O escritor Thomas Mann em 1936, momento em que se dá ascensão do nazismo e a proibição de vários livros.
O escritor Thomas Mann em 1936, momento em que se dá ascensão do nazismo e a proibição de vários livros. D.R.

Elogio à leitura em tempo de eliminar Saramago

Chegou às livrarias um quarteto imperdível: Thomas Mann, Espinosa, Wittgenstein e Proust. Bons exemplos de escritores cuja obra sobreviveu a quem a quis apagar, como a religião e o nazismo.
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O leitor português recordará Thomas Mann por várias vias: a do romance devido A Montanha Mágica, a da novela devido A Morte em Veneza, dois entre tantos outros títulos que estão a ser reeditados em Portugal após os direitos de autor dos seus livros terem entrado no domínio público. No entanto, este regresso de Thomas Mann tem um benefício inesperado, a reunião de muitos dos seus ensaios e a tradução para a língua portuguesa numa edição de responsabilidade e prefaciada pelo germanista da Universidade de Coimbra, António Sousa Ribeiro.

O tradutor começa por enquadrar o género ensaio no longo prefácio que antecede a recolha de dezoito textos, que “a partir do gesto fundador de Montaigne havia muito que ganhara direito de cidadania nas letras europeias”, e relacionar o registo com a exaustiva produção de Mann. O conjunto de ensaios começa com A Minha Vida num Relance, texto solicitado pela Academia Sueca após ter recebido o Nobel da Literatura, e no qual desfaz o provável bom comportamento que um escritor galardoado deveria ter tido enquanto aluno: “Detestava a escola e, até ao final, não estive à altura das suas exigências.” Justifica este comportamento pela sua “indolência”, entre outras razões, acabando por confessar que tudo teve a ver com a escolha errada do curso. Percebe-se nestas “confissões” que a prática literária estava bem mais certa para Mann do que ser comerciante, como era suposto.

Sousa Ribeiro abre com o seu prefácio as portas para as quinhentas páginas que se seguem deste volume intitulado, simplesmente, Ensaios e consegue oferecer um bom roteiro para o que se irá conjugar entre o autobiográfico e o futuro de uma carreira como a conhecemos. É interessante rever um percurso literário e as sensibilidades do escritor; como uma narrativa inicial, Perdida; de uma outra, O Pequeno Senhor Friedemann, até publicar Os Buddenbrooks em dois volumes. A partir daí, tudo o mais que veio a publicar é história. Como refere o prefaciador, estamos perante um autor que após um discurso em 1922, a propósito do assassínio de Walter Rathenau, fez com que Thomas Mann “traduzisse a adoção definitiva da figura do intelectual público” e que foi sempre prevalecendo numa “figura de escritor associada com clareza à defesa da ideia republicana”. Após o exílio no ano de 1933, pode ler-se nestes ensaios, Mann impôs a sua visão crítica do nazismo, regime que em muito contribuiu para o romance O Doutor Fausto. Daí que este Ensaios, tal como a leitura das suas alocuções aos microfones da rádio durante a II Guerra Mundial, devam merecer uma boa atenção nestes tempos em que o mundo está perante uma complexa encruzilhada.

ENSAIOS

Thomas Mann

Relógio D’Água

504 páginas


O historiador Ian Buruma, especialista no Japão e na China, dedicou-se a um filósofo neerlandês que diz muito aos portugueses, Espinosa, e publicou há dois anos um volume intitulado O Messias da Liberdade, recentemente traduzido por Jorge Melícias. O texto começa com o capítulo O Espinosa de cada um de nós e termina com Espinosismo, atravessando entretanto vários momentos da vida e do pensamento deste protagonista, como o relatado no capítulo Nascido para o confronto. Tudo começa pelo fim do filósofo: “Os ossos de Benedictus, ou Baruch ou Bento de Espinosa estão enterrados nos terrenos de uma bela igreja protestante barroca na localidade neerlandesa de Haia”. As páginas que se seguem pretendem contar o significado do que foi a vida do filósofo que tem influenciado tantos pensadores (Marx e Freud, por exemplo); relatar a grande crise filosófica e teológica de 1656, que prestigiou em muito as suas teorias no confronto com as de Descartes, ou a relação epistolar com Leibniz, entre muitas particularidades a que Buruma dá atenção neste trabalho biográfico e filosófico. Curioso o aviso que deixa nas últimas páginas: “A sua defesa da liberdade de pensamento foi absoluta”.    

ESPINOSA – O MESSIAS DA LIBERDADE

Ian Buruma

Quetzal

296 páginas


Se se procura um dos filósofos mais desconcertantes e ao mesmo tempo herdeiro da filosofia tradicional, uma das respostas mais interessantes está em Ludwig Wittgenstein. Daí que esta espécie de enciclopédia intitulada Ludwig Wittgenstein - Filosofia na Era dos Aviões (tradução de Jorge Melícias) seja muito oportuna para quem queira em poucas e certeiras penadas conhecer o seu pensamento e, principalmente, a sua personalidade. O autor, Anthony Gottlieb, faz uma resenha bem extensa do percurso do filósofo, mostrando a sua difícil forma de ser, por exemplo, citando Keynes aquando do regresso de Wittgenstein a Cambridge: “Bem, Deus chegou”. Muitas das boas páginas desta biografia devem-se ao relato da relação entre o filósofo e Bertrand Russel, uma cumplicidade que viria a terminar menos bem. Não será por acaso que sobre Wittgenstein um colega tenha dito: “Fez com que a nossa geração de filósofos se tornasse insegura em relação à própria filosofia”.

LUDWIG WITTGENSTEIN

Anthony Gottlieb

Edições 70

205 páginas

 Apesar de se terem passado 120 anos sobre a escrita de Elogio da Leitura, o texto e futuro prefácio para um livro de John Ruskin, o que nele escreveu Marcel Proust ainda hoje tem uma enorme atualidade. Quanto mais não seja porque permite aos leitores de agora compreenderem o significado dos clássicos e de como os antigos autores-escultores utilizavam a língua do seu tempo e o que nela incorporaram a partir da sua capacidade inventiva. Feito de poucas páginas, será o melhor volume para contrariar os desmandos de quem quer diminuir José Saramago e a única obra em português capaz de ter interessado àquele prémio chamado Nobel.              

ELOGIO DA LEITURA

Marcel Proust

Guerra & Paz

101 páginas

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Desde há um mês que a editora Quetzal está a publicar várias obras numa coleção a que deu o nome de A Biblioteca de Alexandria. Os primeiros dois volumes que chegaram às livrarias foram A Vida de Lazarillo de Tormes e Suas Fortunas e Adversidades, datado de 1554 e de autoria desconhecida, e o clássico Robinson Crusoe, datado de 1719 e de Daniel Defoe (respectivamente traduzidos por Margarida Amado Acosta e João Pedro Vala). Seguindo a proposta que deu origem à biblioteca mais importante da antiguidade, a de preservar o conhecimento e o saber através de textos impressos, esta coleção vai ter um terceiro volume ainda esta semana, o romance A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz.

As histórias que contam são bem conhecidas: a vida do jovem pobre Lázaro, que convive com uma sociedade pouco justa e humana, numa narrativa que tem seduzido milhões de leitores desde há quatro séculos; com menos cem anos de publicado que o anterior romance, a difícil sobrevivência de um náufrago transformou-se num clássico da literatura da aventura e de carácter lutador; datado de 1901, a vida de Jacinto tem interessado e divertido com o seu humor uma enorme corte de leitores que “viajam” de Paris para o Douro com um protagonista tipicamente português.

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