Como representar, em cinema, um regime totalitário? Entenda-se: nesta pergunta, a palavra fundamental é “representar”. Não basta embrulhar tudo no simplismo moralista de um telefilme mais ou menos novelesco, muitas personagens “más” e um herói “bom”, de modo a não perturbar a nossa boa consciência. Como dar a ver o totalitarismo sem favorecer o esquematismo ideológico, a generalização gratuita e a futilidade narrativa? Dois Procuradores, de Sergei Loznitsa, uma metódica amostragem da violência ditatorial do comunismo soviético em 1937, aí está como um notável objeto de cinema. Em tempos recentes, em diversos contextos cinematográficos, temos assistido à proliferação de filmes que se esgotam em exercícios pueris de “denúncia” de mecanismos ditatoriais. São, talvez, aproximações de um certo “cinema político” dos anos 1960/70 que, em todo o caso, gerou obras francamente mais interessantes do que as suas imitações contemporâneas — para nos ficarmos por um exemplo emblemático, lembremos A Confissão (1970), de Costa-Gavras, com Yves Montand, sobre a repressão comunista na Checoslováquia, a partir do começo da década de 1950. Curiosamente, podemos dizer que, até certo ponto, Dois Procuradores partilha com A Confissão uma mesma solução dramatúrgica. A saber: uma abordagem de um sistema totalitário, não a partir de qualquer visão exterior, mas tendo como pivot uma personagem do seu interior. Assim, no filme de Costa-Gavras, Montand interpreta Artur Ludvik (personagem inspirada em Artur London, militante e político comunista), alto funcionário do governo da Checoslováquia, que começa a sentir que anda a ser vigiado — é apenas o começo de um processo que conduzirá à sua prisão e tortura. Por sua vez, Loznitsa tem como personagem central Alexander Kornyev (notável composição de Alexander Kuznetsov), jovem procurador ao serviço do estado soviético: depois de receber um bilhete escrito por um dos detidos durante as purgas estalinistas — um entre milhões que foram objeto de acusações sem fundamento, acabando por morrer ou “desaparecer” no Gulag que Soljenitsine retratou —, Kornyev dirige-se à prisão onde se encontra o autor do bilhete, tentando encontrar respostas para o silêncio que se abateu sobre o seu paradeiro... Antes mesmo de expor a obscenidade do sistema burocrático que sustenta a repressão, Loznitsa filma a sua geografia. Em sentido literal: a primeira imagem de Dois Procuradores mostra-nos um gigantesco cadeado de um portão que se vai abrir para que entrem alguns prisioneiros que tiveram direito a um breve passeio. É por aí que Kornyev vai entrar, entrando também num dantesco labirinto de corredores, grades e guardas ameaçadores — até chegar ao gabinete do oficial a quem irá solicitar um encontro com o prisioneiro que é o objeto da sua investigação. .Silenciosos e soturnos, os ambientes são tanto mais inquietantes quanto as imagens do filme se distinguem por um realismo “minimalista” em que as cores parecem devoradas pela ameaça de morte que paira em todos os cenários — a direção fotográfica tem assinatura do romeno Oleg Mutu que, além de colaborador regular de Loznitsa, tem o seu nome associado, por exemplo, a 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro de Cannes em 2007. Como uma espécie de efeito paralelo, os sons da prisão distinguem-se por uma abstração metálica, são estranhamente ritmados e, por vezes, têm o contraponto de gritos que ecoam sem vermos os corpos a que pertencem. Autor ucraniano, nascido em 1964 na cidade bielorussa de Baranovichi (então na URSS), Loznitsa confirma com Dois Procuradores as singularidades de um universo ficcional que nunca é estranho à pulsão realista do documentário. Lembremos os exemplos dessa comédia muito negra que é Donbass (2018) ou o trabalho de desconstrução dos materiais da propaganda comunista em Funeral de Estado (2019), espantosa evocação das cerimónias fúnebres de Josef Estaline. Estamos perante um admirável cineasta, capaz de expor os cruzamentos da política com a crueldade da tragédia. .'O Diário do Realizador'. Aleksandr Sokurov refaz a história da Rússia em forma de monumento cinematográfico