Está-se bem neste divã da psicanalista Farahani


Figuras femininas oprimidas e figuras masculinas repressivas num olhar às mudanças culturais desta nova Tunísia. "Antidepressivo Árabe" é uma comédia de Manele Labidi, uma franco-tunisina que se estreia nas longas-metragens.

O inconsciente de um país pode estar no dobrar de um sorriso? A realizadora franco-tunisina Manele Labidi acredita que sim nesta sua comédia Un Divan a Tunis, em português: Antidepressivo Árabe, história de uma psicanalista que chega de Paris para a sua Argélia com um sonho. Um sonho que é uma ideia de negócio: Selma quer estar num terraço de Tunis a dar consultas ao povo. O resultado é um sucesso estrondoso, ao ponto da própria polícia achar que é ilegal e obrigar esta trintona melancólica a meter-se em trabalhos burocráticos para poder continuar a sua atividade.

Selma vai perceber que por estes dias meter papéis para legalizar algo em Tunis é das maiores epopeias... Desde uma lentidão extenuante passando por um preconceito perante a psicoterapia, tudo é obstáculo.

Antidepressivo Árabe engendra uma série de peripécias entre o burlesco e cómico que relatam um estado de alma argelino. É igualmente um conto no feminino sobre mulheres que recusam lugares pré-determinados na sociedade. Selma não tem namorado, não sorri muito e prefere estar sozinha. É um retrato de personagem ancorado num naturalismo que a comédia francesa não costuma ter.

Golshsiteh Farahani é hábil a dar vida a uma protagonista que é vítima de uma própria divisão: não está bem em Paris mas também não se adapta à nova realidade de Tunis, onde a sombra do machismo reinante continua a falar mais alto. Quer ajudar a depressão dos outros mas não esconde a sua. Funciona como espelho da própria situação de Manele Labidi, cronista de um estado de espírito de uma nação e que nunca se engana ao resvalar para a caricatura. O registo ligeiro não abafa um espírito crítico, sobretudo no que toca ao preconceito perante as mulheres e aos equívocos daqueles que continuam a ter um olhar subserviente perante a ideia da cultura francesa.

Sobra sempre a Manele Labidi uma série de soluções de cinema na composição dos quadros sociais. Veja-se a maneira como filma um casamento da sobrinha da personagem de Farahani, em que a noção se status social provoca a cegueira perante um noivo gay. Se o próprio de uma comédia-conceito é exprimir ideia e observações, esta cineasta desconhecida em Portugal fá-lo sem facilidades e com um gosto pelo inesperado. No fim, fica uma visão por dentro dos contrastes da nova Tunísia. Uma visão bem humorada mas nem sempre feliz. Antidepressivo Árabe chega mesmo a propor alguma amargura ou não fosse uma narrativa sobre psicanálise na qual a personagem principal está toldada pelos blues"

Se a cineasta conseguisse ter evitado gagues algo simplistas (as cenas com a cabeleireira eram perfeitamente escusadas!), saudar-se-ia com muito mais entusiasmo esta proposta em que a força da palavra parece comandar a organização e a direção de cada cena.

Classificação: *** (Bom)

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