Benito Mussolini se fosse vivo teria quase 150 anos. Esta peça inspirada em Mussolini quando é que foi criada?A ideia veio como inspiração em 2013. Mas, na verdade, só escrevi a peça em 2015. Tive então a oportunidade de fazer a peça em inglês em Praga, na República Checa, dentro de um festival. E tive que escrevê-la. Eu, geralmente, trabalho assim: antes eu tenho uma data e depois eu tenho medo [risos]. E comecei a escrevê-la.Então a primeira apresentação de Mussolini foi em inglês?Em inglês, sim. Agora tenho, além dessa em inglês, uma versão em italiano, uma versão em francês que apresentei em Avignon, e também uma versão em alemão. Porque em 2024, fui apresentar esta peça em Münster, na Alemanha. E depois na Áustria também, em Bregenz. A versão em francês teve muitas críticas positivas, entre elas de uma revista francesa que se chama Avignon à l'Unisson, que me deu o prémio do melhor espetáculo a solo do Festival Off Avignon, em 2017.Cresceu nas décadas de 1960 e 1970, anos em que a Democracia Cristã governava Itália e o Partido Comunista era o grande partido da oposição. Nessa altura, duas décadas depois da morte de Mussolini, o ditador fascista era já uma figura do passado?Não, porque, tecnicamente, uma figura transforma-se numa figura do passado quando as gerações que foram tocadas por essa figura morrem. Por exemplo, Napoleão. O seu corpo foi levado da ilha de Santa Helena e transportado para Paris 25 anos depois, porque era ainda um tema muito forte a nível emocional para os franceses. Depois de 70 anos da morte da figura, aí sim, a maioria das pessoas da sua época morreram. E agora, praticamente, em Itália, pessoas que, de uma forma ou de outra, tiveram uma relação com esse período já não existem. Mas se estamos a falar de 1960, 1970, estamos a falar de um período em Itália onde havia pessoas vivas que tinham uma relação de vida com o regime, pessoas que tinham pertencido ao regime. Houve em Itália um partido, o Movimento Social Italiano, que era de inspiração fascista. O fundador, Giorgio Almirante, era um fascista. O partido extremista ajudou a eleger três presidentes da República, porque na Itália são eleitos pelo parlamento. Era parte integrante da vida política italiana. Um espetáculo como este meu não podia ser feito em 1960, 1970. Não, porque é um espetáculo sem preconceitos. E a figura de Mussolini ainda tinha uma certa carga emotiva na época. Agora não, agora Mussolini é uma figura do passado. Mas que desperta interesse. E há muitos sintomas de que isto é verdade, não só a minha peça, mas a série televisiva, o livro M, de Antonio Scurati. Há muito interesse histórico. E a primeira-ministra Giorgia Meloni vem historicamente deste partido ex-fascista, mesmo se ela não é fascista em nada. O mundo mudou. A Itália é outro país, não é o país de 1960, 1970.Mas quando interpreta Mussolini e tenta dar uma visão humana de Mussolini, com as suas forças e as suas fraquezas, acha que consegue ser justo com a figura?Eu tenho verdadeiramente, a nível humano, uma grande admiração por Mussolini. Porque, no meu ver, ele foi um grande homem de Estado italiano.É uma opinião polémica, sobretudo em Itália.Sei que é uma opinião polémica, mas Mussolini era uma pessoa verdadeiramente inteligente, que falava muitos idiomas, tinha um passado político como socialista. Sim, houve um sistema totalitário na Itália. Mas não se pode ver a história com as lentes de hoje. Tem que se ver o que se passou nos anos 1930 na Europa, o bolchevismo, a Guerra Civil Espanhola e tudo isso. Havia um choque ideológico muito forte. Na classificação dos ditadores, é o verdadeiro último. Creio que Mussolini é uma figura muito italiana. Falo do ponto de vista humano. Ele também tinha uma fraqueza pelas mulheres. Era um pai de família, tinha cinco filhos. Hitler nunca teve filhos. Estaline teve dois filhos e um foi morto pelos alemães. A filha tinha uma relação difícil com o pai, e a mãe dela suicidou-se. Nadezna, a mulher de Estaline. Mussolini tinha cinco filhos, e Romano, o pai de Alessandra Mussolini, era um grande compositor de música jazz. Porque Mussolini estava obcecado com a música, ele tocava violino. O pai transmitiu o amor pela música ao filho, mas o filho Romano gostava do jazz. Bruno morreu num acidente aéreo. Vittorio queria ser