Mansoureh vive exilada em França desde 2011, depois de fugir do Irão com o marido uns anos antes. Mas acompanha com preocupação a situação no seu país natal.
Mansoureh vive exilada em França desde 2011, depois de fugir do Irão com o marido uns anos antes. Mas acompanha com preocupação a situação no seu país natal.

Em ‘As Linhas que Traçam o Meu Corpo’, Mansoureh volta à juventude em Teerão para libertar “o corpo e a mente”

Antes da vinda a Portugal para participar no Amadora BD, a desenhadora iraniana falou com o DN por Zoom a partir de Paris, onde vive exilada desde 2011. Uma conversa em torno do seu álbum de estreia, As Linhas que Traçam o meu Corpo. Mas também sobre a situação atual no Irão e sobre o sonho de um dia voltar ao seu país natal, já liberto dos ayatollahs.
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Mansoureh Kamari tinha 9 anos quando percebeu que enquanto mulher nunca seria tratada da mesma forma que os irmãos. Naquele dia, em que passou a ser legalmente considerada adulta, um véu veio cobrir os cabelos da mais nova de seis filhos de uma família da classe média iraniana. E tudo mudou. Passadas mais de três décadas, a desenhadora iraniana volta a este episódio no seu primeiro álbum de banda desenhada As Linhas que Traçam o Meu Corpo. Uma obra de estreia onde a iraniana, exilada em França desde 2011, conta a juventude no seu país de origem, sob o regime dos ayatollahs, e depois a fuga com o marido e a nova vida em Paris, longe de um regime fundamentalista religioso.

Numa conversa por Zoom com o DN antes da sua vinda ao Amadora BD (que decorre de 15 a 25 de outubro), Mansoureh admite que o que a levou a avançar para esta primeira obra foi “mais uma questão de controlo sobre a minha mente do que sobre o meu corpo”. Por isso escolheu contar a sua própria história. “Tinha uma paixão por contar histórias. Mas depois fiquei com muitas inseguranças e então percebi que uma forma de ultrapassar essas inseguranças talvez fosse começar por mim mesmo, para tentar perceber porque sentia tanto medo”.

E voltando àquele momento em que uma menina de 9 anos percebeu que não era igual aos irmãos, Mansoureh, hoje com 42, explica: “Foi a primeira vez que senti a diferença. Sabia que ia a escolas diferentes dos meus irmãos, mas a partir daquele dia tinha de cobrir a cabeça. Precisava de cobrir o corpo. Foi como se fosse o primeiro passo para perceber que enquanto mulher não ocupava o mesmo lugar”. E admite: “Provavelmente devia ter percebido isso através da minha mãe. Mas talvez a consciência da criança seja a que nos leva de volta a nós próprios. Assim, talvez, mesmo observando as mulheres à minha volta, não tivesse consciência de que este seria necessariamente o meu futuro”.

Criada numa casa onde a BD não entrava e onde uma edição de O Triunfo dos Porcos, pertencente ao pai, se destacava “não sei bem porquê”, como confessara há um ano numa conversa com o Le Monde e que agora confirmou ao DN, a iraniana lembra que as histórias aos quadradinhos eram “algo realmente luxuoso”. E que se os jornais ou revistas, quando era pequena, podiam trazer uma ou outra tira de BD, garante que só muito mais tarde, “talvez aos 20 ou 21 anos” é que terá lido o seu primeiro álbum de banda desenhada - Persepolis, da sua conterrânea Marjane Satrapi. Nessa BD, Satrapi conta o seu entusiasmo com a queda do xá e a implantação da República Islâmica, apenas para rapidamente perceber que a revolução não trouxera necessariamente um regime menos opressor. Pelo contrário.

“Quando li o livro dela, inspirou-me a contar a minha própria história”, recorda Mansoureh, para a qual “ter uma mulher iraniana a falar sobre si própria, foi muito inspirador”.

A viragem na vida de Mansoureh Kamari deu-se em 2005 quando um desenho do marido, também ele desenhador e autor de BD, num jornal iraniano, provocou uma onde de protestos por parte da minoria azeri e valeu-lhe a prisão por desacato à ordem pública. Mana Neyestani aproveita uma saída precária da prisão para fugir do país. Depois de passagens pelo Dubai e a Turquia, Mana e Mansoureh passam mais de quatro anos na Malásia antes de, com o apoio dos Médicos sem Fronteiras e da Rede Internacional de Cidades Refúgio (ICORN), acabarem por chegar a Paris, onde se instalaram e ainda hoje vivem.

Em França, Mansoureh aproveita para estudar animação. Formada em Design Industrial pela Universidade de Teerão, em 2012 iraniana vai estudar animação em Les Gobelins , antes de fazer um estágio em Los Angeles, onde trabalha nos desenhos dos Estrumpfes para uma longa-metragem sobre as criaturinhas azuis criadas por Peyo e perseguidas por Gargamel e o seu gato Azrael.

Mas depois de anos a desenhar as personagens dos outros, Mansoureh percebeu que chegara a hora de dar vida à sua própria história. “Quando se trabalha com design de personagens, aprende-se a trabalhar com as formas, em como torná-las adaptáveis à animação, o que é muito técnico”, explica. E admite que “a certa altura, cansei-me. Estava a tornar-se repetitivo. Para o meu livro queria fazer algo livremente”. Por isso enveredou pela BD em vez da animação, por exigir menos meios, menos produção.

