O escritor Sandro William Junqueira fecha a tetralogia com este novo romance.
O escritor Sandro William Junqueira fecha a tetralogia com este novo romance.

Poderia ter sido uma distopia

O novo romance de Sandro William Junqueira tinha tudo para ser uma previsão futurista, no entanto, a realidade apropriou-se do que seria uma ficção.  
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Com a publicação do romance Os Sapatos de Khatchaturian, o escritor Sandro William Junqueira dá por finalizada a tetralogia A Arquitetura do Medo. A 'pedra' que finaliza este arco literário não começou a ser escrita recentemente, antes data de há mais de uma dúzia de anos e foi interrompida por necessidade de pagar as contas. Recorda o autor: “A vida intrometeu-se e como a escrita não é uma profissão, abandonei o livro. Entretanto, no início deste ano, ao confrontar-me com certas realidades, lembrei-me do que tinha escrito e fui buscar o texto que já levava mais de uma década esquecido. O que estava feito somava umas 150 páginas (o romance tem 360 páginas), que li a grande velocidade mal entrei em casa. Foi um momento inesperado porque o livro estava a pedir para ser terminado e o que estava escrito tomou-me de assalto. A partir daí fui escrevendo o que estava em falta.” O processo que se seguiu foi vertiginoso, como refere: “Entrei numa espiral de escrita sem paragens até o romance ficar pronto”.

A história de Os Sapatos de Khatchaturian nada tem de autobiográfico, nem é insípida como a atual ficção dos autores nacionais, quase todos desligados do real e preocupados em seguir as modas literárias para vender mais livros. Para Junqueira, esse não é o caminho: “Enquanto escritor, o que me importa é os leitores comprarem o meu livro pelo que é e as minhas únicas duas regras são a estética e a ética. É assim que escrevo o melhor livro que me é possível, olhando para o que me rodeia para perceber o que devo escrever. Não consigo viver a escrita de outra forma e sei o que quero fazer. Quanto aos meus contemporâneos, admiro muitos deles, mas cada um faz a sua obra e segue o seu caminho.”

O que mais surpreendeu Sandro William Junqueira ao reler o texto antigo foi confrontar-se com dois tempos demasiado iguais, como explica: “É impossível ao escritor não se perguntar sobre o que deve fazer perante o estado atual do mundo e o que foi mais estranho ao voltar ao livro iniciado mas nunca terminado foi ver que o que escrevi há mais de uma dúzia de anos está muito atual nos dias de hoje. Então, disse para mim, que não podendo passar ao lado deste momento obsceno em que está a história da humanidade, era minha responsabilidade escrever sobre o que se passa porque se não fizermos alguma coisa, daqui a uns tempos a humanidade será uma peça de museu de algum fundo de investimento e teremos de pagar para ver o que foi a humanidade.”

Para o escritor, a atualidade obriga a uma ação: “Creio que é um livro muito atual e, principalmente, já não pode ser considerado uma distopia. Os tempos que vivemos mostram que não é e até ficaria ofendido se alguém disser que sim, que é uma distopia. Na minha opinião, pode-se hoje cada vez mais utilizar aquela velha frase de que a realidade supera a ficção para caracterizar o estado do mundo, uma situação que foi ao encontro das premissas que já estavam na primeira versão deste texto, no seu chão e nas suas fundações.” Entretanto, a realidade deixou de ser como, por exemplo, no pós-II Guerra Mundial: “Foi um período de alguma acalmia na história da humanidade em que a vida das pessoas melhorou, no entanto, se foi de algumas décadas enquanto tempo histórico foi curto, e agora vemos em direto os protestos por falta de habitação e a falta de dinheiro para comer, enquanto em Wall Street é notícia que Elon Musk é o primeiro trilionário da história da humanidade. Há qualquer coisa absolutamente errada num momento como este, que deveria provocar reações nas pessoas e questionar-se como o dinheiro comprou o poder político, a comunicação social, o poder judicial, até o desporto.”

Os Sapatos de Khatchaturian começa com uma cena de caça às codornizes, situação que hoje se pode considerar politicamente pouco correta. O que pensa Sandro William Junqueira desta infração às modas? Diz: “Nada tenho a ver com isso, até porque a questão do politicamente correto não pode entrar na literatura. Se eu começo a pensar nessas coisas, então não escrevo. Além de que o faço sobretudo para mim e também considero que os escritores escrevem o livro que gostavam de ler. Se começo a adocicar ou a filtrar, não será o que quero. Se há algo em que não cedo é na minha liberdade, porque a literatura não é um passatempo nem uma comédia romântica para digerir e deitar fora. A literatura deve inquietar e obrigar os leitores a olhar para o que não querem ver. A literatura deve ser perigosa e provocar uma mudança. Nunca me esqueci do que disse uma vez Tolentino Mendonça, de que «se um livro não nos dá porrada ou desassossega, então não é um bom livro».”

O nome Khatchaturian não surge do acaso, é uma derivação do nome do compositor arménio Aram Khachaturian, sobre quem um amigo de William Junqueira estava a escrever um guião: “O nome vem daí, quanto à história do pai e do filho é uma ideia de há muito tempo, de quando me interessava muito pelas filosofias e religiões orientais, e pensei no fundador do budismo e de quando Siddhartha sai do palácio do pai para ir em busca da iluminação. Ele é casado com uma mulher que está grávida de oito meses e ninguém fala sobre esse filho, apenas dos feitos e de tudo o que o buda passou para conseguir atingir o nirvana. Essa questão do abandono da mulher e do filho ficou na minha cabeça, uma situação que acontece com outros líderes revolucionários que deixaram também tudo para trás, e quis colocar essa situação no livro. Nunca pensamos naqueles que foram abandonados e foi desse conflito que criei os três personagens. É uma das linhas do livro, mas as interpretações podem ser outras. Isto era o que estava no meu inconsciente e só quando terminei o livro é que entendi o que tinha feito.”

OS SAPATOS DE KHATCHATURIAN

Sandro William Junqueira

Editorial Caminho

361 páginas

UMA HISTÓRIA DO BRASIL

O gigantesco romance Um Defeito de Cor de Ana Maria Gonçalves foi o segundo livro que a autora escreveu e, provavelmente, aquele que a colocará definitivamente na lista dos livros mais importantes para entender o Brasil e as questões raciais que perduram desde há muito e que os duzentos anos de independência não foram ainda capazes de eliminar. A história que inspira o romance é verdadeira, a de Luísa Mahin, mesmo que a História brasileira não a reconheça suficientemente, e relata o percurso da protagonista, a antiga escrava Kehinde, através de um regresso a África após ter vivido no Brasil desde os oito anos. A viagem ao país de origem, o antigo Reino do Daomé, é o cenário inicial do grande retrato que a autora pretende fazer com este romance. Na introdução, Ana Maria Gonçalves confessa que o livro nasceu de um acaso após encontrar um romance de Jorge Amado, em que o escritor baiano solicitava publicamente a necessidade da escrita de um romance sobre a escravatura. Depois houve outras situações que a encaminharam para esta obra e Um Defeito de Cor veio para contar muito daquela saga de quem perdeu a liberdade e a terra onde nasceu para sobreviver ao mando de capatazes.

UM DEFEITO DE COR

Ana Maria Gonçalves

Bertrand Editora

958 páginas

Diário de Notícias
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