produtor de cinema.Faz essa diferença entre a parte humana e a parte política? O erro foi aliar-se a Hitler?Sim, e a parte humana tem, depois, uma espécie de parte política. O problema, e estou a falar da história, é que o país, depois do embargo da Sociedade das Nações contra a Itália, por causa da guerra na Abissínia, foi empurrado para a Alemanha. Porque, de verdade, ele não admirava Hitler, enquanto Hitler, sim, admirava Mussolini. Porque Mussolini chegou ao poder em 1922, e para Hitler ele era, digamos, um exemplo, como uma via a seguir. Mas Mussolini tinha muita desconfiança pela figura de Hitler. Não a compreendia muito bem. Havia discursos contra os alemães, que via como um povo bárbaro, enquanto a Itália tem uma grande história. É uma aliança um pouco forçada, não sei como explicar. E o grande erro foi a participação na Segunda Guerra Mundial. E quero falar de outra coisa, porque é importante. Muitas pessoas em Itália criticam também as leis raciais. Mas não se pode esquecer que o fascismo foi fundado por 200 pessoas, em 1919, e três delas eram judias. E a pessoa que inventou a palavra Duce, que foi Margherita Sarfatti, que está no espetáculo, era judia. Quer dizer que o fascismo, no começo, não tinha esse traço de anti-judaísmo. Tudo, digamos, começa em 1936, quando a Itália se encontra isolada e o aliado natural torna-se a Alemanha.Mussolini foi destituído em 1943 pelo próprio Grande Conselho fascista italiano. E durante dois anos é quase uma marioneta dos nazis. E depois acaba executado pelos partigiani, e pendurado em Milão pelos pés. Referiu algo importante. Foi destituído pelo próprios fascistas. Não existe, acredito, uma destituição assim na história de outras ditaduras. Houve uma votação em 1943, e depois ele funda essa república no norte da Itália. Há uma situação onde o país praticamente se rende aos americanos. E a alternativa seria uma ocupação alemã total. Então, não sei, digamos que ele tenta salvar o barco um pouco, não sei como explicar..Mas esta morte dele, executado e depois pendurado numa praça em Milão, é uma humilhação para um homem que foi tudo.Eu creio que é um dos episódios mais terríveis da história da Itália, no sentido que não é muito claro como foi executado. Há quatro versões distintas. Não se sabe as razões, porque os americanos queriam-no vivo, por causa do futuro enfrentamento com o bolchevismo. Havia muito mais buracos no corpo, de balas, do que na roupa que tinha vestida. Ele foi executado muito provavelmente nu. A pessoa que estava com ele, Claretta Petacci, não tinha nenhuma função política. Era só sua amante. Então, por quê executá-la, isso eu não entendo. Essa humilhação existiu. Teria sido tudo muito mais honesto se fizessem um processo e o condenassem à morte, como o Iraque fez com Saddam Hussein, por exemplo. Mas matá-lo dessa forma não é uma razão de orgulho para os italianos. É uma vergonha. Para não esclarecer o que se passou a nível histórico através de um processo. Porque, claro, se tivesse havido um processo, tinham que chamar testemunhas, a Igreja Católica, o rei e tudo isso. Então, a mim parece-me que foi uma forma de eliminar uma testemunha incómoda da história. E isso não é muito bom. E, por certo, a Alemanha teve uma Nuremberga, mas a Itália nunca. Não houve um general condenado pelos aliados. E isso, a nível histórico, é um buraco. É um buraco na história da Itália. Muito grande.Disse que nos anos 60 não seria possível um espetáculo deste em Itália.Sim, um espetáculo cómico. De clown, de palhaço [risos].Quando faz este espetáculo cómico sobre Mussolini, sente que o público italiano reage de uma forma diferente dos estrangeiros?Sim, sim. Digamos que eu tenho tido quatro públicos. Italiano, inglês, francês e alemão. Quando faço o espetáculo na Inglaterra, divertem-se muito. Porque os ingleses têm um sentido histórico, sobretudo da Segunda Guerra Mundial, muito forte, mas ao mesmo tempo são muito críticos. Por exemplo, no espetáculo Mussolini canta o hino britânico e depois diz que é um hino para homossexuais. E quando estou a fazer este espetáculo na Inglaterra e digo que é um hino gay, há uma onda de riso inacreditável. Os britânicos riem-se deles mesmos. Isso não seria possível na Itália. Se cantasse o hino nacional italiano e dissesse que era gay. Mas os