A interpretação decadente do 'professor' Johnny Depp

Um dos grandes desastres deste verão. Johnny Depp péssimo como professor a despedir-se da vida em Adeus, Professor, de Wayne Roberts. Nos EUA, foi um fracasso. Outro embaraço na pior fase da carreira de Depp.

Johhny Depp em decadência? Se há filme para o provar é este Adeus, Professor, de Wayne Roberts, o relato de um professor de Inglês que decide fazer o que lhe apetece depois do diagnóstico de um cancro terminal. A sua relação com os colegas, alunos e mulher muda da noite para o dia e todas as suas ações e palavras são guiadas numa espiral sem filtros.

Depp dá a vida a esse homem no limite, capaz de engatar empregas de mesa sem problemas de consciência, dar os conselhos mais politicamente incorretos aos alunos ou dizer a verdade nua e crua a todos. Nesse aspeto, o guião do filme é uma espécie de cruzamento de Beleza Americana, de Sam Mendes com O Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir. Um cruzamento indigesto, capaz da lavagem emocional mais corrupta e desonesta e de uma camada de gordura no sofrimento das personagens. Todos e mais alguns clichés do desapego moral do homem de meia-idade que já conquistou tudo na vida e cujo lema de vida é o preguiçoso "aproveita o dia", com algum (muito...) sexo e álcool à mistura.

De resto, há um Depp em transformação cabotina deste homem "sem nada a perder", algures entre a imitação ridícula de Brando e um histrionismo nada subtil. Como se não bastasse, os seus anteriores papéis foram amaldiçoados: City of Lies, de Brad Furman, ainda não arranjou estreia nos EUA e London Fields, de Matthew Cullen, foi tão fracasso que na maioria dos territórios acabou por ser atirado para o Home Cinema. Resta agora apagar este período triste e esperar que Waiting for The Barbarians (um dos mais esperados do Festival de Toronto), de Ciro Guerra a partir de Coetzee, seja o seu verdadeiro grande regresso.

E o maior problema neste Adeus, Professor é a sua lassitude narrativa, demonstrativa de uma falta de vivacidade gritantes e onde o humor negro parece avariado e assinalado, como se o espetador fosse burrinho. O desastre é tanto que há erros de "raccord", em especial numa cena de um discurso supostamente inspirador deste Professor Cliché, onde Depp aparece com o copo a mudar de mão em micro-segundos... A culpa é de Wayne Roberts, cineasta que não sabe onde colocar a câmara e que mastiga todos os lugares comuns do melodrama sentimental. A lição de vida e de auto-ajuda é digna de um panfleto de televengelização, como se tudo se resolvesse numa aula fora da sala com o professor, ai! muito "rebelde", a dar passas num charro.

* Mau

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