Cinema queer, o que é? Num país em que existe um importante festival de cinema sobre cinema gay e lésbico — Queer Lisboa, fundado em 1997 (que começou, precisamente, com a designação de Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa) —, a pergunta envolve, necessariamente, uma pluralidade de questões que vão das especificidades temáticas até às formas narrativas dos respetivos filmes. Eis, por isso, uma boa notícia: a chegada às salas do filme Duas Vezes João Liberada, uma realização de Paula Tomás Marques que teve a primeira apresentação pública em fevereiro de 2025, na secção Perspetivas do Festival de Berlim.Como acontece quando se aplica uma determinada classificação artística, envolvendo ou não a identidade das personagens representadas, o efeito de “rótulo” dessa classificação corre o risco, mesmo involuntário, de gerar muitas formas de simplismo estético — e até ético. Embora consciente de que o meu ponto de vista está longe de ser universal (é mesmo minoritário), sou dos espetadores que consideram que a representação da sexualidade — entenda-se: de qualquer forma de sexualidade — como uma obrigatória "bandeira” social tende a alimentar uma lógica normativa e um pensamento formatado. No limite, cada figura individual enredada nessa linguagem “militante” vai-se esgotando num “símbolo” generalista, desse modo esvaziando as suas singularidades, quer dizer, a sua dimensão humana.Creio que faz algum sentido dizer que Duas Vezes João Liberada nasce da consciência ativa de tais problemas de expressão. Não que isso transforme o filme numa “tese” sobre o que quer que seja (ainda menos numa variação do ponto de vista pessoal expresso no parágrafo anterior). O importante é que não se trata tanto de fazer o retrato de uma personagem queer como de criar uma narrativa multifacetada, ágil e contrastada, capaz de lançar uma interrogação pedagógica. A saber: como elaborar uma narrativa centrada numa personagem queer?Este é, assim, o retrato de João Liberada, uma mulher alvo da perseguição da Inquisição portuguesa no século XVIII: a sua identidade sexual é tida como criminosa por resultar de um fenómeno de “dissidência de género”. Acontece que a conhecemos de forma indirecta através de uma actriz, também de nome João, que a interpreta num filme que está a ser rodado em Lisboa... Entre uma e outra há uma cumplicidade carnal que vai contaminando todos os ambientes, marcados pelas cores sensuais da magnífica direção fotográfica de Fresco Mafalda (usando película de 16 mm). .Entramos, assim, num jogo de espelhos que atualiza um género que atravessa toda a história do cinema — “filme-dentro-do-filme" —, embora, certamente não por acaso, tenha tido algumas das suas variações mais brilhantes ao longo da década de 1960: lembremos apenas O Desprezo, de Jean-Luc Godard, e Oito e Meio, de Federico Fellini, ambos de 1963.Sexualidades (plural)No centro dramático surge, não a figura do século XVIII, mas a actriz que a representa. Interpretada por June João (que partilha a autoria do argumento com Paula Tomás Marques), essa actriz do presente vive a João do passado como um fantasma que questiona as próprias filmagens. E começa a surgir a dúvida: será que faz sentido “reconstituir” a história daquela maneira? Mais do que isso: tendo em conta que qualquer filme, voluntariamente ou não, é também um reflexo do seu presente, que significa “reconstituir” uma história?Duas Vezes João Liberada é o contrário de um “sermão” politicamente correto em que a divisão entre “puros” e “impuros” apenas serve para garantir a mais fútil visibilidade mediática. Com precisão e ironia q.b., o filme sabe colocar em jogo a pluralidade de uma sensibilidade queer sem nunca ceder a qualquer lengalenga politicamente correta. Em última instância, o que está em jogo é a linguagem (ou o sistema de linguagens) com que abordamos e pensamos as sexualidades — no cinema e para lá do cinema..Fernão de Magalhães para lá do mito.'Cinco Segundos'. Redescobrindo uma tradição italiana