Nota-se que ficou fascinado com os rituais do Vaticano, quase de uma maneira em que se desconstrói os procedimentos do storytelling…Sim, porque a história poderia suceder num outro tipo de ambiente, por exemplo num jornal, embora a mudança de um diretor não pressuponha nenhum ritual. Para mim, a questão dos detalhes do ritual tornam o filme visualmente interessante. Fiquei interessado neste tema porque o desconhecia em grande parte. Os católicos são perfeitos em criar mistérios, fazem tudo à porta fechada. Fui criado como protestante e só aos nove anos entrei numa igreja católica, e lembro-me de ter ficado esmagado com toda aquela pompa e diretório. Os católicos fazem muito bem essa construção da imagem de Deus, que nos deixa de boca aberta, sobrando um sentimento de poder para a figura dos padres. Fiquei mesmo interessado em todos esses rituais, fizemos muita pesquisa, lemos muitos livros, falámos com cardinais, arcebispos, decanos, etc. Obviamente, eles só falavam daquilo que é conhecido de fora, pois é mesmo proibido falarem sobre o que fica à porta fechada durante o conclave..O conclave como fonte de mistério.Mistério é a palavra certa. Mas há coisas que podem ser descritas, como, por exemplo, a urna dos votos. Até podemos assumir que nas últimas décadas tenham ocorrido mudanças, pois muito do que vemos no filme é imaginado. Houve uma altura em que queria um cinema muito próximo do real, mas agora já não penso assim. Cada vez mais o cinema produz uma realidade manufaturada, mesmo o Habemus Papam - Temos Papa, do Nanni Moretti, é sobre a realidade do próprio Moretti. Gosto dessa ideia de irmos pelo poder dos instrumentos da câmara, música, guarda-roupa e decoração e dizer “esta é a realidade que estamos a criar e a chamar o público para ficar diante dela durante duas horas”. Outra coisa que me fascina no conclave, que é o facto de ser tão oposto ao nosso dia a dia..Está a falar da fantasia do poder do cinema…Sim, porque aqui neste tema não podemos ser realistas. Mas gostava que o público sentisse que é real. Até acho que o mundo criado por George Lucas em A Guerra das Estrelas se tornou real para o público… Tem tudo a ver com a suspensão da crença..Por outro lado, no livro de Robert Harris fala-se de questões reais, como a ameaça do islamismo.Tem de haver um equilíbrio sensível com o grande panorama de opiniões em relação à fé. Penso que o filme fala dessas questões numa abordagem não dogmática. Pessoalmente, acho que a religião não pode ser dogmática. Claro que muitos religiosos não vão aceitar este filme e vão achar que é um sacrilégio, mesmo eu tendo tentado uma certa abertura. Mas creio também que muitos crentes vão ficar do nosso lado e apoiar o filme - Conclave não rebaixa ninguém, digo mesmo que até enfatiza as pessoas que fazem parte da Igreja Católica. Eu, por outro lado, nunca poderia ser um crente, tenho demasiadas dúvidas sobre tudo. Há muita gente que acha que a igreja é algo terrível e que todas as guerras nascem dela, mas também acredito que se não tivéssemos templos, sinagogas e igrejas não iríamos ficar com nada! A igreja dá-nos identidade, cultura e história. Na cultura ocidental poucas coisas nos unem tanto como a igreja. Reafirmo que a igreja é uma instituição cultural muito importante. Por muito que precise de mudança, é bem melhor existir do que ser extinta, e o que o filme propaga é a necessidade de continuar aberta ao mundo..Coincidência depois de fazer A Oeste Nada de Novo, filme em que retrata um grupo de homens na experiência da guerra, voltar a filmar um grupo de homens, neste caso num conclave?Coincidência, mas em defesa da minha evolução na filmografia, desta vez a feminilidade joga um papel importante, e não é por acaso que acabo o filme com o Ralph Fiennes a olhar para a janela e a apanhar três mulheres. O futuro está nas mulheres..Quando pesquisou com altos representantes da igreja. falou dessa mudança que pode passar pelas mulheres?Sim, e a personagem do Stanley Tucci é muito credível. Há cardeais que pensam com o mesmo valor liberal que ele. Estamos a falar de um debate teológico em permanente evolução. Não estou a inventar quando mostro que no Vaticano haja quem queira dar um espaço maior às mulheres, pois ouvi muito essa vontade. E há também uma fação que quer voltar para um registo mais perto da antiga tradição..Claro que quando pensou em Ralph Fiennes para o papel principal já contava com excelência, mas o que acabou por o surpreender no seu trabalho?Quando olhava para os olhos dele através da câmara, sentia que eles estavam a tocar o meu sangue. Ele em personagem invade-nos! O olhar de Ralph Fiennes é poderosíssimo, nunca vi nada assim na minha vida… Uma coisa eu já sabia, era um ator que me iria deixar ver o que está para além do seu olhar. Olhamos para ele em ação e sabemos o que está a pensar! No filme ele não precisa de palavras. Depois, temos o Stanley Tucci, que é completamente diferente, trabalha de uma outra maneira e é bem mais relaxado. Felizmente, eles amam-se, deram-se muito bem. O Tucci é incrível no filme, parece que não faz nada mas depois, na mesa de montagem, está lá tudo! Trata-se da magia de um ator que confia na câmara..Telepatia?É magia, nunca vi nada assim..Vai fazer o percurso de outros cineastas alemães que se tornaram parte de Hollywood, como Roland Emmerich ou Wolfgang Petersen? Pergunto isso pois está com um projeto concluído para a Netflix, The Ballad of a Small Player, com Tilda Swinton e Colin Farrell.Vou ficar sempre atraído por ir atrás das melhores histórias, e se for na Alemanha, que seja, embora a minha bitola esteja agora bem elevada..Agora pode fazer o que quiser…Não sei se é bem assim. Gostava de poder ajudar o cinema alemão, na medida em que é raro um filme nosso ter sucesso lá fora, está a ficar muito comercial e a ser pensado para agradar só ao mercado interno.