Uma forma de libertar a sua mente, passou também por libertar o corpo. Talvez por isso Mansoureh tenha incorporado no livro a sua experiência como modelo de nus.

“O trabalho deles fascinou-me. Então decidi colocar-me no lugar deles”, recorda agora. E foi o que fez - uma experiência que, mais tarde, desenhou. “Quando estava a fazer o livro, achei interessante incluir estas imagens do corpo. A figura de uma mulher. E a mente, também”.

Neste As Linhas que Traçam o Meu Corpo, outra coisa que chama a atenção é a palete cromática que Mansoureh usa: preto, branco e vermelho. “Adoro filmes a preto e branco”, confessa Mansoureh ao DN, acrescentando: “e adoro trabalhar com o contraste”. Foi também a forma que encontrou para dar vida aos flashbacks que compõem o livro. “Pensei que talvez pudesse registar todas as cenas do passado a preto e branco. Porque a atmosfera era realmente sombria”, explica.

A trabalhar neste momento num segundo álbum, Mansoureh prefere não revelar demasiado. Mas lá vai dizendo que “é ficção, mas não é ficção”. E acrescenta: “É sobre mulheres, mais uma vez. Mas é ficção”.

Irão hoje e o sonho do regresso

Apesar de viver longe do seu país há longos anos, Mansoureh Kamari não deixa de acompanhar o que se passa por lá. E a forte repressão e a onda de execuções com que foram recebidos os protestos populares de janeiro, que começaram contra o aumento do custo de vida mas depressa se transformaram em crítica ao regime, perturbaram-na muito. “Senti que a minha mente não aguentava mais. Se ficasse a pensar nas notícias, não conseguia trabalhar. Não conseguiu respirar. Por isso tentava não pensar nisso a toda a hora e concentrar-me apenas naquilo que eu posso fazer: trabalhar e tentar contar uma história”.

Em finais de fevereiro, o Irão foi alvo de uma campanha militar israelo-americana que visou infraestruturas militares, instalações nucleares e centros do poder governamental. O objetivo confesso de EUA e Israel: travar as alegadas ambições de Teerão de ter a arma nuclear, eliminar o programa de mísseis balísticos iraniano e, também, derrubar o regime dos ayatollah que domina o Irão desde 1979. Mas se logo no primeiro dia, os ataques israelitas mataram o guia supremo, o ayatollah Ali Khamenei, e mais uma dezenas de altas figuras do regime, a verdade é que, mais de seis meses depois, este se mantém, agora liderado pelo filho de Khamenei, Moqtaba.

Mansoureh acredita que o regime iraniano vai acabar por mudar. “Vai acontecer em breve? Acho que não”, admite. Mas confessa que gostaria de ser mais otimista - “o que eu diria é que espero que sim, que o regime mude”.

E lamenta as mortes causadas pela repressão que este exerceu sobre os manifestantes. “Para nós é tudo muito próximo. Sinto-o cá dentro. São as execuções. Desde janeiro que sinto como se uma parte de mim estivesse a morrer todos os dias”, procura explicar. E acrescenta: “Espero que melhore. Porque toda esta situação está a roubar-nos a alegria de viver.”

Ainda com família a viver no Irão, Mansoureh garante que a dor que sente é por eles mas também por todos os iranianos. “Não se trata apenas da minha família. Há uma dor que nos une, nós iranianos. Todos perdemos alguém, de alguma forma. Um vizinho, um membro da família e isso torna-se numa dor que nos liga”, afirma a desenhadora.

Regressar um dia ao Irão é algo que em que admite pensar com alguma frequência. Mas garante que, neste momento, “sonho principalmente com a mudança da situação para os outros. Essa é a minha esperança”. Mas admite: “Será que eu voltaria? Claro”.

Quanto à vinda à Amadora BD, perguntamos se é uma boa forma de divulgar a sua história e tornar os leitores mais conscientes do que se passa no seu país. Mansoureh acredita que é tudo uma questão de emoções. “A situação é diferente, a língua é diferente, a cultura é diferente, mas no final todos partilhamos a conexão e as emoções. É assim que me conecto com as pessoas.”

Amadora BD 2026 entre os dias 15 e 25

A 37.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora decorre de 15 a 25 de outubro, reunindo mais de duas dezenas de criadores internacionais, com destaque para a presença de Peter Van Dongen (Blake & Mortimer), Ryan North e Iban Coello (que acompanham a exposição 65 anos do Quarteto Fantástico), Mansoureh Kamari (As Linhas que Traçam o meu Corpo), Thomas Gilbert (As Raparigas de Salem), Josep Homs (Shi - Ciclo Um), Guy Delisle (Guy Delisle, o viajante imprevisto) e Bruno Brindisi (Dylan Dog: 40 Anos Do Investigador Do Pesadelo). O evento, promovido pela Câmara Municipal da Amadora desde 1990, conta com 14 exposições espalhadas pelo Parque da Liberdade, Galeria Municipal Artur Bual e Bedeteca da Amadora.

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