O Museu do Exame Imperial da China, em Nanquim, ocupa o antigo Centro de Exames Imperiais de Jiangnan (Jiangnan Gongyuan), fundado em 1168. Foi o maior centro de exames imperiais da China, com mais de 20 mil cubículos.
O Museu do Exame Imperial da China, em Nanquim, ocupa o antigo Centro de Exames Imperiais de Jiangnan (Jiangnan Gongyuan), fundado em 1168. Foi o maior centro de exames imperiais da China, com mais de 20 mil cubículos. FOTO: D.R. / Macao Daily News

Exame imperial ‘keju’: o principal sistema de seleção de talentos na China Antiga

Todos os anos, em junho, mais de 10 milhões de estudantes chineses realizam o 'gaokao', o exame nacional de acesso ao Ensino Superior, que abrange língua e cultura chinesa, matemática, línguas estrangeiras e várias disciplinas das áreas de ciências e humanidades. Trata-se, atualmente, do principal sistema de seleção de talentos na China. Mas existiu, na China Imperial, algo semelhante?
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A resposta é afirmativa. Esse sistema chamava-se keju – termo em que ke corresponde às diferentes disciplinas do exame e ju à seleção e recomendação de candidatos, designando, em conjunto, um sistema de seleção de talentos através de provas por disciplinas. O keju foi o sistema imperial de recrutamento de funcionários na China Antiga, criado durante as dinastias Sui e Tang, por volta do século VII, e aperfeiçoado ao longo das dinastias seguintes.

O seu princípio central era simples e revolucionário: independentemente da origem social ou da condição económica, qualquer pessoa que demonstrasse os conhecimentos exigidos nos exames podia ingressar na administração do Império. Ao longo de cerca de 1300 anos, o sistema formou mais de 700 zhuangyuan (primeiro classificado a nível nacional), cerca de 110 mil jinshi (letrados aprovados no mais alto exame imperial) e milhões de juren (candidatos aprovados nos exames provinciais, obtendo acesso ao nível seguinte).

À escala mundial da época, o keju foi um sistema de seleção de talentos extraordinariamente avançado. Para o Império, servia para recrutar funcionários; para os indivíduos, representava uma via de ascensão social. E isto não era mera teoria.

Durante a Dinastia Song do Norte, entre os séculos X e XI, viveu um homem chamado Lü Mengzheng. Na sua infância, ele e a mãe foram expulsos de casa pelo pai e sobreviveram em condições de extrema precariedade, vivendo numa construção em ruínas e dependendo da ajuda de terceiros. Apesar da pobreza, Lü Mengzheng continuou a estudar. Mais tarde, apresentou-se ao keju e conquistou o zhuangyuan (primeiro lugar), acabando por ascender ao cargo de primeiro-ministro. De jovem sem-abrigo a uma das figuras mais poderosas da corte, foi o sistema dos exames imperiais que lhe abriu a porta.

O que se estudava no keju? Não se tratava apenas de memorização. Os exames incluíam composição poética, redação de ensaios e análise de questões políticas e sociais. Entre os temas propostos pelos examinadores podiam estar perguntas como: “Como controlar as cheias?” ou “Como prevenir a corrupção entre os funcionários imperiais?”. Os candi- datos tinham de responder sob a forma de ensaios, apresentando propostas concretas de solução, o que incentivava o pensamento crítico e a atenção aos problemas da sociedade.

Além dos exames civis, existiam também exames militares, que avaliavam competências como a equitação e o tiro com arco, a par do conhecimento dos clássicos militares.

A partir de 1368 (no início da Dinastia Ming), os exames passaram a realizar-se de três em três anos, com a última etapa – o exame na corte imperial – a ser presidida pessoalmente pelo imperador. Os candidatos classificados nos três primeiros lugares (recebendo o título de zhuangyuan o primeiro, bangyan o segundo, e tanhua o terceiro) passavam a integrar diretamente a Academia Hanlin, o órgão consultivo imperial.

A pintura 'Exames Imperiais na Dinastia Ming' retrata uma sessão do 'keju' no Jiangnan Gongyuan. Ao centro encontram-se os examinadores principais; nas laterais, os examinadores assistentes; e, nos cubículos individuais, os candidatos sob a vigilância dos supervisores. A obra integra a coleção do Museu do Palácio Imperial, em Pequim.
A pintura 'Exames Imperiais na Dinastia Ming' retrata uma sessão do 'keju' no Jiangnan Gongyuan. Ao centro encontram-se os examinadores principais; nas laterais, os examinadores assistentes; e, nos cubículos individuais, os candidatos sob a vigilância dos supervisores. A obra integra a coleção do Museu do Palácio Imperial, em Pequim. FOTO: Macao Daily News

Embora o seu nível inicial fosse equivalente ao de um funcionário público comum de escalão médio, o que não representava um ponto de partida particularmente elevado, a Academia Hanlin era a principal via de acesso ao Grande Secretariado das dinastias Ming e Qing. O estatuto social dos seus membros era altamente reverenciado, tornando-a o destino mais cobiçado pelos letrados de todo o Império. Após vários anos na Academia Hanlin, passavam a integrar a Administração do Estado, permanecendo na capital como conselheiros imperiais ou altos funcionários da corte, ou eram nomeados para exercer cargos de relevo nas diferentes regiões do Império.

No século XVI, o missionário dominicano português Gaspar da Cruz (1520-1570) registou, na obra Tratado das Cousas da China, que o Império chinês selecionava os funcionários públicos através de exames especializados. O livro teve grande impacto na Europa e despertou o interesse de intelectuais e reformadores políticos pelo sistema chinês.

Em 1853, durante a reforma do serviço público britânico, o princípio do keju – o recrutamento através de exames públicos competitivos – foi parcialmente adotado. Mais tarde, países como França e Estados Unidos seguiram modelos semelhantes. Pode dizer-se, por isso, que o sistema moderno de exames para a Função Pública no Ocidente foi, em certa medida, inspirado pelo keju.

No entanto, durante as dinastias Ming e Qing, o sistema tornou-se progressivamente mais rígido. O conteúdo dos exames passou a centrar-se nos “Quatro Livros” e nos “Cinco Clássicos” do confucionismo, enquanto a redação ficou fortemente padronizada pelo formato do “ensaio de oito partes” (baguwen) – um modelo de escrita fixo, rigidamente estruturado e sujeito a regras estilísticas muito estritas –, formato que limitava a criatividade intelectual e desencorajava o estudo de áreas práticas, como a matemática e a engenharia.

Em 1905, o keju foi oficialmente abolido. Hoje em dia, o gaokao dá continuidade a práticas do antigo sistema, como as provas unificadas e a concorrência justa, embora tenha sido profundamente reformado. O gaokao não discrimina entre géneros e avalia disciplinas modernas como a matemática, a física e a química, oferecendo vias de admissão diversificadas e apresentando uma taxa de aceitação consideravelmente mais elevada, transformando, deste modo, um sistema de “seleção de elites para a Função Pública” num sistema de “acesso à Educação”.

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