O conceito “imaginação” pode ter múltiplos significados, sendo que a “capacidade de inventar” está subjacente à maioria deles. Após ter publicado Imaginação – Cores, Deuses, Viagens e Amores, Francisco Louçã regressa ao título e altera o subtítulo para Utopias. Ciências e Vida Quotidiana. É essa a enorme área a que se dedicou neste volume, em muito a registar o estado em que o ser humano se encontra na sua vivência contemporânea, situação que o quadro O Grito de Munch que faz capa bem ilustra. O autor explica a necessidade social das utopias e o combate que lhes é feito tanto pela palavra como pelas armas; segue-se o poder da ciência e a importância do quotidiano. Um percurso gigantesco através dos tempos, dos conhecimentos e das épocas que foram modificando os habitantes da Terra e que, apesar das boas promessas literárias, ideológicas ou filosóficas feitas, estes nunca foram capazes de interromper o curso da história num sentido mais poético e realizar o sonho de uma humanidade menos imperfeita. É este caminho de pedras e de areia fina que Louçã irá percorrer em dezenas de (sub)capítulos, a que vários quadros informativos acrescentam informação cronológica fundamental, bem como listas que completam as sucessivas narrativas. Recorde-se que há uma premissa que envolve todas as utopias: “As descrições da sociedade utópica […] procuram apontar para novas condições de felicidade” e o autor percorre-as todas para contabilizar a súmula da “essência humana” que surge da “acumulação cultural”. .IMAGINAÇÃO (2)Francisco LouçãBertrand600 páginas QUANDO O BIG BANG NÃO CHEGAO mais recente ensaio do físico Carlos Fiolhais trata de uma matéria que há séculos atormenta uma parte da humanidade: o que acrescenta a ciência à fé e em que é que a fé pode ser certificada pela ciência. São mais de trezentas páginas em que o cientista vai construindo “diálogos para a salvação do mundo”, recolhendo depoimentos, exemplos e questões sobre o assunto. O modo como o faz é importante, pois vai juntando peças de modo a responder à pergunta com que abre o ensaio: “Serão a religião e a ciência opostas?” Sem querer fazer um spoiler, ainda não será desta vez que todo o universo de dúvidas e certezas que se encontram em torno desta questão fundamental para os que têm fé será respondida. Se o fosse, Fiolhais teria ultrapassado todos os avanços e recuos que a humanidade já percorreu no seu caminho deste conhecimento e estava a oferecer a luz a todos os crentes. No entanto, sendo essa meta impossível de se concretizar, pois o contraditório nunca o permitirá, o cientista vai de capítulo em capítulo a iluminar muitas das questões que o binómio ciência/religião provoca. Com a particularidade de recorrer a muitos testemunhos, leis e interrogações que tanto os protagonistas de um lado como do outro continuam a praticar. Um dos acrescentos importantes no tempo em que vivemos é o capítulo que trata da ciência para as outras religiões que não o cristianismo, se bem que a atualidade se impõe e a Inteligência Artificial não ficou de fora. Um debate em centenas de páginas e a que Carlos Fiolhais dá mais um impulso. .DEUS E A CIÊNCIACarlos FiolhaisD.Quixote325 páginas A VOCAÇÃO DE EDITORAo longo da história da edição de livros tem existido sempre uma figura nos bastidores que é fundamental para que o leitor ao entrar numa livraria possa encontrar o título que procura. É o desvendar desse trabalho que a maioria dos leitores desconhece que o fundador da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, executa em O Primeiro Leitor, que descreve como um “ensaio de memória sobre livros, leitores, editores e escritores”. Faz questão de considerar uma história coletiva as suas fragmentadas memórias de editor, profissão que revela ter seguido por acaso. Buscando as origens, faz questão de retirar a Gutenberg a originalidade de ter impresso o primeiro livro para