britânicos verdadeiramente têm um sentido de autoironia.A diferente reação não é por causa da figura Mussolini, mas sim pelo sentido de humor dos públicos? Sim. Os britânicos veem o espetáculo de um ponto de vista histórico. Os franceses, sim, também, mas a França tem um grande sentido de culpabilidade pela República de Vichy que era um regime autocrático que colaborou com a Alemanha Nazi. Os alemães estão verdadeiramente interessados também ao nível histórico, porque a Alemanha é um país que, em certo sentido, vive no futuro. Na Itália, a nostalgia é um pouco do passado porque o presente e o futuro parecem um pouco obscuros. Mas a Alemanha é um país que verdadeiramente, a nível tecnológico, poderia fazer exploração espacial, tudo isso, mas está somente um pouco travado por causa da Segunda Guerra Mundial. Agora com a guerra na Ucrânia, não sei. Mas pensam sempre muito no futuro, os alemães. Tecnologia, computadores, tudo isso. Sim, os alemães têm muito interesse também.Mas em Itália também se riem com o seu Mussolini, certo?O público ri. As instituições têm medo. Eu creio que os italianos têm muitos problemas que não têm nada a ver com o fascismo. Porque na discussão política italiana agora o fascismo e o antifascismo ainda vivem. Mas se eu tirar aos políticos o fascismo e o antifascismo, de que falariam? Dos problemas reais. Então é uma forma de não terem de falar dos problemas reais, creio.Deu vida a Mussolini também além do palco. No YouTube, por exemplo, há o próprio Mussolini, interpretado por si, a comentar a atualidade geopolítica.Sim, mas porquê? Porque eu escrevi o espetáculo em 2015. Depois veio a covid e as pessoas na França, na Itália e em Portugal experimentaram, digamos, um controle totalitário. Em Itália não se podia sair de casa e davam-te 400 euros de multa se fazias 200 metros. E depois o que aconteceu foi a guerra na Ucrânia. A Europa está em guerra. Em 2030 nós vamos fazer uma guerra contra a Rússia. Estamos num período de rearmamento. Se estudar a história da Primeira Guerra Mundial, de 1905 a 1914 todos os países europeus gastaram muito dinheiro em armamento. Agora gastamos muito dinheiro em armamento. Desafortunadamente, esse período da história parece-se muito com este agora. Ele pode comentar a geopolítica porque é real. O personagem é real. Ele tem a experiência da sua altura, pode comentar o que se passa agora, porque estamos a falar de um confronto com a Rússia. Não estou a falar do que é mau ou do que é bom. Eu creio que a história não tem uma moralidade. A história é a história. Claro que, de uma certa forma, a história também é escrita para as pessoas que ganham as guerras. Vai apresentar esta peça sábado e domingo em Almada. São três apresentações. Acha que o humor dos portugueses vai corresponder à sua personagem?Creio que sim. Interessa-me muito a história agora. Eu creio que conhecer o passado é um pouco uma vacina para evitar repetir os mesmos erros no presente. Mas é um espetáculo cómico. Estou a falar de coisas muito sérias, mas é muito cómico.O facto de fazer aqui em Portugal o espetáculo em italiano dá uma credibilidade maior à sua encarnação de Mussolini?Estou certo de que poderia fazê-lo também em português. Mas, quero dizer, é muito interessante agora ouvir Mussolini. E, sobretudo, existe uma geração, estou a falar de uma geração que tem 30 anos ou menos, que não sabe nada da Guerra Fria. Não sabe nada da Segunda Guerra Mundial. Muitos jovens italianos estão convencidos que a Itália combateu na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Estados Unidos.Este seu espetáculo também é uma lição de história? Sim. Tenho feito em França muitíssimo nas escolas secundárias. Na Alemanha também. Com muitos estudantes das escolas secundárias. Em Itália também. Comecei nas escolas secundárias, porque quando se estuda a história, o problema é que, geralmente, é ensinada a nível cronológico. Começa com os gregos, os romanos, a Idade Média. E a parte mais interessante, que é a história contemporânea, normalmente não se estuda. Porque não há tempo [risos]. Mas como hoje vemos um desmoronamento de um mundo que foi criado através da Segunda Guerra Mundial, penso que é importante conhecê-la..“Quando perguntamos aos nossos alunos por que querem aprender italiano, é sempre por prazer”