Álvaro Siza Vieira continua a trabalhar aos 93 anos.
Álvaro Siza Vieira continua a trabalhar aos 93 anos. Foto: Igor Martins/Global Imagens

Dois olhares sobre a vida e obra de Álvaro Siza Vieira

O arquiteto fala sobre si levado pelas perguntas de Patrícia Reis, em 'A Última Lição de Álvaro Siza Vieira', e de Fátima Campos Ferreira, em 'Álvaro Siza Vieira, Arquiteto de Sonhos'. Dois novos livros que são duas longas conversas que ora se cruzam, ora se complementam.
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Siza Vieira em Lisboa, Álvaro Siza no Porto. O arquiteto Álvaro Siza Vieira, o primeiro português a receber o prémio máximo da Arquitetura mundial, o Pritzker (em 1992), deu uma longa entrevista à jornalista Fátima Campos Ferreira, dividida em duas partes, em dezembro de 2019, para a RTP. Essa conversa, Álvaro Siza Vieira, Arquiteto de Sonhos, está agora versada num livro com o mesmo título, editado este mês pela D. Quixote.

Na nota de abertura da obra, a jornalista começa precisamente por mencionar como na capital se acrescenta mais um apelido ao arquiteto que repensou o Chiado após o incêndio de 1988, projetou obras tão emblemáticas como o Pavilhão de Portugal e a sua pala de betão para a Expo ‘98, ou desenhou a Igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses, inaugurada em 1996, que se tornou no maior ponto de atração turístico da cidade. E não se pode esquecer a Casa de Chá da Boa Hora em Leça da Palmeira, concurso ganho nos anos 1950 por Fernando Távora, com quem Siza começa cedo a trabalhar.

'Álvaro Siza Vieira, Arquiteto de Sonhos', de Fátima Campos Ferreira (D. Quixote, 2026)
'Álvaro Siza Vieira, Arquiteto de Sonhos', de Fátima Campos Ferreira (D. Quixote, 2026)

O livro Álvaro Siza Vieira, Arquiteto de Sonhos inclui desenhos e fotografias do arquiteto e das suas obras e um prefácio assinado por Eduardo Souto de Moura. “Pedem-me para escrever mais um texto sobre o Siza e tento arranjar desculpas; é que já escrevi treze”, começa por dizer Souto de Moura, que ainda assim não se esquiva ao 14º.

Também arquiteto, foi aluno de Siza Vieira, vive no prédio dele e partilha atelier no mesmo edifício. “Os dois fazem parte da paisagem intelectual e mesmo turística do Porto. É habitual os taxistas e condutores de turismo passarem perto ou junto do local onde vivem os ‘Arquitetos Pritzker’. Uma coincidência, no mesmo país, na mesma cidade e no mesmo prédio”, escreve Fátima Campos Ferreira. Sim, porque Eduardo Souto de Moura foi o segundo português a ganhar o Pritzker, em 2011.

Tanto neste livro como em A Última Lição, de Patrícia Reis, Álvaro Siza Vieira conta a história da sua vida. Nasceu em Matosinhos em 25 de junho de 1933, o segundo de cinco filhos de uma filha unida e considera que teve uma infância feliz. O pai era engenheiro e professor e nas férias de verão alugava carro com motorista e a família passava um mês em Espanha. Começou a desenhar de pequenino, incentivado por um tio que lhe disse para assinar as obras – e assim fez, com o nome de Ajo (Álvaro Joaquim). Continua a desenhar sem parar até aos dias de hoje, mesmo enquanto fala, em papéis e nos maços de cigarros que o acompanham sempre. Quis ser escultor, mas incapaz de contrariar o pai, inscreveu-se em Arquitetura e o resto é história.

Nestes dois livros sobre Siza Vieira, os dados cruzam-se umas vezes e complementam-se noutras. O arquiteto não foge às perguntas, até às mais difíceis, como aquelas sobre a única mulher com quem foi casado, Maria Antónia Siza, que morreu aos 33 anos, e da dificuldade que foi criar sem mãe os dois filhos, Álvaro e Joana.

O livro de Patrícia Reis, que resultou de várias conversas com o arquiteto, no Porto, insere-se numa coleção da Contraponto que inclui outras personalidades relevantes da sociedade portuguesa, e está dividido em várias partes, cada uma delas com um texto introdutório da escritora. Tem a particularidade de refletir também sobre a escrita do arquiteto. “Para conversar com Siza Vieira li. Li tudo o que apanhei (...). O que mais me marcou, contudo, foi a leitura dos textos da sua autoria”, diz Patrícia Reis, para quem há em Siza, “na forma como vê o mundo e como descreve em palavras o que sente, uma dimensão lírica tocante”.

'A Última Lição de Álvaro Siza Vieira', de Patrícia Reis (Contraponto, 2026).
'A Última Lição de Álvaro Siza Vieira', de Patrícia Reis (Contraponto, 2026).

Siza Vieira diz que a escrita que lhe é encomendada “é muito penosa”, escreve, emenda e torna a emendar, mas na poesia sente liberdade. “As coisas que escrevo, a poesia, não tem propositadamente, uma estrutura. São fragmentos. Mas eu gosto dessa fórmula. Uma das coisas que me agrada é o facto de não necessitar de um programa. A arquitetura é o oposto”.

Para os amantes da arquitetura, ter Siza Vieira a falar na primeira pessoa de várias das suas obras – e da Arquitetura enquanto disciplina – será talvez o aspeto mais interessante destes dois livros.

Siza continua a trabalhar, sobretudo para a Ásia, porque em Portugal sente-se preterido. O Pritzker abriu-lhe ainda mais as portas do mercado internacional, mas afirma que os prémios também lhe têm trazido dissabores: “Quando recebo um prémio, penso logo, e com preocupação: ‘Lá vou ter mais projetos reprovados’”.

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