a visitá-la.