Siza Vieira em Lisboa, Álvaro Siza no Porto. O arquiteto Álvaro Siza Vieira, o primeiro português a receber o prémio máximo da Arquitetura mundial, o Pritzker (em 1992), deu uma longa entrevista à jornalista Fátima Campos Ferreira, dividida em duas partes, em dezembro de 2019, para a RTP. Essa conversa, Álvaro Siza Vieira, Arquiteto de Sonhos, está agora versada num livro com o mesmo título, editado este mês pela D. Quixote. Na nota de abertura da obra, a jornalista começa precisamente por mencionar como na capital se acrescenta mais um apelido ao arquiteto que repensou o Chiado após o incêndio de 1988, projetou obras tão emblemáticas como o Pavilhão de Portugal e a sua pala de betão para a Expo ‘98, ou desenhou a Igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses, inaugurada em 1996, que se tornou no maior ponto de atração turístico da cidade. E não se pode esquecer a Casa de Chá da Boa Hora em Leça da Palmeira, concurso ganho nos anos 1950 por Fernando Távora, com quem Siza começa cedo a trabalhar. .O livro Álvaro Siza Vieira, Arquiteto de Sonhos inclui desenhos e fotografias do arquiteto e das suas obras e um prefácio assinado por Eduardo Souto de Moura. “Pedem-me para escrever mais um texto sobre o Siza e tento arranjar desculpas; é que já escrevi treze”, começa por dizer Souto de Moura, que ainda assim não se esquiva ao 14º. Também arquiteto, foi aluno de Siza Vieira, vive no prédio dele e partilha atelier no mesmo edifício. “Os dois fazem parte da paisagem intelectual e mesmo turística do Porto. É habitual os taxistas e condutores de turismo passarem perto ou junto do local onde vivem os ‘Arquitetos Pritzker’. Uma coincidência, no mesmo país, na mesma cidade e no mesmo prédio”, escreve Fátima Campos Ferreira. Sim, porque Eduardo Souto de Moura foi o segundo português a ganhar o Pritzker, em 2011. Tanto neste livro como em A Última Lição, de Patrícia Reis, Álvaro Siza Vieira conta a história da sua vida. Nasceu em Matosinhos em 25 de junho de 1933, o segundo de cinco filhos de uma filha unida e considera que teve uma infância feliz. O pai era engenheiro e professor e nas férias de verão alugava carro com motorista e a família passava um mês em Espanha. Começou a desenhar de pequenino, incentivado por um tio que lhe disse para assinar as obras – e assim fez, com o nome de Ajo (Álvaro Joaquim). Continua a desenhar sem parar até aos dias de hoje, mesmo enquanto fala, em papéis e nos maços de cigarros que o acompanham sempre. Quis ser escultor, mas incapaz de contrariar o pai, inscreveu-se em Arquitetura e o resto é história.Nestes dois livros sobre Siza Vieira, os dados cruzam-se umas vezes e complementam-se noutras. O arquiteto não foge às perguntas, até às mais difíceis, como aquelas sobre a única mulher com quem foi casado, Maria Antónia Siza, que morreu aos 33 anos, e da dificuldade que foi criar sem mãe os dois filhos, Álvaro e Joana. O livro de Patrícia Reis, que resultou de várias conversas com o arquiteto, no Porto, insere-se numa coleção da Contraponto que inclui outras personalidades relevantes da sociedade portuguesa, e está dividido em várias partes, cada uma delas com um texto introdutório da escritora. Tem a particularidade de refletir também sobre a escrita do arquiteto. “Para conversar com Siza Vieira li. Li tudo o que apanhei (...). O que mais me marcou, contudo, foi a leitura dos textos da sua autoria”, diz Patrícia Reis, para quem há em Siza, “na forma como vê o mundo e como descreve em palavras o que sente, uma dimensão lírica tocante”. .Siza Vieira diz que a escrita que lhe é encomendada “é muito penosa”, escreve, emenda e torna a emendar, mas na poesia sente liberdade. “As coisas que escrevo, a poesia, não tem propositadamente, uma estrutura. São fragmentos. Mas eu gosto dessa fórmula. Uma das coisas que me agrada é o facto de não necessitar de um programa. A arquitetura é o oposto”.Para os amantes da arquitetura, ter Siza Vieira a falar na primeira pessoa de várias das suas obras – e da Arquitetura enquanto disciplina – será talvez o aspeto mais interessante destes dois livros. Siza continua a trabalhar, sobretudo para a Ásia, porque em Portugal sente-se preterido. O Pritzker abriu-lhe ainda mais as portas do mercado internacional, mas afirma que os prémios também lhe têm trazido dissabores: “Quando recebo um prémio, penso logo, e com preocupação: ‘Lá vou ter mais projetos reprovados’”. .António Choupina: “As mulheres de Aalto constroem em pé de igualdade com ele. É um merecido reconhecimento”.Mario Cucinella, o arquiteto italiano que pôs os operários da nova fábrica da Ferrari a ver o verde das colinas