É a terceira exposição de arte contemporânea que coloca artistas em diálogo com a Coleção Albuquerque de Cerâmica Chinesa, com cerca de 2600 peças criadas ao longo de seis séculos de história. Phoebe Collings-James, artista britânica de origem jamaicana, apresenta a exposição Nature Boy, título inspirado numa canção de Nat King Cole. Algumas das peças exibidas foram produzidas no âmbito da residência da artista na Fundação Albuquerque, criada pelo colecionador Renato de Albuquerque, em Sintra. O diretor da instituição, Jacopo Crivelli Visconti, explica que as três exposições realizadas até agora no pavilhão para exposições temporárias complementam-se, sendo que é a primeira vez que são produzidas obras especificamente para uma mostra, em colaboração com a escola de artes Ar.Co. “É algo novo que trazemos para a exposição. Tal como nas anteriores exposições do programa contemporâneo [de Theaster Gates e Nina Beier], tentamos pôr o artista em diálogo com a coleção. Neste caso as relações são mais tangíveis pelo facto de a Phoebe ter estado cá fisicamente, tendo tido oportunidade de ‘sentir’ a coleção e a Fundação como um todo”. . Inaugurada no sábado, dia 7 de fevereiro, e patente até 10 de maio deste ano, é a primeira exposição de Phoebe Collings-James em Portugal, uma artista multifacetada que explora vários meios, incluindo o som. Em Nature Boy podem ver-se esculturas em cerâmica, pinturas e elementos naturais, como terra espalhada pelo chão e um ramo de árvore seco, materiais naturais recolhidos no jardim da Fundação, onde está também exposta uma das esculturas. A relação das peças em exibição com a coleção de porcelana chinesa da Fundação Albuquerque não se limita ao material utilizado, estendendo-se aos próprios modos de produção da cerâmica. “Fala com a coleção ao nível da técnica milenar, na qual ainda hoje não somos bons. Num tempo em que se fala de progresso, crescimento e obviamente Inteligência Artificial, e de todas estas coisas corresponderem ao conceito de progresso tecnológico, é uma questão política e é interessante a relação com estes materiais e processos”, disse Phoebe Collings-James na apresentação à imprensa da exposição. .“A razão porque gosto de trabalhar com barro como parte da minha prática artística e escultural é por causa destas coisas, o poder viver e pensar através destas ideias políticas com um material que é intrinsecamente político, sensual e corporificado.”Uma das características do trabalho em cerâmica é que precisa de um forno, e daí a colaboração com a Ar.Co ter sido essencial, uma vez que na Fundação Albuquerque não existe esse equipamento. “Trabalhar com a escola significou que explorei diferentes processos de cozedura, alguns que nunca utilizei a esta escala antes”, sublinha. . Além das peças concebidas propositadamente para Nature Boy, Phoebe Collings-James mostra várias obras da série Infidels. Estas peças com formas “antropomórficas e zoomórficas”, descreve Jacopo Crivelli Visconti, remetem para várias referências, e há quem veja nelas monstros. “O meu instagram é phoebthegorgon, penso muitas vezes em monstros”, afirma a artista, explicando, no entanto, que as esculturas nasceram de “como sentimos o nosso corpo quando fechamos os olhos, os nosso órgãos internos”. “Agora também as vejo como alguma espécie de monstro”, concede. Algumas esculturas, feitas com pigmentos e esmaltes ferrosos e escuros, também exibem palavras, ou, como se lê na folha de sala, “signos e marcas que surgem quase como cicatrizes ou tatuagens” e que “podem ser lidos como indícios de resistência”. Por exemplo, numa peça lê-se “strike” (greve) e noutra “caos”. “As palavras evocam coisas em que estou a pensar, são uma livraria de emoções e ideias”, diz Phoebe Collings-James. . Há peças que parecem em estado de desequilíbrio e só não caem porque a artista concebeu um sistema que as mantém de pé. Esse trabalho com as peças dá-lhe muita luta, admite, mas “lidar com arestas e precipícios é interessante”, acrescenta. Esta exposição revela ainda outra dimensão do trabalho da artista britânica, que em Londres criou, em 2019, o projeto Mudbelly Ceramics, que oferece cursos de cerâmica gratuitos a pessoas negras, ministrados por também por ceramistas negros.Como sublinha Jacopo Crivelli Visconti, há uma vertente performativa no trabalho de Phoebe Collings-James que nesta exposição está patente na terra no pavimento, que com a passagem dos visitantes tenderá a modificar a forma como foi espalhada. E está também nas pinturas na parede, trabalhos mais antigos da artista, que resultaram de performances em que ela dançou sobre as telas e pintou com os pés, com óleo, até não poder mais. Apesar de terem sido produzidas há 12 anos, a artista considera que há relações que se podem estabelecer entre o uso de óleo e barro “de forma crua”. .O ano em que o húngaro Arpad Szenes terá uma exposição só dele."Não estamos a atacar ninguém, só a zelar pelos interesses da produção artística e defesa das instituições"