conceder a graça desse benefício de editor a Aldo Manuzio, mas também expõe a sua diferença em relação a outros profissionais do setor, recuperando a história do editor judeu Alfred Knopf e dos seus escritores Thomas Mann e Camus, bem como os brasileiros Jorge Amado e Guimarães Rosa. Curioso é o registo histórico dos primeiros tempos da sua editora e de como era o mercado, da concorrência, a relação com a crítica e de como colocou a empresa ao serviço do leitor. Curiosos são também os relatos das relações com escritores, como Bruce Chatwin. Gore Vidal, John Updike ou Susan Sontag, entre muitos outros, bem como toda a gestão gráfica da literatura. Ótimo para quem gosta de saber a vida dos livros além do produto que chega às livrarias. .O PRIMEIRO LEITORLuiz SchwarczCompanhia das Letras293 páginas “HOMERO NUNCA EXISTIU”Gustave Flaubert escreveu no seu Dicionário de Ideias Feitas a expressão que está no título acima. Não terá sido por acaso, é que a autoria da Odisseia e da Ilíada era tão debatida, que se julgava até poder ser apócrifa, na época em que viveu, com um grande debate sobre várias teorias relativas ao compositor dos dois poemas, por exemplo, a de que era um cantor cego que percorria a Grécia a mendigar. Alberto Manguel faz um histórico destas duas obras e ainda vai no início quando afirma “Ninguém é dono de Homero” para retirar a qualquer leitor esse privilégio de se tornar proprietário das epopeias. Considera que por norma “a biografia de um livro não é a biografia do homem que o escreveu, só que, no caso de Homero e dos seus poemas, uma anda de mão dada com a outra.” Daí que em capítulos à frente, o autor faça a posteridade de Homero e dê exemplos de como foi a menorização feita por Dante ao colocar o poeta no inferno e anos mais tarde, na mesma Itália, ter um lugar de honra nos aposentos papais. Montaigne também o destacou como “um dos três homens mais 'excelentes' de todos os tempos” e Shelley condensou “a Grécia era Homero". Ou seja, uma enorme biografia sobre os poemas do grande poeta e a reconstituição possível da sua vida. .A ILÍADA E A ODISSEIA DE HOMEROAlberto ManguelTinta da China286 páginas15 FILMES A JULGAMENTOQuando um bom título se junta a uma ótima escolha de filmes para serem analisados à luz do Direito por autores dessa área que aprofundam o significado do que se viu nas salas de cinema, e agora ainda possível no pequeno ecrã, é difícil não indicar Guiões Silvestres para um Óscar. Sob a coordenação de Ana Paula Pinto Lourenço, analisam-se as imagens projetadas de vários filmes que resultaram de argumentos excecionais e que, por várias vezes, permitem que a sua análise se preste a uma espécie de julgamento num tribunal de opinião cinéfila e do que a Justiça pode acrescentar. Não se podendo referir passagens de todos os textos que desfilam pelo livro, que para a responsável não se destina apenas a juristas, mesmo que seja esse o olhar destes dezasseis autores que focam a sua apreciação em termos mais de Ética, Deontologia e Direito, pode-se referir que entre o texto inicial, Franz Kafka visto por Orson Welles: O Processo, e o último, Jurado nº2, existem múltiplas sessões em que a perspetiva do Direito percorre um caminho paralelo ao da vida dos personagens e dos casos judiciais em que estão envolvidos na tela. No entanto, sem se querer destacar nenhum capítulo, dê-se como exemplo o dedicado ao filme The Truman Show, talvez uma das maiores antecipações ao nível cinematográfico sobre o fim da privacidade pessoal, a par da impossibilidade da escolha do destino, com que a humanidade convive hoje e que à data do seu lançamento mais parecia uma comédia trágica do que a profecia em que se transformou. Tal como a maçã, um capítulo por dia de Guiões Silvestres ajuda a entender os males que nos rodeiam. .GUIÕES SILVESTRESAna Paula Pinto LourençoParsifal230 páginas.Poderia ter sido uma distopia